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02/07/2007
Transposição do Rio
São Francisco: existem outros caminhos mais abrangentes,
eficientes e baratos
Entrevista
especial com Roberto Malvezzi (Gogó)
As obras para transposição do Rio
São Francisco continuam. Mesmo depois de Dom Luiz Cappio
ter feito greve de fome, que só terminou quando o presidente
Lula prometeu a ele e a toda população brasileira que, após as
eleições, retomaria a conversa, cessando temporariamente as
obras. As eleições passaram, Lula reelegeu-se e calou-se. Não
houve diálogo com os movimentos sociais, com a população
ribeirinha ou com os índios da região. A ordem foi para que as
obras continuassem. Assim, desde a última segunda feira, dia 25
de junho, os índios Trukás, apoiados por inúmeros
movimentos, estão acampados em Cabrobó para impedir a
continuidade das obras do Rio São Francisco.
Assim,
a IHU On-Line entrevistou Roberto Malvezzi, o
Gogó, que esteve no acampamento e também é contra o projeto de
transposição. Na entrevista a seguir, feita por telefone,
Roberto fala do que está acontecendo no acampamento durante
estes dias, das ações do governo e das alternativas que o
movimento propõe e pelas quais o governo não se interessa.
Roberto
Malvezzi é graduado em
Estudos Sociais e Filosofia pela Faculdade Salesiana de
Filosofia Ciências e Letras de Lorena, em São Paulo. Também é
graduado em Teologia pelo Instituto Teológico de São Paulo.
Atualmente, atua na Comissão Pastoral da Terra.
Confira
a entrevista:
IHU On-Line – Você, que esteve no
acampamento, pode falar sobre a movimentação que está
acontecendo nele?
Roberto Malvezzi –
O que está acontecendo é a ocupação de uma fazenda onde o
governo projeta construir a tomada de água. Este lugar é o
chamado eixo norte (1) da transposição do Rio São Francisco.
Acontece que os índios Truká (2) moram numa ilha em frente, a
Ilha da Assunção, e consideram aquela área (a área em frente
à ilha) como sua. Então, movimentos sociais, como
as comunidades ribeirinhas, os pescadores, o MST, os movimentos
atendidos pelas barragens, os Movimentos dos Pequenos
Agricultores, o Movimento da Bahia de Luta pela Terra,
enfim, muitos grupos, resolveram se solidarizar com
os indígenas e ocuparam também a local. Lá, eles protestam e
tentam boicotar o andamento das obras da transposição, ao mesmo
tempo em que lutam para que os índios possam recuperar a terra
que lhes pertencem.
Assim,
mais de 1500 pessoas estão acampadas lá desde a última noite de
segunda-feira. Durante o dia, há informação e debates. Ontem,
frei Luiz e Dom José Geraldo passaram por lá. Os
movimentos vão prosseguir acampados, com o objetivo de que a
terra seja, enfim, repassada aos índios. O governo entrou com
uma reintegração de posse porque disse que a Fazenda já foi
desapropriada, e essa questão é um dos nós da transposição. O
governo não reconhece que está interferindo em território
indígena. Essa é uma das ações na justiça contra o governo, que
o Supremo não julga, não decide. Então, os movimentos sociais
vêm trazendo à tona essa problemática, a mesma que o governo
tenta jogar para debaixo do tapete de qualquer forma.
IHU On-Line – A ocupação já tem
dado algum tipo de resultado em relação às medidas que o governo
tem tomado?
Roberto Malvezzi –
O governo mandou um representante do Ministério da Integração
querendo conversar com o movimento, mas este afirma e reafirma
que agora não há mais o que conversar, pois já procurou o
governo durante meses e o governo não quis debater. Então, agora
só conversam se o Exército se retirar e a obra for suspensa. Aí
sim o movimento aceita conversar para discutir as alternativas
que nós temos para a transposição do São Francisco. Nesse
momento, repito, não há mais conversa.
IHU On-Line – Você disse, em um
artigo, que não há mais como debater com os parlamentares.
