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Encontro Nacional dos Povos Indígenas
em Defesa da Terra e da Vida
Documento final do Encontro Nacional dos
Povos Indígenas,
em Luziânia (GO)
Nós,
lideranças e representantes de 66 povos indígenas do Brasil,
estivemos reunidos em Luziânia GO, nos dias 29 de abril a 1º
de maio, para fazer uma análise sobre a realidade de nossos
povos diante do atual modelo de desenvolvimento imposto pelo
governo brasileiro; diante das pendências fundiárias que
envolvem nossas terras; diante da perseguição e
criminalização de lideranças e povos que estão em luta pela
garantia de nossos direitos.
No
primeiro dia do encontro, apresentamos para as
subprocuradoras da República, Dra. Deborah Duprat e Dra.
Raquel Dodge, coordenadoras das 6ª e 2ª Câmaras do
Ministério Público Federal (MPF), nossos mais graves
problemas. Ao mesmo tempo, solicitamos que o MPF intervenha
junto aos poderes públicos - especialmente o Ministério da
Justiça e o seu órgão indigenista, a Fundação Nacional do
Índio (Funai) - para que estes busquem solucionar os
problemas, fundamentalmente aqueles relacionados ao
descumprimento dos dispositivos constitucionais que nos
asseguram a demarcação e usufruto exclusivo de nossas
terras.
Junto com
as subprocuradoras da República, avaliamos com preocupação
que o desrespeito aos nossos direitos constitucionais gera
outras questões graves, tais como a invasão de terras, a
depredação do meio ambiente, a implementação de projetos e
empreendimentos econômicos nas áreas indígenas que impactam
de forma negativa as nossas organizações tradicionais, a
judicialização das demarcações de terras, a perseguição e a
criminalização de centenas de nossas lideranças no país.
No
decorrer do segundo dia de nosso encontro, realizamos
levantamentos sobre os empreendimentos que agridem - direta
e indiretamente - nossas comunidades e povos; sobre a
situação fundiária de nossas terras; sobre as perseguições,
prisões e agressões praticadas contra nossos líderes. Os
dados preliminares que coletamos dão conta de 434
empreendimentos atingem nossos territórios. Os programas
desenvolvimentistas do governo federal - vinculados ou não
ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) - gerarão
impactos em 182 terras indígenas, atingindo 108 povos.
O InfoPen/MJ
registra 748 indígenas presos em todo o país, e neste
encontro, identificamos que muitas dessas prisões, bem como
processos nos quais indígenas são réus, decorrem de nossa
luta. Entendemos que lideranças são perseguidas e sofrem
violências, praticadas inclusive por agentes da Polícia
Federal. Em muitas regiões há juízes ocupantes de terras
indígenas, ou que defendem interesses de fazendeiros e até
de grileiros assentados em áreas demarcadas ou reivindicadas
como de ocupação tradicional indígena. Tais juízes não podem
julgar as ações relativas às nossas terras e devem ser
impedidos, uma vez que são partes interessadas nas ações.
Causa-nos
preocupação a atuação do Poder Judiciário. Na grande maioria
das regiões, o Judiciário tem adotado procedimentos e
decisões contrárias aos nossos direitos constitucionais,
especialmente nos casos de mandados de reintegração de posse
nas ações contra demarcações de terras, nos expulsando de
nossos territórios, e na decretação da prisão e na
condenação de nossas lideranças que reivindicam a garantia,
posse e usufruto de nossas terras. Já para o julgamento de
ações que são favoráveis aos interesses indígenas, o Poder
Judiciário tem protelado por décadas a tomada de decisões -
a exemplo do caso Pataxó Hã-Hã-Hãe - à espera de julgamento
no Supremo Tribunal Federal.
Preocupa-nos muito a falta de iniciativa do governo federal
no sentido de estruturar uma política indigenista que dê
conta e atenda às diferentes realidades e demandas dos Povos
Indígenas. As questões que destacamos neste documento são
constantemente denunciadas aos órgãos públicos para que
sejam tomadas medidas cabíveis para solucioná-las. No
entanto, o Ministério da Justiça - através de seu órgão
indigenista - não dá respostas. Não tem ação, é lento,
burocrático e busca apenas acomodar os conflitos, sem querer
resolvê-los.
