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29/04/2008
No reino das
papeleiras
As
papeleiras estão montando um enclave no cone sul que lembra o
Projeto Jari, na Amazônia, do multimilionário americano Daniel
Ludwig, durante a ditadura militar.
Por Najar Tubino*
Antigamente
o pampa, uma região que abrange 70 milhões de hectares em três
países – Brasil, Uruguai e Argentina -, era um vasto
território livre, sem cercas, horizonte a perder de vista,
onde “gauchos” , vagavam de um lado a outro, correndo manadas
de cavalos crioulos. A partir de agora, está definido
oficialmente, será o reino das papeleiras, as fábricas de
papel e celulose, que recentemente anunciaram seus
investimentos no RS. O principal deles, da Aracruz – empresa
que detém a maior fatia da produção nacional, comandada por
sócios poderosos: Safra (28%), Votorantim (28%), Lorentzen,
família ligada à coroa norueguesa (28%), BNDES (12,5%). A
produção da atual fábrica em Guaíba, na região metropolitana
de Porto Alegre passará de 450 mil toneladas para 1,8 milhão
de toneladas.
A
área se estenderá dos atuais 74 mil hectares a 167 mil
hectares, com plantios de eucalipto e pinus. A Aracruz definiu
seu território em torno da região metropolitana, em direção à
zona sul do estado. Região das lagoas dos Patos, Mirim. A
Votorantim, sócia, e também investidora na área, se concentrou
na região sul, entre os municípios de Pelotas e Bagé. Já
comprou 48 mil hectares, pretende chegar a 250 mil hectares. A
terceira é a Stora Enso, grupo sueco-filandês, entrou no eixo
da fronteira oeste, em direção à divisa com Uruguai, onde já
possui 180 mil hectares plantados com eucalipto. No total,
cerca de US$ 4,5 bilhões de dólares, a maior parte em
investimentos nas plantas, na aquisição de equipamentos e
terras – pretendem ocupar 500 mil hectares.
Um
Enclave
O
reino das papeleiras está montando um enclave no cone sul.
Lembrei disso, depois de rever os dados do Projeto Jari, na
época do multimilionário americano, Daniel Ludwig. Ele trouxe
a primeira fábrica de celulose até a Amazônia, em uma balsa,
fabricada no Japão. Junto veio uma usina termelétrica. Na
época, 1979, Ludwig pretendia trazer 18 fábricas móveis. Só
não completou o projeto, porque os militares, então no poder,
não autorizaram a construção de uma hidrelétrica no rio Jari.
O milionário tinha comprado terras na Guiana, e pretendia
montar seu enclave na foz do rio Amazonas, no Oceano
Atlântico. Iniciativa que se tornou comum na China, onde se
instalaram “clusters” eletroeletrônicos no sul do país,
comandados por japoneses.
Por
que escolheram o pampa, o menor dos biomas brasileiros, onde
25% das espécies estão ameaçadas de extinção? Um executivo da
Stora Enso, João Fernando Borges, declarou à Revista Já, de
Porto Alegre, o seguinte: “Pensamos nas áreas próximas a
Carajás, no Pará e Maranhão, mas a repercussão seria grande,
por se tratar da Amazônia. Os estudos de Santa Catarina e
Paraná mantém uma estrutura fundiária dividida em
minifúndios. Então pensamos no Rio Grande do sul onde teríamos
uma situação mais simples”.
Baixos índices
O
pampa gaúcho é dominado por uma pecuária de baixos índices de
produtividade na sua média, um problema crônico. A única
novidade nos últimas décadas, depois da introdução de arroz
irrigado pelos descendentes de europeus – italianos e alemães,
que entraram nos anos 50, primeiramente com plantio de trigo
-, foi o plantio de videiras, pelas vinícolas
internacionais e gaúchas.
No RS
trata-se a região como a “metade sul” , formada por 104
municípios, 2,6 milhões de habitantes. A outra deve ser a
metade norte, sendo que nesta questão geográfica, aboliram as
regiões leste e oeste do estado. Tem uma divisão , tipo o
Tratado de Tordesilhas, que inicia em Guaíba, zona da Aracruz
e termina em Santa Rosa, na fronteira com a Argentina. Tudo ao
sul é pobreza.
Tentou-se armar um circo, onde até mesmo entidades
ambientalistas e de defesa de pequenos produtores com terra e
sem terra, participaram das discussões. Audiências públicas
comandadas por claques a serviço das empresas. A última
cartada, no atual governo estadual, foi uma limpa no órgão
ambiental, responsável pelo licenciamento, onde a presidente,
Ana Pellini, entrou numa reunião da Câmara Técnica e votou, no
lugar do responsável técnico. Enfim, um atropelo só. Passaram
por cima de trator de esteira, sem deixar nada à vista.
