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Outdoor garante direito de resposta ao MST em Pernambuco
29 de março de 2011
Da CPT-PE

Camponeses
e camponesas Sem Terra do Estado de Pernambuco conquistaram
uma vitória na luta pela efetivação dos Direitos Humanos e
em defesa da Reforma Agrária.
A mensagem
“Reforma Agrária: Esperança para o campo, comida na sua
mesa” encontra-se em 21 outdoors espalhados por todo o
estado.
A mensagem
foi publicada após a assinatura de um Termo de Ajustamento
de Conduta (TAC), pela Associação dos Militares Estaduais de
Pernambuco (AME), antiga AOSS e a empresa de outdoors Stampa.
O TAC é
fruto de mediação promovida pelo Ministério Público de
Pernambuco e se deu em decorrência da veiculação massiva de
propagandas de cunho difamatório e preconceituoso contra Sem
Terras, promovida pela antiga AOSS, no ano de 2006, no
Estado.
De acordo
com o TAC, a associação também terá que publicar retratações
públicas aos sem terra no jornal de circulação interna aos
membros da associação - e que chega também aos quadros da
Policia Militar e do Corpo de Bombeiros-, além de publicar
também na página eletrônica da associação.
Hoje
pela manhã as entidades de Direitos Humanos que acompanham o
caso, representantes do Ministério Público do Estado, do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), da
Comissão Pastoral da Terra (CPT), além de trabalhadores e
trabalhadoras rurais, estiveram presentes no Ministério
Público de Pernambuco para uma coletiva de Imprensa sobre o
caso.
Dr. Westei
Conde y Martin, da promotoria de Direitos Humanos do MP,
ressaltou que a medida que garante o Direito de resposta aos
Sem terra que foram criminalizados é inédita em todo o
Brasil.
Para
Adelmir Antero, da Direção Estadual do MST, a medida é um
fato histórico para a luta dos trabalhadores e trabalhadores
rurais e que esta retratação é para todos aqueles que vem
sendo massacrados há mais de 500 anos no país.
O Padre
Thiago Thorlby, da CPT reforçou que “a verdadeira propaganda
dos camponeses e camponesas está todos os dias em nossa
mesa, no almoço e jantar. E enquanto os camponeses produzem
alimentos, o Governo destina bilhões ao agronegócio que
mata, explora e expulsa o povo de suas terras”.
O
instrumento judicial utilizado para firmar o TAC foi o da
Ação Civil Pública e os outdoors com a mensagem de promoção
e defesa dos direitos humanos e da Reforma Agrária tomarão
as ruas do Recife e as estradas do Estado pelas próximas
duas semanas.
Para as
organizações que acompanham o caso, espera-se que esta
medida, além de garantir a retratação aos trabalhadores sem
terra, possa estimular o dialogo com a população sobre a
importância da luta pela efetivação dos direitos humanos e
pelo acesso à terra no Estado, considerado um dos que mais
concentra terras e promove violência no campo no Brasil,
segundo dados do IBGE e da Comissão Pastoral da Terra.
Histórico do Processo
Durante os
primeiros meses de 2006, a população do Estado de Pernambuco
foi surpreendida com o início de uma ostensiva propaganda
contra camponeses e camponesas Sem Terra, assinada pela
antiga Associação dos Oficiais, Subtenentes e Sargentos da
Polícia Militar/Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco (AOSS),
a atual Associação dos Militares de Pernambuco (AME).
A antiga
AOSS havia colocado nas principais vias públicas da cidade
do Recife e nas rodovias do estado outdoors com a seguinte
mensagem de conteúdo difamatório e preconceituoso contra
trabalhadores rurais Sem Terra: “Sem Terra: sem lei, sem
respeito e sem qualquer limite. Como isso tudo vai parar?”.
A mesma mensagem foi reproduzida em jornais de circulação
local, internet, além de emissoras de TV e rádio. Também
foram publicados textos igualmente preconceituosos e
difamatórios no jornal interno da Associação.
Em
resposta à propaganda, entidades de defesa dos direitos
humanos, como o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH),
a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Terra de Direitos
denunciaram o caso ao Ministério Público de Pernambuco. À
época, as entidades protocolaram uma representação contra a
antiga AOSS, afirmando que o Estado de Pernambuco é um local
de extrema tensão agrária e a campanha publicitária, de
criminalização da luta legítima dos trabalhadores rurais sem
terra, incitava os policiais militares a agirem de maneira
violenta contra esses camponeses, estimulando ainda mais o
conflito existente no campo.
Além
disso, o material publicitário veiculado ultrapassava os
ditames da liberdade de expressão e manifestação, vez que,
de conteúdo preconceituoso, atentava contra os princípios
constitucionais, especialmente a dignidade humana, o direito
à organização política e, acima de tudo, o direito de lutar
por direitos. Após a denúncia, o Ministério Público abriu o
procedimento de nº 06008-0/7 para apurar os fatos, o que
desembocou no Termo de Ajustamento de Conduta citado.
As
manifestações na luta pela Reforma Agrária fazem parte do
exercício da cidadania em um estado democrático de direito,
sendo legítima a forma de manifestação em sua defesa. O
exercício do direito à mobilização, a fim de garantir
direitos, mais especificamente o direito à terra, e de dar
visibilidade aos pleitos sociais, mais que legítimo, é
necessário para a real concretização da democracia,
principalmente num estado como Pernambuco, em que problemas
estruturais como a escravidão, o latifúndio e a privatização
dos espaços públicos ainda estão presentes e não são
enfrentados. Em Pernambuco, a concentração fundiária alcança
o índice GINI de 0,8181, sendo grande parte dessas terras
improdutivas. De outro lado, cerca de vinte mil famílias sem
terra aguardam a efetivação da política pública de Reforma
Agrária para garantir sua alimentação, seu sustento, sua
dignidade.
De caráter
amplo e estrutural, a Reforma Agrária garante o acesso e a
concretização de outros direitos humanos, como o direito à
moradia, à alimentação e ao trabalho. Além disso, são esses
mesmos trabalhadores rurais, que lutam pela Reforma Agrária,
os responsáveis pela construção da soberania alimentar do
país: a esmagadora maioria dos alimentos consumido nas
cidades vem da agricultura familiar e camponesa, inclusive
de assentamentos de Reforma Agrária. Segundo dados do IBGE a
agricultura familiar e camponesa é responsável por 87% da
produção nacional de mandioca, 70% da produção de feijão,
46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite, 59%
do plantel de suínos, 50% das aves, 30% dos bovinos e,
ainda, 21% do trigo.
Portanto,
trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra, enquanto
defensores de direitos humanos que são, mais que lutadores
incansáveis pelo combate da desigualdade social (o que só é
possível, dentre outras coisas, após uma profunda Reforma
Agrária), são brasileiros e brasileiras, na luta pelo
direito de viver com dignidade. |
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