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29/04/2008
A Falência de um
modelo
Há 33
países hoje à beira da instabilidade social devido à falta e
ao preço dos alimentos, resultado direto do atual modelo
industrial de agricultura dependente do petróleo
Por Miguel A.
Altieri*
A
agricultura mundial está numa encruzilhada. A economia global
impõe demandas conflitantes sobre os 1,5 bilhão de hectares
cultivados. Não só se pede à terra agrícola que produza
alimento suficiente para uma população crescente, mas também
que produza biocombustíveis, e que faça isso de um modo que
seja saudável para o meio ambiente, preservando a
biodiversidade e diminuindo a emissão de gases de efeito
estufa, e que, ainda, seja uma atividade economicamente viável
para os agricultores.
Essas
pressões estão desencadeando uma crise sem precedentes no
sistema alimentar global, que já começa a se manifestar em
protestos por escassez de alimentos em muitos países da Ásia e
da África. De fato, há 33 países à beira da instabilidade
social devido à falta e ao preço dos alimentos. Essa crise que
ameaça a segurança alimentar de milhões de pessoas é o
resultado direto do modelo industrial de agricultura, que não
só é perigosamente dependente de hidrocarburos, mas tem,
ainda, se tornado a maior força antrópica modificadora da
biosfera. As crescentes pressões sobre a área agrícola – que
está se reduzindo – estão minando a capacidade da natureza de
suprir as demandas da humanidade quanto a alimentos, fibras e
energia. A tragédia é que a população humana depende dos
serviços ecológicos (ciclos de água, polinizadores, solos
férteis, clima local benevolente, etc.) que a agricultura
intensiva continuamente empurra para além de seus limites.
Antes
do fim da primeira década do século XXI, a humanidade está
tomando consciência rapidamente de que o modelo industrial
capitalista de agricultura dependente de petróleo não mais
funciona para suprir os alimentos necessários. Os preços
inflacionários do petróleo inevitavelmente aumentam os custos
de produção e os preços dos alimentos subiram a tal ponto que
hoje um dólar compra 30% menos alimento do que há um ano. Uma
pessoa na Nigéria gasta 73% da sua renda em alimento, no
Vietnã 65% e na Indonésia 50%. Essa situação está piorando
rapidamente, na medida em que a terra agrícola vai sendo
destinada para biocombustíveis e na medida em que a mudança
climática afeta o rendimento da terra pelas estiagens ou
inundações.
Expandir terras agrícolas destinadas a biocombustíveis ou
cultivos transgênicos, que já tomam 120 milhões de hectares,
vai exacerbar os impactos ecológicos de monocultivos que
continuamente degradam os serviços da natureza. Além disso, a
agricultura industrial hoje contribui com mais de 1/3 das
emissões globais de gases de efeito estufa, especialmente
metano e óxidos nitrosos. Continuar com esse sistema
degradante, como promove um sistema econômico neoliberal,
ecologicamente desonesto por não refletir as externalidades
ambientais não é uma opção viável.
O
desafio imediato de nossa geração é transformar a agricultura
industrial e iniciar uma transição dos sistemas alimentares
para que não dependam de petróleo.
Precisamos de um paradigma alternativo de desenvolvimento
agrícola, que propicie formas de agricultura ecológica,
sustentável e socialmente justa. Redesenhar o sistema
alimentar para formas mais eqüitativas e viáveis para
agricultores e consumidores vai requerer mudanças radicais nas
forças políticas e econômicas que determinam o que vai ser
produzido, como, onde e para quem. O livre comércio sem
controle social é o principal mecanismo que está expulsando os
agricultores de suas terras e é o principal obstáculo para
alcançar desenvolvimento e uma segurança alimentar local. Só
desafiando o controle que as empresas multinacionais exercem
sobre o sistema alimentar e o modelo agroexportador
patrocinado pelos governos neoliberais será possível deter a
espiral de pobreza, fome, migração rural e degradação
ambiental.
O
conceito de soberania alimentar, tal como é promovido pelo
movimento mundial de pequenos agricultores, a Via Campesina,
constitui a única alternativa viável para o sistema alimentar
em colapso, que simplesmente falhou em seu cálculo de que o
livre comércio internacional seria a chave para solucionar o
problema alimentar mundial. Pelo contrário, a soberania
alimentar enfatiza circuitos locais de produção-consumo e
ações organizadas para obter acesso à terra, água,
agrobiodiversidade, etc., recursos fundamentais que as
comunidades rurais devem controlar para conseguir produzir
alimentos com métodos agroecológicos.
Não
há duvida que uma aliança entre agricultores e consumidores é
de importância estratégica. Ao mesmo tempo que os consumidores
devem descer na cadeia alimentar ao consumir menos proteína
animal, precisam tomar consciência de que sua qualidade de
vida está intimamente associada ao tipo de agricultura que é
praticada nos cordões verdes que circundam povoados e cidades,
não só pelo tipo e qualidade de cultivos que aí são
produzidos, mas pelos serviços ambientais, como qualidade da
água, microclima e conservação da biodiversidade, etc., que
esta agricultura multifuncional proporciona.
Mas a
multifuncionalidade só emerge quando as paisagens estão
dominadas por centenas de sítios pequenos e biodiversos, que,
como os estudiosos demonstram, podem produzir entre duas e dez
vezes mais por unidade de área do que as fazendas de grande
escala. Nos Estados Unidos os agricultores sustentáveis, em
sua maioria pequenos e médios agricultores, geram uma produção
total maior que os monocultivos extensivos, e fazem isso
reduzindo a erosão e conservando melhor a biodiversidade. As
comunidades rodeadas por pequenos sítios apresentam menos
problemas sociais (alcoolismo, drogadição, violência familiar,
etc.) e economias mais saudáveis que comunidades rodeadas por
fazendas grandes e mecanizadas.
No
estado de São Paulo, no Brasil, cidades rodeadas por grandes
extensões de cana-de-açúcar são mais quentes do que cidades
rodeadas por propriedades médias e diversificadas. Deveria ser
óbvio, então, para os consumidores urbanos, que comer
constitui ao mesmo tempo um ato ecológico e político, pois ao
comprar alimentos em mercados locais ou feiras de
agricultores, há um retorno a um modelo de agricultura
adequada para a era pós-petroleira, enquanto ao comprar nas
grandes redes de supermercados, perpetua-se o modelo agrícola
não sustentável.
A
escala e urgência do desafio que a humanidade enfrenta é sem
precedentes e o que é preciso fazer é ambiental, social e
politicamente possível. Erradicar a pobreza e a fome mundial
requer um investimento anual de aproximadamente 50 bilhões de
dólares, uma fração se comparado com o orçamento militar
mundial, que chega a mais de um trilhão de dólares por ano. A
velocidade com que essa mudança deve ser implementada é muito
rápida, mas o que está em questão é se existe realmente
vontade política de transformar radical e velozmente o sistema
alimentar, antes que a fome e a insegurança alimentar alcancem
proporções planetárias irreversíveis.
*Miguel A.
Altieri é professor na Universidade da Califórnia (Berkeley) e
membro da Sociedade Científica Latino-americana de
Agroecologia (Socla). Tradução de Naila Freitas / Verso
Tradutores. Publicado na Carta Maior. Reprodução autorizada,
citando-se a fonte. (Carta Maior/EcoAgência)
Fonte:
www.ecoagencia.com.br |
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