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19/02/2007
Benfeitores
de biotecnologia e biocombustível da Universidade da Califórnia: O poder de
grandes finanças e idéias más.
Por Miguel A. Altieri e Eric
Holt-Gimenez*
Com grande alarde, a British Petroleum acaba de doar uma enorme
quantia para fundos de pesquisa, para a Universidade da
Califórnia em Berkeley, os Laboratórios Lawrence Livermore e a
Universidade de Illinois, para o desenvolvimento de novas fontes
de energia – basicamente biotecnologia para a produção de
plantações visando biocombustível. A doação chega no aniversário
do infeliz negócio de Berkeley com a gigante de sementes
Novartis visando pesquisa, há dez anos. Entretanto, com meio
bilhão de dólares, a doação da BP representa dez vezes o
investimento da Novartis. A apresentação gráfica do anúncio era
inconfundível: o logotipo da corporação BP está perfeitamente
alinhado com as bandeiras da Nação, do Estado, e da
Universidade.
O diretor executivo e presidente Robert A. Malone declarou que a
BP estava "se unindo a alguns dos melhores talentos mundiais em
ciências e engenharia para responder à demanda por energias de
baixo teor de carbono, que estaremos trabalhando para melhorar e
expandir a produção de energia limpa, renovável, através do
desenvolvimento de melhores plantações." Esta parceria reflete o
alinhamento global corporativo rápido, sem fiscalização, e sem
precedentes dos maiores do mundo em agro-negócio (ADM, Cargill e
Bunge), biotecnologia (Monsanto, Syngenta, Bayer, Dupont),
petróleo (BP, TOTAL, Shell) e indústrias automotoras
(Volkswagen, Peugeot, Citroen, Renault, SAAB). Com o que para
elas é um investimento relativamente pequeno, essas indústrias
vão se apropriar da perícia acadêmica construída através de
décadas de apoio governamental, traduzida em bilhões em receitas
para esses parceiros globais.
Seria esta uma programação que só traz ganhos para a
Universidade, o público, o meio ambiente e a indústria?
Dificilmente. Além de sobrecarregar a programação de pesquisas
da Universidade, o que os cientistas que estão por detrás deste
negócio escancaradamente privado deixam de mencionar é que a
aparente "boca-livre" de combustível baseado em plantações não
pode satisfazer nossa fome de energia e que não será de graça,
nem saudável do ponto de vista ambiental.
Destinar toda a produção atual de milho e soja dos EUA para a
produção de biocombustíveis só satisfaria 12% de nossa demanda
de gasolina e 6% de diesel. O total da área dos EUA para
plantações atinge 625.000 milhas quadradas. Para substituir o
consumo de petróleo dos EUA por biocombustível seriam
necessárias 1.4 milhões de milhas quadradas para etanol de milho
e 8.8 milhões de milhas quadradas de soja para biodiesel.
Estima-se que os biocombustíveis vão transformar os estados de
Iowa e Dakota do Sul em importadores de milho até 2008.
O equilíbrio energético do biocombustível – a quantidade de
energia fóssil usada para produzir as plantações de biomassa
comparada com a que será produzida – não é nada promissor. Os
pesquisadores Patzek e Pimentel identificam graves equilíbrios
negativos de energia com biocombustíveis. Outros pesquisadores
encontram um retorno de apenas 1.2 a 1.8 vezes para etanol, na
melhor das hipóteses, com dúvidas em relação a biocombustíveis
baseados em celulose.
Os métodos industriais de produção de milho e grãos de soja
dependem de monoculturas em grande escala. O milho industrial
exige altos níveis de fertilizante químico de nitrogênio
(responsável em grande parte pela zona morta no Golfo do México)
e o herbicida atrazine, um fragmentador endócrino. A soja exige
quantidades massivas de herbicida não-seletivo da Roundup, que
desequilibra a ecologia do solo e produz "super ervas daninhas".