Mudaram as três regras que os ambientalistas ainda defendiam:
o percentual de plantio do eucalipto na região original, a
limitação do tamanho dos maciços e a definição do
distanciamento entre eles.
Reduzir a fronteira
As
empresas primeiro começaram a comprar terra, escolheram as
regiões, definiram a área de atuação de cada uma, e depois
ficaram esperando o zoneamento. A questão do enclave está bem
definida pelo projeto apresentado em Brasília pelo senador
Sérgio Zambiasi, do PTB, reduzindo a área de fronteira
internacional, considerada de segurança nacional, dos atuais
150 quilômetros para 50 quilômetros. Dessa forma,
empresas estrangeiras poderiam comprar terras nestas
localidades, coisa proibida hoje em dia. E os prefeitos estão
ávidos por investimentos.
A
produção de celulose e papel no mundo cresce a toque de caixa.
No final da década de 1990 foram produzidas 294 milhões de
toneladas no mundo. Os três principais produtores são Estados
unidos, China e Japão. A previsão desde o ano 2000, era
um aumento de um terço na fabricação de celulose e papel. Este
setor é o terceiro grupo industrial emissor de gases tóxicos
na atmosfera, resíduos sólidos e grande consumidor de energia
– o quarto na economia mundial – Os dados são da publicação
“Sinais Vitais”, do World Watch Institute, de Washington. Nos
Estados Unidos, o setor é o terceiro em poluição ambiental.
Quem
consome o papel no mundo? Os países ricos, óbvio. Os
americanos de classe média consomem 19 vezes mais papel do que
um classe média num país em desenvolvimento. A média per
capita nos Estados Unidos é maior do que 335 quilos.
A
média dos países industrializados é de 162 kg/habitante. A
média mundial é 51 kg/hab. E a média nos países em
desenvolvimento é de 20 kg/habitante. Um quilo representa o
consumo de 225 folhas tamanho ofício. No mundo apenas 10% da
produção de papel é utilizada por longo tempo, como na
impressão de livros. 90 % é usada uma vez e depois descartada.
A metade do consumo do papel envolve as embalagens. E, 22% da
população mundial consome 71% do papel. Ironia da história
Entretanto por ironia da história, um sueco, no final do
século XIX, chamado Alberto Loefgren, criou em São Paulo um
herbário com plantas nativas e depois o Serviço Florestal e
Botânico. Em 1904, a Companhia Ferroviária Paulista contratou
um agrônomo, Edmundo Navarro de Andrade, que acabou se
tornando um especialista em eucalipto. A ferrovia necessitava
de dormentes e de madeira nos fornos.
Edmundo Navarro implantou viveiros em várias regiões
multiplicou de 25 mil para 250 mil mudas distribuídas na
época. Assumiu o lugar de Loefgren fechou o herbário de
nativas do sueco, e transformou o Serviço Florestal e
Botânico, somente em Serviço Florestal.
O
eucalipto já tinha sido plantado no Uruguai desde 1853, era
visto como um espécie purificadora, sugava água parada –
responsável pela multiplicação dos mosquitos – e funcionava
como desinfetante. Existem mais de 450 espécies de eucalipto
na Austrália, onde ele é nativo. O resto da história todo
mundo já sabe. Uma monocultura que se expande pelo país,
envolve também o Mato Grosso do Sul. O BNDES pretende investir
29 bilhões de dólares até 2012 no projetos de celulose e
papel.
O
Brasil é o sexto produtor, ano passado exportou 14 milhões de
toneladas de celulose. O reino das papeleiras está em festa.
Daqui há 21 anos, quando completar a terceira safra de
eucalipto plantado a partir de 2008, provavelmente um gaúcho
dirá a seu filho, se ele perguntar o que é uma árvore: é o
eucalipto aí da frente.
*Najar Tubino é
jornalista e autor da palestra "Uma visão Holística e atual
sobre a integração do planeta", que trata das mudanças
climáticas, aquecimento global, extinção de espécies, o
funcionamento dos sistemas que compõem e movimentam a vida na
Terra, com data-show e ilustrada com imagens de satélite da
Nasa. Pode ser agendada pelo telefone: (51) 96720363, e-mail:
najartubino@yahoo.com.br
FONTE:
www.ecoagencia.com.br |
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