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27/06/2008
Mulheres
Camponesas, e, Feministas?
Isaura Isabel
Conte*
E,
agora, o que querem estas mulheres? São tão ousadas que,
desavergonhadamente, se assumem feministas, e, se não bastasse
isto, afirmam suas convicções sobre o campesinato. Não seria
no mínimo, contraditório?
Feminismo e campesinato são temas carregados de contradições
em si e entre si. Para GEBARA (2001), o patriarcado1
se encarregou de construir uma identidade subalterna nas
mulheres e por isso o desafio do feminismo é de colocá-las em
equiparidade com os homens. Já MÉSZÁROS (2002), afirma que a
igualdade entre homens e mulheres não é possível pelo fato de
que se vive numa sociedade capitalista, então, como afirmá-la
sobre a base do campesinato brasileiro, que, segundo RIBEIRO
(1995), violentou as mulheres?
Eis a
tentativa de reflexão: afirma-se o campesinato, pela relação
que as mulheres camponesas possuem com a terra e com a unidade
de produção em que se encontram inseridas, pois, daí provém o
seu sustento. Para CARVALHO (2005), ao contrário do
agronegócio, o campesinato deve, obrigatoriamente, compreender
o campo com as pessoas que nele vivem e estabelecem ou estão
em vínculos entre si. Logo, dá para misturar feminismo e
campesinato!
Conforme RIBEIRO (1995), desde a invasão do Brasil2,
o modelo de agricultura imposto privilegiava a exportação à
base do trabalho escravo dos indígenas, inclusive com a
prática social do cunhadismo3.
Diante disso, pode-se constatar que, tanto o modelo camponês
de produção, quanto a liberdade das mulheres era algo não
cogitado, tampouco permitido, justamente pela ação do
patrircalismo4.
Mesmo antes da invasão do Brasil, constata-se que as indígenas
tinham uma liberdade restringida com relação aos homens. Em
muitas tribos, o adultério considerado pela formação jesuítica
católica, acarretava em punição até de morte ás mulheres, ao
passo que, isentava os homens. São poucas escritas sobre os
indígenas e a produção camponesa, e, mais rara, ainda, é à
alusão ás mulheres indígenas como trabalhadoras. Ao longo da
história elas não aprecem como agricultoras e sim como
libidinosas, sujas, tentadoras dos homens brancos...
Pode-se afirmar que uma segunda forma de escravidão, além da
indígena, no país, se dá com a importação de negros e negras,
trazidos á força, sendo que esse ciclo dura até o século XIX.
Com a escravidão cada vez mais brutalizadora, uma das formas
de resistência negra, foi a fuga para a formação dos
Quilombos. Ali, se praticava, também, a agricultura da
diversidade, e, sendo assim, tem-se outro jeito de atividade
camponesa, onde na maioria das vezes a propriedade era
coletiva.
Até
então a produção agrícola dos quilombolas nunca foi
reconhecida, como uma forma de campesinato no Brasil. Discordo
desse pensamento e afirmo que foi campesinato, sim, mesmo que
marginalizado5.
Nos quilombos, como haviam poucas mulheres com relação aos
homens, a obrigação da grande maioria delas, era, também,
servir sexualmente a muitos homens. Alguns autores falam em
solidariedade, mas, pouco ou quase nada se ouviu por parte
delas.
Com a
chegada dos imigrantes europeus, no final do século XVIII até
meados do século XIX, sobretudo, estabeleceu-se a política de
que estes futuros camponeses passassem a receber parcelas de
terras, sementes e ferramentas, além de uma ajuda em dinheiro
por parte do governo. Com isso, há continuidade de um
campesinato feito de muito trabalho e, principalmente, boas
parideiras, submissas e caladas, com um adendo: negadas e
proibidas de sentir prazer.
Obviamente que a miscigenação entre os imigrantes e o povo que
já estava no país, anteriormente, possibilitou acréscimos dos
jeitos de praticar a agricultura bem como a diversidade de
espécies a serem cultivadas, e, consequentemente consumidas.
