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Abrindo Caminhos
Por Egon Heck
Getulio,
líder religioso, inicia o último dia do 2º Aty Guasu de
Arroyo Korá com a narração de uma mensagem que Nhanderu
(Grande Espírito) havia revelado naquela noite. “As estradas
estavam fechadas. Ficara para traz um cavalo vermelho”. A
revelação trazia bastante preocupação. As estradas fechadas
significavam grandes obstáculos para a vida dos Kaiowá
Guarani. O cavalo vermelho, que ficara para traz significava
perigos para as lideranças indígenas e para os seus aliados
e apoiadores. Após falar dessa mensagem forte que havia
recebido, disse: “mas nós nhanderu-caciques, rezadores,
vamos abrir os caminhos”. Era a força Kaiowá Guarani, a
partir de sua religiosidade, cultura e organização, que
iriam enfrentar os inimigos e remover os obstáculos.
E a Grande
Assembléia, realizada entre os dias 27 e 30 de abril, já era
o início do enfrentamento dos grandes inimigos e obstáculos:
o poder econômico e político, que continuam negando aos
Kaiowá Guarani o direito às suas terras, a repressão à volta
a seus tekohá, os agrotóxicos envenenando a terra e as
águas; a violência que vai invadindo as aldeias,
especialmente com o alcoolismo e drogas, aumentando os
conflitos internos, brigas e mortes; a fome e a dependência
da cesta básica; o descaso com a saúde por parte da Funasa;
a ineficácia da Funai na proteção e garantia dos seus
direitos; o retrocesso na maioria das escolas indígenas, com
a substituição de professores indígenas por não indígenas.
Esses foram alguns dos graves problemas elencados, e que
exigem muita união, organização e determinação para
enfrentar.
A denuncia
dessa situação ficou bem expressa no documento da
Assembléia, onde afirmaram: “Nós Guarani Kaiowá do Mato
Grosso do Sul, queremos dizer mais uma vez que nosso direito
às nossas terras continua desrespeitado, gerando uma
situação de violência sobre nossas comunidades, o que nos
leva a uma situação que nós entendemos como a declaração de
morte de nosso povo. Isso é um crime contra a humanidade, é
um genocídio. Por isso exigimos novamente providências
imediatas dos três poderes para cumprirem suas obrigações
com relação às nossas terras. Não queremos continuar sendo
objetos de migalhas, enquanto pessoas e grupos nacionais e
internacionais, como a indústria da soja e da cana,
continuam ocupando e acumulando riquezas com os bens
retirados de nossas terras”.
Para
reconquistar as terras sagradas das quais foram expulsos e
nelas reconstruir e garantir o teko – modo de viver Guarani
– necessitam de muita força, união e reza. E foi isso que
aconteceu durante os quatro dias da Aty Guasu. Um momento
alegre e forte, de grande participação e busca dos melhores
caminhos para enfrentar tão grandes desafios.
Por isso,
durante toda a noite fizeram seus rituais e danças. E antes
mesmo do dia amanhecer as rodas de chimarrão iam animando
mais um tempo de debate, celebração, alegria e indignação.
As Aty Guasu conseguem ser um espaço para tudo isso.
No final
da assembleia, houve indicação e escolha por unanimidade dos
seus representantes em espaços nacionais da luta indígena.
Eliseu Lopes foi eleito como representante na Articulação
dos Povos Indígenas no Brasil (Apib). Também foram eleitos
os representantes no Conselho Nacional de Segurança
Alimentar (Consea), Delosanto Martins, e para a Carteira
Indígena, José Barbosa.
O
grande destaque nessa assembléia foi a participação das
mulheres Kaiowá Guarani. Após se reunirem separadamente,
exigiram um tempo em que elas coordenaram o encontro para
explicitar suas decisões e propostas. E a palavra das
Kuña-mulheres ecoou forte e enérgica. Solicitaram maior
participação no Conselho da Aty Guasu e decidiram fazer uma
Aty Guasu das Kuña.
Também foi
debatida a grave situação dos jovens indígenas, que embora
não participassem em grande número, se reuniram e levaram
suas preocupações e exigências às lideranças Kaiowá
Guarani. Eles são as maiores vítimas desse processo extremo
de opressão e violência. O indicador mais claro disso é o
alto índice de suicídios, assassinatos e prisões dos jovens.
A droga e o alcoolismo se disseminam rapidamente entre eles.
Porém, eles estão decididos a se organizar, enfrentar todos
esses problemas e se envolver na luta pelos direitos de seu
povo, especialmente a recuperação das terras. Por isso
também querem participar do Conselho da Aty Guasu e realizar
um grande encontro de jovens Kaiowá Guarani.
Leia o documento final do encontro
No final
do encontro foram escolhidos novos participantes do
Conselho, que fora criado em Arroyo Korá, há dois anos.
Após a
benção e batismo dos
documentos-kuatiá e das crianças, houve um ritual
pedindo proteção na volta às aldeias e também para a
delegação que seguiu para o Acampamento Terra Livre, em
Brasília. |
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