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30/05/2008
Os negros no
Brasil: 120 anos de igualdade, liberdade, fraternidade (?)
Roberta
Traspadini
No
dia 13 de maio o Brasil passou longe de refletir sobre um dos
maiores centros da superexploração do trabalho e opressão
particular no continente: a questão do negro e da negra, sua
real libertação 120 anos depois do papel ter sido formalmente
assinado por uma princesa cheia de boas intenções,
cansada de diferenças étnico-raciais, disposta a
implementar a igualdade social, cultural, econômica e
política, nos moldes republicanos da
liberdade-igualdade-fraternidade, a Izabel!!!!
Essa
ausência de debate sobre a histórica situação dos negros e
negras no Brasil, chama a atenção por vários elementos que
ocultam a realidade. Centremos a discussão nos princípios
republicanos franceses, introjetados na cultura política
brasileira quase um século depois de seu surgimento na Europa:
1. O mito da Igualdade:
O fim da diferença e o inicio do paraíso sócio-cultural. A
capacidade de definição de princípios, normas e valores
comuns, iguais, a todos os indivíduos, por mais diversos e
diferentes que aparentam ser. Uma essência democrático
libertária de consolidação das relações sociais centradas no
fim dos pré-conceitos historicamente estabelecidos. Igualdade
diretamente relacionada à capacidade e eficiência de cada
indivíduo no seu desejo e possibilidade de obter sucesso. A
questão da cor, do gênero, da idade e da classe é superada, e
o Brasil dos empreendedores, autônomos, homens em igualdade de
liberdade e de oportunidade, migra rumo a um novo horizonte de
sentido cuja exclusão não é mais um fenômeno
sócio-econômico-cultural e, sim, individual.
2. O mito da liberdade:
disse o poeta que a liberdade é algo que o ser humano criou,
que nenhum ser humano é capaz de definir e nenhum ser humano é
capaz de não entender. Liberdade, ação do ser livre. Livre:
abertura das reais condições de busca de oportunidades; livre
para correr atrás do próprio sustento; livre para ter
visibilidade no mundo concreto do salve-se quem puder. A
liberdade como direito formal de ir e vir, de controlar seus
impulsos frente o senso comum estabelecido; de conter o grito
frente à mansidão sistêmica. Liberdade para criar as
oportunidades empreendedoras. Liberdade para aceitar o mundo
como se apresenta, encontrando mecanismos de inclusão formal
previamente aceitos pelo modelo vigente de ordem e do
progresso.
3. O mito da fraternidade:
seres iguais, livres, vivendo em comunhão para além da
exclusão, exploração, opressão protagonizados pelo capital. A
superação dos conflitos, das diferenças. A comunhão de corpos
e mentes que, através de uma espiritualidade pouco material –
dado que a concentração de riqueza e renda não é combatida – a
ser vivenciada por todos, independente da classe a que
pertença, e dos valores que traga historicamente encarnados na
pele. A fusão entre seres iguais, cujas condutas libertárias
migram para uma paz, harmonia social. Fraternidade em meio à
disputa, concorrência, relação entre bem sucedidos e
fracassados.
Igualdade, liberdade e fraternidade.
Os históricos princípios republicanos de um sonho de
desenvolvimento centrado em utopias não realizáveis dentro do
mundo dominado pelo capital, cuja produção de valor centrado
na troca, no lucro, só tem base material se for dinamizada
pelas múltiplas formas de exploração do trabalho e opressão
dos sujeitos que vivem do trabalho.
A
questão do negro no Brasil atual, com base na discussão
anterior:
1. A real desigualdade:
os dados oficiais, tanto do IPEA quanto do IBGE comprovam que
a população negra será nos próximos anos a maioria e, entre os
formalmente incluídos no mercado de trabalho, a mais mal
remunerada e com menor chance de ingresso em determinados
setores dominados pelo caráter eurocêntrico (branco-masculino)
do poder. Além disso, entre os formalmente excluídos também
será a maioria. São os negros e as negras os que compõem e,
permanecerão nessa ótica igualitária burguesa, ainda mais à
margem, entre os que já estão excluídos (ou incluídos desde
uma outra dimensão). Os trabalhadores negros e negras
brasileiros figuram, assim, entre o formal, desigualmente
composto pela cor da pele e pelo salário que recebe, e o
informal que, ainda quando aparenta não ser racial, denuncia
nas ruas o quanto o majoritário campo negro de excluídos do
Brasil. Negros e negras que sobrevivem em desigualdade
suprema. Milhões de seres humanos relegados, ao longo da
história do desenvolvimento brasileiro, à condição permanente
de escravos.
