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19/04/2007
Contos Brasileiros
- Histórias da nossa gente
A última parada
A
Marcha chega o lugar onde iriam passar a última noite antes de
entrar em Brasília.
Edvânia
senta-se um pouco para descansar ao ar livre. As estrelas
começam a aparecer. Naquela região as noites costumam ser
frescas, com uma temperatura agradável.
Edvânia
está quieta, pensando em seus problemas, quando chega a Tere.
Tere é
do Movimento das Mulheres Camponesas, o MMC, e desde o começo da
Marcha percebeu que a menina não estava bem. Volta e meia,
procurava Edvânia para saber o que está sentindo, para ver se
precisa de alguma coisa.
Várias
vezes Edvânia pensou em contar tudo para a Tere e pedir ajuda.
Mas sempre desistia, desconversava, embora achasse que a Tere
desconfiava do que estava acontecendo. Será? Desde que acamparam
naquele fim de tarde, começou a sentir dor na parte inferior da
barriga e seu medo aumentava. De novo, não contou nada para a
amiga, que ficou ali conversando um instante e em seguida se
despediu.
Tere
tem por volta de 30 anos, é catarinense, e Edvânia a conheceu há
pouco tempo, há uns oito meses, quando ela e outras mulheres do
MMC estiveram pela primeira vez no assentamento Bela Kun para
fazer uma discussão sobre a condição das mulheres. Chegaram com
suas bandeiras lilases, fizeram palestras e começaram a
organizar um grupo de militantes. Tere e outras companheiras
apareceram novamente no 8 de Março, Dia Internacional da Mulher,
quando fizeram uma comemoração. Edvânia convidou o Polaco para a
palestra, mas o jovem resistiu, dizendo que aquela era um
assunto de mulheres. Ele não foi. Durante a palestra, Tere disse
que a grande maioria das mulheres do campo ainda ano têm o
direito ao acompanhamento ginecológico permanente, aos métodos
contraceptivos seguros e aos absorventes higiênicos. Falou
também sobre as doenças sexualmente transmissíveis. Eram
palavras e expressões novas que a menina ainda não conhecia, mas
cujo significado e sentido foi decifrado através das explicações
e exemplos. Foi assim que Edvânia ficou sabendo melhor quais são
os sinais de gravidez. E é por isso que acredita que está
grávida. A barriga ainda não cresceu, mas os seis estão um pouco
inchados e a menstruação não vem há dois meses.
De
repente, a menina pensa: E se eu não estiver grávida? Afinal,
as companheiras do MMC explicaram que a menstruação pode atrasar
por vários motivos, inclusive por causa do nervoso. - E ela
anda muito nervosa.
Mas por
que meus seios estão inchados?
Ela
comentou essas coisas com o Polaco e ele até disse que os seios
podiam estar inchados porque antes ninguém tocava neles e agora
ele vivia pegando. Ele acredita que pode ser também porque ela
ainda está na idade dos seios se desenvolverem.
Desde
que conheceu Tere, Edvânia decidiu que se juntaria ao grupo de
bandeira lilás. Ia continuar seus estudos e participar do MMC.
Agora acha que isso não vai acontecer nunca.
Sente-se muito fraca a dor aumenta.
E se
ela morrer, como aconteceu com sua mãe?
A
menina lembra da avó contando a história de Aída, a prima que
cinqüenta anos atrás “se perdeu” com um cabo da polícia e ficou
grávida. Tinha 16 anos. O pai da moça a expulsou de casa. Aída
não tinha estudo nem profissão e foi acabar na zona de Salvador,
com uma filha de colo. Depois, não souberam mais dela. A avó
acha que a prima tinha morrido de alguma “doença ruim”.
Edvânia
gosta muito da Velha Mina, mas as histórias que a avó conta e o
jeito como ela conta sempre metem medo. É esse medo que impede
que ela pergunte coisas para a Velha.
Continuava pensando na avó, quando o Januário passa e pergunta
por que a menina estava ali sozinha, daquele jeito. Ela se
encolhe com um medo ainda maior, e fala umas palavras rápidas,
dispensando a atenção. O homem segue seu caminho, com um risinho
no canto da boca. Januário tem mais de 30 anos, uma penca de
filhos, é um tanto ixibido e tenta de todo jeito ser uma
liderança no assentamento Bela Kun. A Velha Mina e as vizinhas
não gostam dele. Para elas, Januário sempre diz uma coisa e faz
outra: vive dando lição de moral a todo mundo, mas não pode ver
um rabo de saia. Canta todas as mulheres. “Numa pessoa dessas
não dá para confiar” _ é o que acha a Velha Mina.
Edvânia
começa a sentir frio. As mãos estão geladas.
Extraído do livro Contos Brasileiros,
Editora
Expressão Popular
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