Então, o que o movimento social lá instalado pretende fazer a
partir de agora?
Roberto Malvezzi –
Como essa é uma caminhada complexa, logo a gente precisa ir
avaliando, passo a passo, momento a momento. Então, o governo
entrou com uma ação de reintegração de posse e tem gente dizendo
que pode ser julgada hoje (ele se refere ao dia 29 de junho
de 2007). Então, vai depender da decisão do juiz, que decide
da comarca de Salgueiro, em Pernambuco. Além da
reintegração de posse, aguardamos a decisão dos índios de
continuar na área. Então, não temos uma posição definitiva. O
que acontece é que, enquanto tivermos possibilidades,
permaneceremos na área.
IHU On-Line – Como está a
movimentação da polícia e do Exército próximos à área do
acampamento?
Roberto Malvezzi –
Por enquanto, não houve nenhuma interferência. O Exército está
mais próximo, no sentido de que está fazendo o desmatamento da
área para os canais, mas não interferiu em nada até agora, assim
como a polícia. A única coisa que aconteceu foi a visita do
representante do Ministério da Integração e, agora, o governo
disse que entraria com a ação. Estamos aguardando para ver se
irão mesmo entrar com o processo.
IHU On-Line – Em artigo, você
falou que, neste caso, os conflitos são inevitáveis. Que
conflitos vocês estão prevendo?
Roberto Malvezzi –
Os conflitos estão sendo estabelecidos à medida que as obras
avançam e que as populações ribeirinhas do Rio São Francisco
reagem. Há movimentos, populações indígenas e ribeirinhas
decididos a resistir à implementação da obra que o governo
decidiu fazer.
IHU On-Line – Dom Cappio falou
que, mesmo se os inimigos vierem armados, eles irão responder
com as "armas da vida". O que o senhor acha desta afirmação?
Roberto Malvezzi –
Quando frei Luiz fala assim, nós sabemos que ele sempre guarda
um pouco de mistério em relação às atitudes que podem vir pela
frente. O que ele está querendo dizer é que o movimento social
irá continuar e que nossa resistência, evidentemente, não é
feita por meio de armas de fogo nem por meio da violência.
Frei Luiz já deu um exemplo, no ano passado, dessa arma,
que, no caso, foi a greve de fome. Então, o que se desenha para
o horizonte futuro é que aquelas armas próprias de quem luta a
favor da paz poderão ser novamente utilizadas, no momento em que
for indispensável que elas retornem. O que ele está querendo
dizer é que haverá resistência.
IHU On-Line – O que as pessoas
envolvidas com o agronegócio tem feito para impedir que a luta
de vocês não resista e que as obras da transposição avancem?
Roberto Malvezzi –
As obras da transposição são decididas pelo capital econômico e
financeiro, que é o mesmo que administra o País há quinze anos,
desde o Governo Itamar (3). É que quando chegou ao poder um novo
grupo no Ceará, liderado pelo Ciro Gomes (4) e
pelo Tasso Jereissati (5), ele projetou todo um sistema
de desenvolvimento para aquela região, que incluiu a construção
do Porto de Pecem, a construção da Transnordestina,
que é a estrada de ferro que vai levar os produtos até o Porto,
e o complexo industrial do Porto de Pecem, inclusive com
siderurgia. Para todo esse projeto econômico, além do complexo
de indústria de ferro, e também em função da irrigação e da
criação de camarão em cativeiro, eles precisam de água. Então, a
transposição, na verdade, é uma peça de um projeto de
desenvolvimento maior, muito mais amplo. E, como num projeto de
desenvolvimento desses envolve muito capital, muito dinheiro (só
a transposição está orçada em quase sete bilhões de reais),
todos os envolvidos com o agronegócio têm interesse nisso. Na
verdade, mudam o governo e os ministros, mas o projeto de
transposição nunca sai de pauta. O Ministério da Integração está
a serviço deste projeto há mais de quinze anos. Evidentemente,
sabemos que há interesses poderosos, determinados e articulados.
