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Entidades lançam campanha nacional contra agrotóxicos
31 de março de 2011
da RadioagênciaNP

Mais de 20
entidades da sociedade civil brasileira, movimentos sociais,
entidades ambientalistas e grupos de pesquisadores lançam
oficialmente no próximo dia 7 de abril a Campanha Permanente
contra o Uso dos Agrotóxicos no Brasil.
A campanha
pretende abrir um debate com a população sobre a falta de
fiscalização, uso, consumo e venda de agrotóxicos, a
contaminação dos solos e das águas e denunciar os impactos
dos venenos na saúde dos trabalhadores, das comunidades
rurais e dos consumidores nas cidades.
A campanha
prevê a realização de atividades em todo o país. Em
Brasília, mais de 2 mil pessoas farão um ato para denunciar
a responsabilidade do agronegócio pelo uso abusivo de
agrotóxicos no país.
O Brasil
está em primeiro lugar no ranking dos países que mais usam
agrotóxicos no mundo desde 2009. Para se ter uma ideia da
dimensão, é como se cada brasileiro consumisse, ao longo do
ano, cinco litros de veneno.
O
secretário-executivo da Articulação Nacional de Agroecologia
(ANA), Denis Monteiro, apresenta os objetivos da campanha.
“A
primeira questão é que nós precisamos estabelecer uma
coalizão, uma convergência ampla dos movimentos da área da
saúde, da agricultura, comunicação e direito, para fazer a
denúncia permanente desse modelo baseado no uso de
agrotóxicos e transgênicos que tornou o Brasil campeão
mundial do uso de agrotóxicos; e os impactos são gravíssimos
na saúde dos trabalhadores, no meio ambiente, na
contaminação das águas”.
Segundo
Monteiro, além do caráter de denúncia, a campanha pretende
também apresentar à sociedade o modelo proposto pelas
entidades, mais saudável, baseado na pequena agricultura.
“Outro
campo de articulação é mostrar para a sociedade e avançar na
construção de outro modelo de agricultura, baseado na
agricultura familiar, camponesa, em toda sua diversidade,
dos povos e comunidades tradicionais, assentamentos de
reforma agrária, e que este modelo sim pode produzir
alimentos com fartura, alimentos de qualidade, com
diversidade e sem uso de agrotóxicos. Temos estudos que
mostram que a agroecologia é viável, produz em quantidade e
em qualidade, e o local para a agroecologia acontecer são as
áreas da agricultura familiar. Então outro campo de
articulação importante é avançar na construção destas
experiências em agroecologia que a gente já vem construindo,
multiplicá-las pelo país, mostrando que este é o futuro da
agricultura, e não vai ter futuro para o planeta se a gente
não construir este modelo alternativo ao modelo que está aí”
Monteiro aponta ainda que a atuação no âmbito das políticas
públicas também se constituirá em um eixo importante da
campanha.
“A Anvisa
tem um trabalho de análise de resíduos de agrotóxicos e
alimentos, que precisa ser ampliado para mais culturas, ter
aumentada sua abrangência; está também fazendo reavaliações
de agrotóxicos que têm um impacto terrível na saúde,
propondo restrição ao uso e banimento de produtos. Por outro
lado, precisamos avançar nas políticas direcionadas à
agricultura familiar, para que elas possam fomentar o
resgate da biodiversidade, o resgate das sementes crioulas,
possam fortalecer as experiências de comercialização direta
dos agricultores familiares com os agricultores. O Programa
Nacional de Alimentação Escolar precisa ser efetivado, uma
alimentação de melhor qualidade nas escolas, que o dinheiro
público usado para alimentação escolar seja destinado à
compra da agricultura familiar – a lei aprovada ano passado
obriga que no mínimo 30% seja destinado para a compra da
agricultura familiar; temos que lutar para que esta
conquista seja efetivada”.
Para o
integrante da Via Campesina Brasil e da coordenação do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João
Pedro Stedile, a campanha pretende propor projetos de lei,
portarias e iniciativas legais e jurídicas para impedir a
expansão dos agrotóxicos.
“Seria uma
boa iniciativa que os municípios começassem a legislar,
porque é possível que as câmaras proíbam o uso de
determinado veneno no seu município, e que a própria
população fiscalize. Mas isso não basta ser iniciativa do
vereador, é preciso que toda a sociedade se mobilize para
garantir, inclusive, que o comércio não venda, que os
fazendeiros não usem e que, afinal, nós vamos criando
territórios livres de agrotóxicos, e vocês vão ver como a
qualidade de vida vai melhorar muito nesses municípios”.
Stedile
ainda avalia a natureza do uso dos agrotóxicos no Brasil e
suas graves consequências.
“Nós estamos aplicando um bilhão de litros por ano, e isso
representa, em média, cinco litros de veneno por pessoa. Não
há parâmetro similar em qualquer outra sociedade do planeta,
nem sequer nos Estados Unidos, que são a matriz indutora de
toda a utilização de venenos na agricultura a partir da
Segunda Guerra Mundial”.
Para
Stedile, a redução e a eventual erradicação do uso de
agrotóxicos dependem, fundamentalmente, da conscientização
da população.
“Então nós
esperamos que, daqui para diante, possamos congregar este
conjunto de forças sociais, desde os movimentos sociais, dos
trabalhadores, dos pesquisadores, dos médicos, das
universidades, dos institutos de ciência, para fazermos uma
grande articulação nacional e, de fato, conseguirmos
paulatinamente ir diminuindo o consumo de venenos, até
chegarmos, quiçá, em médio prazo, à eliminação total do uso
de agrotóxicos na agricultura brasileira – o que seria uma
grande conquista para toda a sociedade. Para que se tenha
uma idéia, eu acho que a campanha contra os agrotóxicos é
muito parecida com a campanha contra o fumo, porque no fundo
o tabaco também usa muito agrotóxico, o tabaco é um veneno,
causa gravíssimos problemas de saúde para a população, e
somente de uns dez anos pra cá é que a sociedade brasileira
começou a se conscientizar e fazer uma campanha contra o
cigarro. E nós conseguimos reduzir: 30% da população eram
fumantes e, hoje, só 12% são fumantes”.
De acordo
com Letícia Silva, da Anvisa, é preciso que a campanha
consiga promover uma grande consulta junto à sociedade
brasileira sobre o tema.
“Não sei o
tempo: quando colocamos a possibilidade de retirada de um
produto agrotóxico do mercado, muitas vezes a gente recebe
poucas manifestações favoráveis à retirada daquele produto
no mercado, e muitas manifestações pela manutenção do
produto no mercado. Então, acho que a primeira coisa, a mais
simples – e que independe até de uma grande mobilização –
são as organizações da sociedade mostrarem o que estão
pensando a respeito, mostrar o seu desejo com relação aos
produtos agrotóxicos. Querem realmente que sejam
controlados? Que produtos precisariam ser banidos, quais
estão causando intoxicação?”
A campanha
nacional contra o uso de agrotóxicos também promoverá
iniciativas ligadas à educação – com a produção de cartilhas
para as escolas – e realizará seminários regionais e
audiências públicas. |
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