Isso vem
acontecendo mais gravemente com relação à demarcação de
terras em Mato Grosso do Sul. Apesar de a Funai ter se
comprometido num Termo de Ajustamento de Conduta não
demarcou as terras do povo Guarani Kaiowá, que sofre
processo de genocídio. Em toda a Região Nordeste, as terras
são afetadas pelos grandes plantios de cana-de-açúcar, pela
construção de redes hoteleiras (resorts) e por grandes
obras, como a transposição das águas do rio São Francisco e
a construção da ferrovia transnordestina. No Sul e Sudeste
do Brasil, nossos povos vivem em acampamentos à beira de
estradas ou em pequenas áreas que não garantem mínimas
condições de vida.
Nos
estados do Norte e Centro-Oeste, a Funai tem se omitido na
conclusão dos procedimentos demarcatórios e na proteção de
nossas terras, especialmente nos estados de Rondônia, Mato
Grosso e Maranhão. Além disso, permite que sejam
estruturados grandes empreendimentos econômicos que
devastarão as terras indígenas, inclusive em áreas de povos
que vivem sem contato com a sociedade brasileira. Exemplos
disso não nos faltam, tais como o complexo hidroelétrico do
Rio Madeira, a Usina de Belo Monte, as hidroelétricas
projetadas para os rios Tapajós, Juruena, Teles Pires e
outras em construção ou planejadas como Estreito, Serra
Quebrada, Santa Izabel, Marabá, nos rios Tocantins, Araguaia
e Tapajós.
Para
agravar este quadro, a Funai tem dado aval para a abertura
de novas rodovias e ferrovias que rasgarão terras indígenas;
tem dado pareceres favoráveis à construção de pequenas
centrais hidroelétricas em rios que cruzam as áreas
indígenas, como acontece na terra indígena Rio Branco; não
se opõe ao plantio de monocultivos de soja transgênica,
cana-de-açúcar, eucalipto, pinus ou à criação de gado em
terras que estão em demarcação. E aqui lembramos que não
houve nenhum posicionamento da Funai contrário a construção
de usinas nucleares na região nordeste do Brasil, sendo que
estas poderão afetar nossas terras e toda a população
indígena.
Neste
encontro, também conversamos sobre o movimento indígena,
nossas organizações, articulações e conselhos. Percebemos
que existem dificuldades e que estas serão superadas se
conseguirmos fortalecer as organizações em âmbito local,
regional e nacional. Precisamos também acompanhar e
participar, junto com nossas lideranças, das reuniões da
Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI). Queremos
que ela se transforme efetivamente num conselho com
condições e capacidade para discutir, propor e criar uma
política indigenista que atenda nossas necessidades,
direitos e as diferenças culturais.
O
movimento indígena precisa estar voltado para as nossas
realidades e a partir delas interferir junto aos poderes
públicos, cobrando e exigindo que os nossos direitos sejam
garantidos.
Hoje o
órgão que deveria cuidar de nossos direitos tem servido mais
a interesses daqueles que nos atacam ou que pretendem
explorar as nossas terras. Estamos cansados disso.
Queremos
uma Funai que deixe de atender aos interesses econômicos e
do latifúndio, e que pare de ser órgão licenciador de obras
que rasgam nossas terras. Queremos uma Funai com recursos
suficientes para retirar os invasores de nossos territórios
e, ao mesmo tempo, ter condições de concluir os
procedimentos demarcatórios de nossas terras. Chega de
paralisia nas demarcações. Queremos uma Funai com condições
de defender nossos direitos coletivos e individuais,
especialmente de nossas lideranças que estão criminalizadas.
Ao
finalizar este documento, convocamos todos os povos
indígenas do Brasil para nos unirmos contra os projetos do
governo federal e dos governos estaduais e municipais que
pretendem única e exclusivamente ganhar dinheiro e poder com
a destruição da nossa mãe terra. Mãe que nos nutre, protege
e garante a nossa vida e o nosso futuro, que são nossos
filhos e netos.
Somos,
como bem lembrou um de nossos parentes, os povos do amanhã,
porque não pensamos só no hoje. Queremos que a terra e a
natureza permaneçam vivas para sempre!
Luziânia,
GO, 1º. de maio de 2011. |
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