Nós temos tentado dizer à sociedade brasileira que o projeto,
que aparece como que para acabar com a sede do povo, tem por
trás o interesse poderoso da agroindústria, do complexo
siderúrgico e de uma elite que irá se beneficiar com essa água.
Isto significa que a transposição não tem a finalidade de saciar
a sede das pessoas mais necessitadas. Para isso, existem outras
propostas, outras alternativas, que nós defendemos, mas,
infelizmente, não conseguimos encontrar eco no Governo Federal,
que se colocou a serviço desse projeto econômico daquela região
do Nordeste.
IHU On-Line – Que tipos de apoios
estão vindo da sociedade, da população do Nordeste, além do
apoio dos movimentos sociais?
Roberto Malvezzi –
A população local tem ido protestar. Se você for ao acampamento,
poderá ver os índios e ribeirinhos da região. Mesmo o MST que
está lá é do Nordeste, ou seja, são rostos conhecidos aqui na
região. Agora, ainda contamos com a solidariedade da população
urbana que visita o local. Hoje (29 de junho de 2007),
por exemplo, teremos a presença de políticos que são solidários
a nossa causa. Temos a mídia local favorável, colocando a
questão em debate. Desse modo, sabemos que a resistência também
é feita pela comunidade local, por aquelas pessoas que também
são as vítimas da transposição do Rio São Francisco e desses
projetos que, ao longo dos anos, vão se instalando sempre à
custa das populações mais pobres.
É bom
registrar que nós somos contra a transposição porque temos
propostas melhores para o semi-árido brasileiro do que a da
transposição. Nossas propostas vão em duas linhas: para o meio
rural, nós defendemos as obras que têm a lógica da chamada
convivência com o semi-árido, que é a captação da água de chuva
do meio rural tanto para beber quanto para produzir. E, para o
meio urbano, nós defendemos a implementação da obras do Atlas do
Nordeste, que é um leque de obras propostos pela Agência
Nacional de Águas e atingiria 1112 municípios com núcleos
urbanos, ou seja, acima de cinco mil pessoas, além de mais 244
municípios com núcleos urbanos abaixo de cinco mil pessoas.
Alcançaria os nove estados do Nordeste, mais o norte de Minas
Gerais e resolveria o problema hídrico de 34 milhões de
nordestinos até 2015. Quer dizer, se o governo tem efetivo
interesse em resolver o problema da sede do povo, teria outros
caminhos a percorrer que não os da transposição. Mas, como o
governo está comprometido com o projeto econômico da elite, opta
pela transposição e ignora as alternativas. Ainda assim, nós
vamos continuar dizendo à sociedade brasileira que existem
outros caminhos mais abrangentes, eficientes e baratos.
Notas:
(1)
No Projeto de Transposição, esse eixo norte prevê água para os
sertões de Pernambuco, do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do
Norte.
(2)
Os Truká vivem na Ilha da Assunção, no médio rio São
Francisco, no município de Cabrobó . Eles estão estimados em
3.463 e tem seu território com uma superfície de 5.769ha. A
aldeia da Assunção foi fundada provavelmente em 1722, e ficava
situada em uma grande ilha com esse mesmo nome.
(3)
Foi presidente do Brasil entre 2 de outubro de 1992 e 1º de
janeiro de 1995.
(4)
Político brasileiro. Com a eleição de Lula, Ciro Gomes aceitou o
convite do presidente eleito para assumir o Ministério da
Integração Nacional, responsável pelo desenvolvimento regional e
obras de infra-estrutura. Em março de 2006, Ciro Gomes renunciou
ao cargo de ministro para concorrer à Câmara dos Deputados pelo
Estado do Ceará. Foi eleito o deputado federal proporcionalmete
mais votado do Brasil, com mais de 16% dos votos no seu estado.
(5)
É um político e empresário do Brasil, além de senador pelo
Partido da Social Democracia Brasileira.
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