2. A castrada liberdade:
tanto no direito de ir e vir, quanto nas múltiplas
determinações do direito, essa maioria negra, incluída
subordinadamente nas relações formais, e excluída como outros
tantos, depende do valor e do direito definidos previamente
por aqueles cuja cor da pele, branca, estruturaram e,
permanecem reiterando, o poder branco no Brasil. Livres para
se conduzirem à margem e julgados como culpados, caso a
conduta não seja formalizada como consenso pelos operadores do
real direito. Livres para trabalhar, jogar, lutar, se
expressar a partir de uma composição estético-cultural
definida previamente pelas cercas criadas pela minoria branca,
sobre a maioria negra. Livres no ato de ter liberdade para se
vender enquanto vende sua força de trabalho de maneira ainda
mais super-explorada que outros trabalhadores e trabalhadoras.
3. A assistencial fraternidade:
a consolidação dos estereótipos sociais sobre o negro, o
capoeira, como vagabundo, como malandro, como alguém sem força
para criar as condições próprias do ousado mundo novo
libertário. A consolidação social do desumano caráter
étnico-racial no Brasil. Brancos cultos e negros bárbaros, na
concepção européia sobre cultura, poder e dominação. O negro
como menos preparado, menos culto, menos capacitado. Um grupo,
segundo os poderosos, dentro do humano, com menor qualidade
intelectual, social, cultural. A fraterna capacidade do poder
branco em se solidarizar com esse diferente ser, negro,
dando-lhe os piores tipos de trabalho, uma educação
determinada para diferença social-cultural e pagando o valor
que acredita ser pertinente a uma pessoa desta raça-etnia. Ou
seja, o branco criando novas e eternas senzalas
econômico-sociais em um processo cultural de se solidarizar,
mantendo a ordem e o progresso burguês, a diferença marcada na
pele.
Liberdade, igualdade e fraternidade.
Algo que o humano nunca viveu, mas sempre discursou como
possibilidades de realização. Algo que o negro ainda não
conquistou plenamente, assim como seus pares que vivem do
trabalho e são, cada vez mais, jogados, junto com eles nas
grandes senzalas formais-informais criadas pelo capital contra
o trabalho. Uma perversa condução da história em que o mesmo
grupo detentor do poder, ao narrar sua vitória, põe “em seu
devido lugar” o grupo que se rebelou, resistiu,
revolucionou o processo em vários gritos de alforria em nome
de muitos.
Os
120 anos do fim da abolição formal no Brasil retratam,
à luz dos acontecimentos atuais do mundo do trabalho e do
vigiar e punir atual no meio destes, a continuidade das
senzalas dos novos tempos. E, se é verdade que a senzala
ampliou, e nos atuais complexos penitenciários se viva uma
multiplicidade racial, no interior da condição de classe
trabalhadora formal e informal, não é menos verdade que os
negros e negras, como futura maioria populacional, seguem na
primazia do destrato social, do descaso do direito, das sem
razões do capital contra o trabalho.
A
luta pela conquista de direitos e pela produção de uma nova
vida, advinda desses grupos e sujeitos majoritários, é muito
bem vinda. Primeiro porque limpa o histórico terreno do
discurso mentiroso da inclusão igualitária-libertária-fraterna,
produzido pelo poder contra os supostos sem poder. Segundo,
porque dá aos seus pares, trabalhadores organizados e a serem
articulados na e para a luta de classes, a oportunidade de
redefinir sua forma de luta, levando em consideração os
particulares processos de exploração e opressão vividos no
interior da classe.
Vale
reforçar: por mais que a exploração e a opressão sejam, em
essência, mecanismos centrais do capital contra o trabalho nas
suas múltiplas formas, estes, encarnam condições
culturais-sociais-estéticas muito particulares em sua
gigantesca perversidade. A opressão-exploração vivida pelos
negros e negras; mulheres; crianças; camponeses; e, inúmeros
trabalhadores (in)formais, imersos nesse pandemônio de vida
gerado pelo capital em seu afã de obter o lucro, deve ser não
só denunciada, mas combatida com o maior vigor possível pela
classe que vive do trabalho.
Repensar para dentro da classe todos esses complexos
mecanismos de dominação e sujeição, requer, por parte da
esquerda, todo um cuidado no diálogo com a sociedade. A
questão das cotas não é diferente. É muito tênue a linha que
divide uma crítica que poderia ser feita para dentro, de uma
posição para fora, socialmente construída em argumentos pouco
debatidos no interior da classe, que pode gerar distorções e
aparentar uma adesão ou um fortalecimento dos discursos e
práticas dominantes. E, se as cotas trazem à tona parte da
histórica forma geral e particular de opressão e exploração de
uma classe sobre a outra, já presta por si só um papel
relevante na atual luta pela superação do vivido.
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