Ambas as monoculturas produzem massiva erosão da camada
superficial do solo e poluição da água da superfície e do
subsolo devido ao escoamento de pesticidas e fertilizantes. Cada
galão de etanol chupa de 3 a 4 galões de água na produção de
biomassa. A expansão de combustível "em espiga" para áreas mais
secas no Centro-Oeste vai reduzir o já prejudicado aqüífero
Ogallala.
Um dos motivos industriais mais sub-reptícios da programação de
biocombustíveis – e o motivo porque Monsanto e companhia são
atores chave – é a oportunidade de transformar irreversivelmente
a agricultura para plantações geneticamente modificadas (GMOs na
sigla em inglês). Atualmente, 52% do milho, 89% da soja e 50% da
canola nos EUA são GMOs. A expansão de biocombustíveis através
de "milho programado", geneticamente adaptado para plantas
especiais para o processamento de etanol, vai remover todas as
barreiras práticas para a permanente contaminação de todas as
plantações não GMOs.
Obviamente, os EUA não podem satisfazer seu apetite por energia
com biocombustíveis. Em vez disso, culturas para combustíveis
serão produzidas nos países em vias de desenvolvimento, por
plantações em grande escala de cana de açúcar, palmeiras que
produzem óleo e grãos de soja, que já estão substituindo
florestas tropicais primárias e secundárias e pastos na
Argentina, Brasil, Colômbia, Equador e Malásia. A soja já causou
a destruição de mais de 91 milhões de acres de florestas e
pastos no Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia. Para satisfazer
à demanda do mercado mundial, só o Brasil terá que derrubar 148
milhões mais de acres de floresta. A redução de gases que
produzem o efeito estufa se perde, quando florestas que captam
carbono são derrubadas para dar lugar a plantações que produzem
biocombustível.
Enquanto isso, centenas de milhares de pequenos agricultores
camponeses estão sendo deslocados pela expansão da soja. Muitos
mais deverão perder suas terras devido à corrida por
biocombustíveis. A expansão de terras de cultivo com plantações
de milho amarelo para etanol já reduziu o suprimento de milho
branco para tortilhas no México, fazendo aumentar os preços em
400%. Isso fez com que os líderes camponeses presentes no
recente Fórum Social Mundial em Nairobi exigissem: "Nada de
tanques cheios quando ainda há barrigas vazias!".
Com a promoção em larga escala de monoculturas mecanizadas, que
exigem a introdução de agro-químicos e máquinas, e conforme
florestas que captam carbono são derrubadas para dar lugar para
plantações visando biocombustíveis, as emissões de CO 2 irão
aumentar e não diminuir. A única maneira de parar o aquecimento
global é promover agricultura orgânica em pequena escala e
reduzir o uso de todos os combustíveis, o que requer grandes
reduções nos padrões de consumo e o desenvolvimento de sistemas
massivos de transporte público, áreas que a Universidade da
Califórnia deveria estar ativamente pesquisando e nas quais BP e
outros parceiros no biocombustível nunca irão investir um
centavo sequer.
As conseqüências potenciais para o meio ambiente e a sociedade
do financiamento da BP são profundamente perturbadoras. Depois
do relatório da revisão externa do acordo entre a Universidade
da Califórnia e a Novartis, que recomendou que a Universidade
não realizasse tais acordos no futuro, como pôde um negócio tão
grande ser anunciado sem ampla consulta ao corpo docente da
Universidade?
A Universidade foi levada a uma parceria corporativa que pode
transformar irreversivelmente os sistemas de alimentos e
combustíveis do planeta e concentrar enorme poder nas mãos de
uns poucos parceiros corporativos.
Cabe aos cidadãos da Califórnia exigir que a Universidade seja
responsável por pesquisas que verdadeiramente apóiem
alternativas sustentáveis para a presente crise de energia. Um
debate público sério sobre este novo programa já deveria der
sido feito há muito tempo.
Miguel A. Altieri Professor da
Universidade da Califórnia em Berkeley
Eric Holt-Gimenez, Diretor
Executivo, "Food First", Oakland
Traduzido do inglês por Lília
Azevedo
São Paulo, 7 fevereiro 2007
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