|
22/04/2008
Cadê o agronegócio?
Cadê os alimentos?
Bernardo Mançano
Fernandes¹
A
crise atual da inflação dos preços de alimentos na maior
parte do mundo derruba dois mitos. 1 – O agronegócio é o
grande produtor de alimentos; 2 – A fome e a desnutrição são
causadas pelo fato da população não ter dinheiro para comprar
alimentos e não pela falta de alimentos, que estariam
sobrando.
O
agronegócio produz apenas uma parte dos alimentos. A outra
parte é produzida pela agricultura camponesa ou familiar ou
pequenos produtores ou sitiantes, como possam ser chamados os
produtores não capitalistas. Essa parte, no geral, significa
metade e, no particular, significa mais ou menos da metade. O
agronegócio pode produzir mais cana, mas são os camponeses que
produzem mais café e leite. O agronegócio pode produzir mais
soja, mais são os camponeses que produzem mais feijão,
mandioca, cebola e banana.
Para
esconder essas diferenças os ideólogos do agronegócio
construíram a imagem do agronegócio como totalidade e, nesta
lógica, o campesinato seria parte do agronegócio. Nesta lógica
perversa, o agronegócio controla 70% dos territórios
produtivos, 90% dos recursos públicos para financiamento e
produz somente 50 %. E se projeta como mais competitivo que o
campesinato que controla somente 30% dos territórios
produtivos, apenas 10% dos recursos públicos de crédito e
produz 50% dos alimentos. Na verdade, agronegócio e
campesinato são sistemas distintos definidos por relações
sociais diferentes: capitalistas e não capitalistas. Enquanto
o agronegócio concentra, o campesinato distribui.
A
crise atual derruba dois mitos e revela que o agronegócio
é uma farsa. A lógica das empresas capitalistas,
autodenominada agronegócio, é produzir mercadorias e não
alimentos. Se as mercadorias podem ser também alimentos, nem
sempre os alimentos podem ser mercadorias. Não se pode pensar
a soberania alimentar a partir da lógica das empresas
capitalistas, porque elas não têm a preocupação de garantir o
direito à alimentação. Essa preocupação é do Estado e da
Sociedade.
A
falta de alimentos no mundo tem duas razões, aumento do
consumo maior que o aumento da produção de alimentos. Não
estou ressuscitando a teoria de Malthus da progressão
geométrica do crescimento da população e da progressão
aritmética do crescimento da produção de alimentos. Temos
terra, gente e tecnologia para produzir alimentos em
abundância para todos. Todavia, o grau de concentração da
riqueza, das terras, das tecnologias e dos conhecimentos é tão
intenso que produziu a crise atual.
A
crise atual é resultado de quase duas décadas de políticas
neoliberais que controlam o Estado, dominam ministérios e
defendem os interesses das empresas capitalistas em detrimento
dos interesses da sociedade. É preciso recuperar o Estado, os
ministérios e as secretarias das mãos dos tecnocratas do
neoliberalismo para que possamos desenvolver políticas de
interesses da Nação e não as políticas de interesse do patrão.
A implantação de uma política de soberania alimentar é urgente
para que os efeitos da crise atual sejam minimizados. O
agronegócio controla hoje no Brasil 300 milhões de hectares,
todavia utiliza apenas 120 milhões. Restam 180 milhões de
hectares para serem utilizados na reforma agrária voltada para
a produção de alimentos.
A
crise atual tende a aumentar com a ampliação das
monoculturas para a produção de agrocombustíveis. O
planejamento territorial é urgente para evitar um colapso. É
preciso definir limites para as diferentes culturas e garantir
o desenvolvimento. Estamos diante de um grande desafio: romper
com as políticas que promovem a concentração da população nas
grandes cidades e concentram as terras no campo; é preciso
defender políticas que democratizem o acesso à terra, ao
conhecimento e às riquezas. Este desafio possui diferentes
escalas. Na escala nacional as políticas de soberania
alimentar garantem o abastecimento interno e na escala
internacional as políticas protecionistas precisam ser
equivalentes entre os países pobres e os países ricos. Isto
significa o fim da Organização Mundial do Comércio que não tem
competência para defender os interesses das nações. Os
interesses do comércio não podem estar acima dos interesses da
soberania.
A
crise atual é um indicador de uma nova etapa da história.
A etapa pós-neoliberal. Como afirmou o líder camponês francês
José Bové: “o mundo não é uma mercadoria”.
¹Geógrafo,
professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da
Universidade Estadual Paulista – UNESP, campus de Presidente
Prudente; coordenador do Núcleo de Estudos, Pesquisas e
Projetos de Reforma Agrária – NERA; Pesquisador do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq;
coordenador do Grupo Trabalho Desenvolvimento Rural na América
Latina e Caribe do Conselho Latino-americano de Ciências
Sociais – CLACSO. |