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01/07/2008
Política
A Guerra Fria do
MP gaúcho
Maria Inês
Nassif
Jornal Valor
Econômico - 26 de junho de 2008
Seria
uma caricatura, não fosse sério. Um relatório secreto do
Conselho Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul
decreta guerra ao MST, prega dissolver o movimento a bem da
"segurança nacional" e define linhas de ataque ao movimento. A
ata secreta de reunião no dia 3 de dezembro do ano passado
revela que o Conselho constituiu uma força-tarefa para
"promover uma ação civil pública com vistas à dissolução do
MST e a declaração de sua ilegalidade". A diretriz, que está
sendo executada de forma articulada com a Justiça e a Brigada
Militar, é a de acuar o movimento em várias frentes: proibir
marchas e deslocamentos em massa dos sem terra; investigar os
integrantes de acampamentos e dirigentes quanto ao uso de
verbas públicas; intervir nas escolas do MST; impedir a
presença de crianças e adolescentes nos acampamentos; nos
assentamentos, comprovar desvios de finalidade da terra;
promover investigação eleitoral "nas localidades em que se
situam os acampamentos controlados pelo MST, examinando-se a
existência de condutas tendentes ao desequilíbrio deliberado
da situação eleitoral" e atuar para cancelar os títulos de
eleitor dos assentados.
A
decisão teria de ficar sob sigilo por 10 anos, mas veio a
público quando foi anexada como prova de uma denúncia feita à
Justiça pelo MPE contra acampados do MST em duas áreas cedidas
por proprietários na proximidade da Fazenda Coqueiros - a
inicial da ação esclarece que os promotores tomam essa
iniciativa baseados na diretriz do Conselho. Também foi
anexado um relatório do Serviço Secreto da Brigada Militar (PM2).
A ofensiva do Ministério Público, a pronta anuência de juízes
e uma rápida mobilização de efetivos da Brigada Militar montam
o cenário de uma Guerra Fria particular: o MPE aciona a
Justiça usando um discurso ideológico; o juiz decide em favor
da preleção dos promotores; a Brigada Militar responde
prontamente às ordens judiciais.
As
sentenças obtidas até agora são um cerco político ao
movimento: uma proíbe a manifestação política de acampados em
terra do Incra; outra, de um juiz eleitoral, suspende os
títulos de eleitores de acampados em Coqueiros; uma ação do
MPE relativa à ocupação do horto florestal da Fazenda Barba
Negra denuncia 37 integrantes da Via Campesina por dano,
furto, cárcere privado, formação de quadrilha e lavagem
dinheiro, inclusive pessoas que não estavam no local - um
deles o líder nacional do MST, João Pedro Stédile; as escolas
dos assentamentos estão sendo desativadas. Em janeiro, uma
pronta sentença do juiz, favorável a ação proposta pelo MPE -
a pretexto de investigação de um furto de uma máquina
fotográfica, um anel e R$ 200 - permitiu à polícia identificar
os 1200 participantes do 24º Encontro Estadual do MST. É esse
o quadro: a ação articulada e rápida do MPE, da Justiça e da
polícia gaúchas está cassando direitos civis e políticos de
cidadãos brasileiros. Inclusive o direito ao voto.
Justiça cassou títulos eleitorais
O
conteúdo ideológico dessa ofensiva está claramente estampado
nos autos de processos e em documentos judiciais. A linguagem
é tão contundentemente ideológica que é difícil encarar o MPE
e a Justiça do Rio Grande do Sul como partes neutras de um
conflito. Na inicial da ação civil pública apresentada pelos
promotores Luís Felipe de Aguiar Tesheiner e Benhur Biacon
Júnior, pedindo a desocupação dos dois assentamentos do MST
próximos à Fazenda Coqueiros, eles rezam submissão à
orientação do Conselho Superior de "dissolver" o MST e tecem
um longo arrazoado sobre subversão. Definem o movimento como
"uma organização revolucionária que faz da prática criminosa
um meio para desestabilizar a ordem vigente"; asseveram que
"já existem regiões do Brasil dominadas por grupos rebeldes";
apontam como indício de subversão "a doação de recursos por
entidades estrangeiras, como a organização Cáritas, mantida
pela Igreja Católica". A peça ideológica informa que outros
dois promotores estaduais fizeram um "notável serviço de
inteligência" no MST, e essa arapongagem concluiu que o
movimento social tinha uma "estratégia confrontacional", que
seria comprovada pelo material apreendido em acampamentos:
livros de Paulo Freire, Florestan Fernandes, José Martí, Che
Guevara e do pedagogo russo Anton Marenko. De acordo com os
promotores, é prova de intenção de atentar contra a segurança
o uso de frases como "a construção de uma nova sociedade",
"poder popular" e "sufocando com força nossos opressores".
Afirmam também que o MST usa de "fraseologia agressiva,
abertamente inspirada em slogans dos países do antigo bloco
soviético".
Como
verdades, são citados dois relatórios do Serviço Secreto da
Brigada Militar (PM2). Num deles, o coronel Waldir Reis
Cerutti garante que o MST é financiado pelas Farc. "Análises
do nosso sistema de inteligência permitem supor que o MST
esteja em plena fase executiva de um arrojado plano
estratégico, formulado a partir de tal "convênio" (com a Farc),
que inclui o domínio de um território em que o governo manda
nada ou quase nada, e o MST e a Via Campesina, tudo ou quase
tudo". A inicial da ação do MPE não cita, todavia, conclusão
de inquérito da Polícia Federal, que não encontrou nenhum
indício de ligação do MST ou da Via Campesina do Estado com o
movimento guerrilheiro colombiano.
O MPE,
a justiça e o governo gaúcho (com sua polícia) atiraram-se
numa marcha da insensatez, usando perigosamente instituições
democráticas para restringir o direito de associação e de
manifestação política e o direito ao voto. Esse é um preço que
o MST gaúcho pode pagar agora, mas o país todo paga também no
futuro. Incentivar a histeria da direita com discurso de fazer
inveja aos militares que comandaram o país entre 1964 e 1985 é
um caminho a ser evitado. Pode parecer simplesmente ridículo
estimular ofensivas contra movimentos sociais com discursos
anti-subversivos. É ridículo, de fato, mas não só isso: é
igualmente perigoso.
Maria Inês
Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras
maria.inesnassif@valor.com.br |
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