PINHEIRO (2005), afirma que até a década de 1970 eram
consumidas mais de 35 espécies diferentes de plantas que
serviam como alimento. Diante disso, não há nenhuma ressalva
em afirmar que as mulheres eram as maiores responsáveis pelas
técnicas de armazenamento e industrialização desses alimentos,
além da produção dos mesmos para consumo.
Outra
afirmação, sem melindres, que pode ser feita é que, apesar da
função das mulheres camponesas como geradoras de mão-de-obra,
elas realizavam, também, o trabalho na roça e as tarefas
domésticas de lavar, cozinhar, tecer, remendar, fazer
remédios, cuidar dos pequenos animais e horta, etc... Conforme
FARIA e NOBRE (2003), as mulheres assumiam jornada tripla de
trabalho, inclusive, as tarefas inerentes a reprodução, as
quais não são consideradas trabalho.
Antes
da década de 1950, as mulheres camponesas jamais sonhavam com
o feminismo por mais que o jugo do mando masculino era muito
pesado. Criar uma filha e saber que o marido teria o direito
de bater nela, era praticamente natural, inclusive entre as
mulheres. Para as camponesas não havia alternativa a não ser
se casar e agüentar a situação imposta. A grande maioria delas
era analfabetas, pois, a educação pública, até a década de
1950, segundo PALUDO (2001), ainda não era realidade na maior
parte das cidades do Brasil, deveras no campo.
A
Igreja, em grande parte, se encarregava de pregar,
abertamente, a submissão e a obediência da mulher com relação
ao homem. Mulheres não eram consideradas como seres com
capacidade de pensamento/reflexão. Da década de 1940 para
1950, a mesma revolta dos que quase nada possuíam, levou a
formação das Ligas Camponesas no nordeste, e também, apareceu
a primeira mulher feminista, ás escondidas no Brasil6.
Na
década de 1950 para 1960, enquanto os militares ensaiavam o
golpe de estado, a situação das mulheres camponesas não mudara
muito com relação a opressão patriarcal. No máximo, se
ensaiava em falar em gênero na tentativa de colocar as
mulheres em cenário, ainda não de poder, mas de alguns
direitos. É aí, segundo FREI BETTO (2001), na década de 1970
em diante, que nasce um feminismo como reivindicação de
cidadania, e, também, direito a autonomia sobre seus corpos e
ao prazer (sexual).
Na
década de 1980, quando cai de podre a ditadura militar no
Brasil, se volta a falar em direitos sociais, direitos das
mulheres, reforma agrária... Eclode a voz das chamadas
minorias, e, dentre elas, as mulheres. Os avanços vão se dando
aos poucos e elas passaram de não aceitarem ser tão menos a
não aceitarem ser nada menos, sendo que, isso começou a
intrigar a estrutura patriarcal. O que é isso, agora, que as
mulheres estão dizendo!!! querem perturbar a paz que reinara
até então?!
Questiona-se: a que custo se firmou e se estabeleceu o
campesinato? Sabe-se, também, que o massacre sobre as mulheres
não provém do campesinato em si, mas, do patriarcado que
encontra um campo fértil de conservadorismo e desinformação no
campesinato.
A
palavra feminismo em si é provocadora porque evoca as
Mulheres, e, o poder delas que grita por reapropriação;
ocupação de espaço que é seu e que no momento está ocupado por
outro7.
Da
década de 1990 para cá, em pleno neoliberalismo e processo
globalizante e hegemonizante do capital, incidindo sobre as
pessoas, surge a era da informática, virtualidade,
mercantilização, blocos econômicos e grupos transnacionais
como controladores da produção e do trabalho. Os agrotóxicos
passam a substituir grande parte da mão-de-obra no campo, mas
precariza as condições de saúde dos trabalhadores e
trabalhadoras. As informações chegam com uma rapidez maior,
inclusive no campo, mas a palavra feminismo ainda soa mal aos
ouvidos de grande parte da população, entretanto, já há várias
organizações de grupos feministas, que clamam direitos,
inclusive em nome da diversidade.
