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20/08/2008
Povos indígenas, história e democracia
Por
Paulo Maldos
Por
mais de 400 anos, os povos indígenas no Brasil sofreram o
processo colonizador como vítimas e, eventualmente, como
aliados para a defesa do território nacional frente aos
diferentes invasores. O domínio das terras e caminhos, das
matas e rios, o conhecimento milenar da natureza tornava-os
imprescindíveis à empresa colonial e, ao mesmo tempo, objeto
de desrespeito, exploração e questionamento da própria
humanidade.
Essa
relação contraditória caracterizou a fase inicial de nossa
história, perpassando o Império e boa parte da República. A
inspeção das fronteiras nacionais até os anos 1930 e a
instalação de linhas telegráficas no oeste brasileiro,
realizada pelo marechal Cândido Rondon, teria sido impossível
sem a contribuição dos povos indígenas e a relação digna
estabelecida pelo militar com estes, o que viabilizou a
consolidação do território nacional.
O
processo econômico de ocupação territorial, no entanto, sempre
foi impiedoso e, enquanto ocupava terras no seu caminho,
subjugava povos, identidades, culturas e modos de existência.
A ocupação do litoral e Sul do país pelos imigrantes europeus
foi realizada com o sacrifício de inúmeros povos milenares, e
da mesma maneira ocorreu a expansão das fronteiras econômicas
no rumo do Oeste, Norte e Centro-Oeste. A tensão e a
contradição, portanto, sempre ocorreram, e em todas as frentes
de expansão, alternando-se guerras com colaboração;
insurreições com "doações de terras" pelo Império aos índios;
enfrentamentos com demarcações; subjugação cultural com
intensas trocas culturais.
Na
esteira de quase cinco séculos da construção nacional,
centenas de povos desapareceram, milhões de indígenas morreram
e avançamos no Século XX com uma visão precária e
contraditória do que havia restado das populações originais
desta terra, numa mistura de fascínio, ignorância e desprezo.
A intelectualidade e os artistas fizeram o reconhecimento e o
elogio das nossas raízes indígenas na Semana de Arte Moderna
de 1922, mas essa visão de vanguarda não chegou a referenciar
as condutas das frentes de expansão, que mantiveram o padrão
colonial de dominação e expropriação.
O
período desenvolvimentista dos anos 50 produziu as estratégias
- como a criação do Parque Nacional do Xingu - de remoção e
reassentamento territorial de diferentes povos, para
protegê-los na mesma medida em que se lhes subtraía o
território e se lhes confinava nas sobras da expansão
econômica e nos corredores entre as novas estradas que rumavam
para o interior.
A
ditadura militar acelerou o processo de espoliação dos povos
indígenas, expondo brutalmente suas frágeis existências ao
ciclo voraz do capital, incentivando a ocupação desordenada da
região amazônica e disseminando doenças, morte e miséria nas
aldeias indígenas. A ditadura quebra a relação contraditória
vigente desde a colônia entre o Estado nacional e os povos
indígenas para anunciar com radicalidade o etnocídio como "o
preço a pagar pelo progresso". Buscava-se a integração dos
povos indígenas sobreviventes à sociedade nacional como a
vitória final de um Brasil branco e homogêneo.
Como
toda a sociedade nacional, também os povos indígenas se
mobilizaram durante o último período da ditadura: assembléias,
denúncias, ações coletivas passaram a ocorrer com intensidade
crescente, reivindicando terras, afirmando culturas, cobrando
respeito. "Brasil, Nunca Mais" deixava de ser uma aspiração
restrita aos grupos que lutavam pela Anistia, para ser
abraçada por todos os setores sociais, inclusive os povos
indígenas.
O
Congresso Constituinte (1987-1988) foi o espaço pós-ditadura
no qual o conjunto da sociedade brasileira se encontrou para
construir um novo pacto político e social. Ali foi
transformada radicalmente a orientação do Estado com relação
aos povos originários: de uma perspectiva integracionista, que
pressupõe a superioridade da sociedade nacional frente às
sociedades indígenas, passamos a uma perspectiva de respeito à
alteridade, que pressupõe a igualdade de direitos entre os
diferentes modos de existência no interior do Estado-nação.
A
Constituição de 1988 afirma no artigo 231: "São reconhecidos
aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças
e tradições, e os direitos originários sobre as terras que
tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las,
proteger e fazer respeitar todos os seus bens".
Ao
longo dos últimos 20 anos, a sociedade brasileira vem buscando
cumprir, embora de maneira muito lenta, esse novo mandato
constitucional: várias terras indígenas foram demarcadas em
todas as regiões do país; políticas públicas diferenciadas em
saúde e educação vêm sendo experimentadas; um novo Estatuto
dos Povos Indígenas foi proposto ao Congresso Nacional; a
Comissão Nacional de Política Indigenista foi criada pelo
atual governo; vem sendo exigida proteção para os povos
indígenas ainda não contatados (cerca de 70) na Região
Amazônica. Há muitíssimo por fazer, mas o que foi feito, o foi
dentro dos novos marcos constitucionais.
Por
parte dos 235 povos indígenas também muitas mudanças
ocorreram, alicerçadas nesses mesmos marcos: comunidades
indígenas participaram ativamente na demarcação de suas
terras; povos que estavam morrendo voltaram a crescer; o
conhecimento tradicional da flora, da fauna, das maneiras
próprias de compreender saúde e educação, tem sido valorizado
e aplicado; povos, principalmente do Nordeste, que exerciam
suas culturas clandestinamente, voltaram a se expor por
inteiro e com orgulho, retomando memórias e territórios
ancestrais; comunidades indígenas urbanas se revelam em todo o
país, reafirmando valores e culturas, em permanente
intercâmbio com as aldeias e com a sociedade nacional.
Avalia-se que o total da população indígena hoje pode chegar a
um milhão de pessoas, numa taxa de crescimento superior à
média nacional.
Em
agosto, o Supremo Tribunal Federal (STF) poderá julgar a ação
que questiona a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do
Sol, em Roraima, feita pelo governo Fernando Henrique e
homologada e registrada pelo governo Lula.
Fruto
de 34 anos de luta dos povos indígenas e da solidariedade de
movimentos sociais e entidades civis, a demarcação vem sendo
contestada por seis fazendeiros invasores e seus aliados
políticos e militares.
Julgamento emblemático, seu resultado dirá se nós, como nação,
iremos continuar avançando na construção democrática de um
futuro diverso e plural, baseado no respeito às diferentes
culturas e formas de existência, expressas no rico patrimônio
dos povos indígenas, ou se iremos regredir e voltar à
perspectiva colonial e, pior ainda, da ditadura militar, com
seu horizonte fechado à diversidade, marcado pelo preconceito.
No limite, apontando novamente para o etnocídio, em pleno
Século XXI.
Paulo Maldos é assessor político do Conselho Indigenista
Missionário (Cimi) |
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