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22/04/2008
A natureza não é
muda
Eduardo Galeano
Publicado na revista Brecha, Montevideo 18 de
abril 2008
Tradução: Eric Nepomunceno
O
mundo pinta naturezas mortas, sucumbem os bosques naturais, os
pólos derretem, o ar se faz irrespirável e a água imbebível,
as flores e a comida se plastificam, o céu e a terra ficam
loucos de pedra.
E
enquanto tudo isso acontece, um país latino-americano, o
Equador, está discutindo uma nova Constituição. E nessa
Constituição se abre a possibilidade de reconhecer, pela
primeira vez na história universal, os direitos da natureza.
A
natureza tem muito a nos dizer, e já é hora que nós, seus
filhos, deixemos de fazer de conta que somos surdos. E talvez
até Deus escute o chamado que vem desse país andino, e
acrescente o décimo primeiro mandamento – que esqueceu de
incluir – nas instrução que nos mandou lá do monte Sinais:
“amarás a natureza, da qual fazer parte”.
Um
objeto que quer ser sujeito
Durante milhares de anos, quase todo mundo teve o direito de
não ter direitos. Na verdade dos fatos, não são poucos os que
continuam sem direitos, mas pelo menos se reconhece, agora, o
direito de tê-los; e isso é bastante mais que um gesto de
caridade dos amos do mundo para consolo de seus servos.
E a
natureza? De certa forma, poderíamos dizer que os direitos
humanos incluem a natureza, porque ela não é um cartão postal
para ser visto pelo lado de fora; mas bem sabe a natureza que
até as melhores leis humanas a tratam como objeto de
propriedade, e nunca como sujeito de direito. Reduzida a mera
fonte de recursos naturais e de bons negócios, ela pode ser
legalmente ferida de morte, e até exterminada, sem que se
ouçam suas queixas e sem que as normas jurídicas impeçam a
impunidade de seus criminosos. No máximo, na melhor das
hipóteses, são as vítimas humanas que podem exigir uma
indenização mais ou menos simbólica, e isso sempre depois que
o dano tiver sido feito, mas as leis não evitem nem detêm os
atentados contra a terra, a água ou o ar.
Parece estranho, não é? Essa história de que a natureza tenha
seus direitos... Uma loucura. Como se a natureza fosse uma
pessoa! Em compensação, parece ser a coisa mais normal que as
grandes empresas dos Estados Unidos desfrutem seus direitos
humanos. Em 1886, a Suprema Corte dos Estados Unidos, modelo
de justiça universal, estendeu os direitos humanos às
corporações privadas. A lei reconheceu nelas os mesmos
direitos das pessoas à vida, à livre expressão, à privacidade
e a todo o resto, como se as empresas respirassem. Passaram-se
mais de 120 anos, e isso continua valendo. Não chama a atenção
de ninguém.
Gritos e sussurros
Não
tem nada de estranho, de anormal, o projeto que quer
incorporar os direitos da natureza à nova Constituição do
Equador.
Esse
país sofreu numerosas devastações ao longo da sua história.
Para citar só um exemplo, durante mais de um quarto de século,
até 1992, a empresa petroleira Texaco vomitou impunemente 18
milhões de galões de veneno sobre terras, rios e pessoas. Uma
vez cumprida essa obra de beneficência na Amazônia
equatoriana, a empresa nascida no Texas celebrou matrimônio
com a Standard Oil. Naquela época, a Standard Oil de
Rockefeller já tinha passado a se chamar Chevron e era
dirigida por Condoleezza Rice. Depois, um oleoduto transportou
Condoleezza até a Casa Branca, enquanto a família
Chevron-Texaco continuava contaminando o mundo.
Mas
as feridas abertas no corpo do Equador pela Texaco e por
outras empresas não são a única fonte de inspiração desta
grande novidade jurídica que tentam levar adiante. Além do
mais, e não é de menos, a reivindicação da natureza forma
parte de um processo de recuperação das mais antigas tradições
do Equador e de toda a América. Propõe-se que o Estado
reconheça e garanta o direito de manter e regenerar os ciclos
vitais naturais, e não por acaso a Assembléia Constituinte
começou por identificar seus objetivos de renascimento
nacional com o ideal de vida do sumak kausai. Isso significa,
em idioma quéchua, vida harmoniosa: harmonia entre nós e
harmonia com a natureza, que nos engendra, nos alimenta e nos
abriga, e que tem vida própria, valores próprios, muito além
de nós.
Essas
tradições continuam milagrosamente vivas, apesar da pesada
herança do racismo, que no Equador, como em toda a América,
continua mutilando a realidade e a memória. E não são apenas o
patrimônio de sua numerosa população indígena, que soube
perpetuá-las ao longo de cinco séculos de proibição e
desprezo. Pertencem ao país inteiro, ao mundo inteiro, essas
vozes do passado que nos ajudam a adivinhar outro futuro
possível.
Desde
que a espada e a cruz desembarcaram em terras americanas, a
conquista européia castigou a adoração da natureza, que era
pecado de idolatria, com sentenças de açoite, forca ou fogo. A
comunhão entre a natureza e as pessoas, costume pagã, foi
abolida em nome de Deus e depois, em nome da civilização. Em
toda a América, e no mundo, continuamos pagando as
conseqüências desse divórcio obrigatório. |
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