Pelo
que se sabe, em 2004, as mulheres camponeses já organizadas,
oficializam o Movimento de Mulheres Camponesas – MMC, e o
afirmam como Movimento camponês e feminista. Eis o desafio de
lutar pela existência do campesinato como condição de vivência
e cultura, desde que: negue todas as formas de violências
incrustadas nele, na perspectiva de serem sujeito de suas
vidas, com direito á felicidade, respeito, onde não sejam
consideradas menos que ninguém, tampouco, sobrecarregadas de
trabalho e negadas de prazeres.
Contudo, está aí o grande desafio da contribuição do feminismo
para a construção de uma nova forma de campesinato, rumo ao
verdadeiro Socialismo, com equipariade, onde as questões das
mulheres não sejam tratadas como coisas secundárias.
* É graduada em
Pedagogia pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS)
e dirigente do Movimento de Mulheres Camponesas (RS).
1
O patriarcado trás implícita a noção de relações
hierarquizadas entre os seres com poderes desiguais. É ele que
trás as ferramentas explicativas para as desigualdades
transformadas em subordinação das mulheres. RICHARTZ (2004),
apud SAFIOTTI (2001).
2
Em 1500 ou anterior a esta data.
3
Segundo Ribeiro, o cunhadismo foi a prática social vigente no
país em formação, que consistia na presa à marra de mulheres
índias, por parte dos invasores, para procriação. Com isto,
toda a cunhadagem passava a trabalhar e servir os brancos.
Cada homem branco tinha o máximo de mulheres que pudesse.
4
Que segundo MURARO (2001) surge entre 10.000 a 20.000 anos
atrás, onde as mulheres, de forma geral, são subordinadas aos
homens – período em que se dá a ocupação da América latina,
conforme MAESTRI (2000)
5
Porque, oficialmente, não é reconhecido pelos principais
estudiosos do tema. No entanto, há de se reconhecer que pelo
tipo de relação estabelecida entre as pessoas e com a
natureza, desde então contrapunha o modelo agrícola de
exportação e capitalista.
6
Trata-se de Bety Fridmann, a temida feminista, que viria a
propagar que as mulheres têm direitos, que não devem aceitar a
consideração de que são menos pelo fato de serem do sexo
feminino, conforme Muraro em: Os Seis Meses que Fui Homem.
7
Segundo Gebara 2001.
Referências
bilbilográficas:
CARVALHO, Horácio Martins de.
O Campesinato no Século XXI. Petrópolis SP: Vozes, 2005.
FARIA, Nalu e NOBRE, Mirian
(Org). A produção do Viver. SP: SOF – Sempreviva
Organização Feminista, 2003.
FREI BETTO. A Marca do Batom.
São Paulo, 2001.
GEBARA, Ivone. Cultura e
Relações de Gênero. SP: Cepis, 2001.
MAESTRI, Mário. Uma História
do Rio Grande do Sul. A ocupação do território. Passo
Fundo: UPF, 2000.
MÉSZÁROS, István. Para Além
do Capital. SP: Boitempo, 2002.
MMC BRASIL. Textos internos:
Brasília, mar. 2004.
MURARO, Rose Marie. Os Seis
Meses em que fui Homem. 7ª ed. RJ: Rosa dos Tempos, 2001.
PALUDO, Conceição. Educação
Popular em Busca de Alternativas: Uma leitura desde o campo
democrático popular. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2001.
PINHEIRO, Sebastião. A Máfia
dos Alimentos no Brasil. Porto Alegre: UFRGS, 2005.
RIBEIRO, Darcy. O Povo
Brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. SP:
Companhia das Letras, 2002.
RICHATZ, Teresinha apud Safiotti
H. Conceituando Gênero e Patriarcado. SP: PUC, 2004. |
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