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19/02/2007
Ou mudamos ou
morremos
* Leonardo Boff
Hoje vivemos uma crise dos
fundamentos de nossa convivência pessoal, nacional e mundial. Se
olharmos a Terra como um todo, percebemos que quase nada
funciona a contento. A Terra está doente e muito doente. E como
somos, enquanto humanos também Terra (homem vem de humus=terra
fértil), nos sentimos todos, de certa forma, doentes. A
percepção que temos é de que não podemos continuar nesse
caminho, pois nos levará a um abismo. Fomos tão insensatos nas
últimas gerações que construímos o princípio de auto-destruição.
Não é fantasia holywoodiana.
Temos
condições de destruir várias vezes a biosfera e impossibilitar o
projeto planetário humano. Desta vez não haverá uma arca de Noé
que salve a alguns e deixa perecer os demais. O destino da Terra
e da humanidade coincidem: ou nos salvamos juntos ou sucumbimos
juntos.
Agora viramos
todos filósofos, pois, nos perguntamos entre estarrecidos e
perplexos: como chegamos a isso? Como vamos sair desse impasse
global? Que colaboração posso dar como pessoa individual?
Em
primeiro lugar, há de se entender o eixo estruturador de nossas
sociedades hoje mundializadas, principal responsável por esse
curso perigoso. É o tipo de economia que inventamos. A economia
é fundamental, pois, ela é responsável pela produção e
reprodução de nossa vida. O tipo de
economia vigente se monta sobre a troca competitiva. Tudo na
sociedade e na economia se concentra na troca. A troca aqui é
qualificada, é competitiva.
Só o
mais forte triunfa. Os outros ou se agregam como sócios
subalternos ou desaparecem. O resultado desta lógica da
competição de todos com todos é duplo: de um lado uma acumulação
fantástica de benefícios em poucos grupos e de outro, uma
exclusão fantástica da maioria das pessoas, dos grupos e das
nações.
Atualmente, o grande crime da humanidade é o da exclusão social.
Por todas as partes reina fome crônica, aumento das doenças
antes erradicadas, depredação dos recursos limitados da natureza
e um ambiente geral de violência, de opressão e de guerra.
Mas
reconheçamos: por séculos essa troca competitiva abrigava a
todos, bem ou mal, sob seu teto. Sua lógica agilizou todas as
forças produtivas e criou mil facilidades para a existência
humana. Mas hoje, as virtualidades deste tipo de economia estão
se esgotando. A grande maioria dos países e das pessoas não
cabem mais sob seu teto. São excluídos ou sócios menores e
subalternos, como é o caso do Brasil. Agora esse tipo de
economia da troca competitiva se mostra altamente destrutiva,
onde quer que ela penetre e se imponha. Ela nos pode levar ao
destino dos dinossauros.
Ou
mudamos ou morremos, essa é a alternativa. Onde buscar o
princípio articulador de uma outra sociabilidade, de um novo
sonho para frente? Em momentos de crise total precisamos
consultar a fonte originária de tudo, a natureza. Que ela nos
ensina? Ela nos ensina, foi o que a ciência já há um
século identificou, que a lei básica do universo, não é a
competição que divide e exclui, mas a cooperação que soma e
inclui. Todas as energias, todos os elementos, todos os seres
vivos, desde as bactérias e virus até os seres mais complexos,
somos inter-retro- relacionados e, por isso, interdependentes.
Uma teia de conexões nos envolve por todos os lados, fazendo-nos
seres cooperativos e solidários. Quer queiramos ou não, pois
essa é a lei do universo. Por causa desta teia chegamos até aqui
e poderemos ter futuro.
Aqui se
encontra a saída para um novo sonho civilizatório e para um
futuro para as nossas sociedades: fazermos desta lei da
natureza, conscientemente, um projeto pessoal e coletivo, sermos
seres cooperativos. Ao invés de troca competitiva onde só um
ganha devemos fortalecer a troca complementar e cooperativa,
onde todos ganham. Importa assumir, com absoluta seriedade, o
princípio do prêmio de economia John Nesh, cuja mente brilhante
foi celebrada por um não menos brilhante filme: o princípio
ganha-ganha, onde todos saem beneficiados sem haver perdedores.
Para
conviver humanamente inventamos a economia, a política, a
cultura, a ética e a religião. Mas nos últimos séculos o fizemos
sob a inspiração da competição que gera o individualismo. Esse
tempo acabou. Agora temos que inaugurar a inspiração da
cooperação que gera a comunidade e a participação de todos em
tudo o que interessa a todos.
Tais
teses e pensamentos se encontram detalhados nesse brilhante
livro de Maurício Abdalla, O princípio da cooperação. Em busca
de uma nova racionalidade. Se não fizermos essa conversão,
preparemo-nos para o pior. Urge começar com as revoluções
moleculares. Começemos por nós mesmos, sendo seres cooperativos,
solidários, compassivos, simplesmente humanos. Com isso
definimos a direção certa. Nela há esperança e vida para nós e
para a Terra.
* Leonardo Boff é teólogo, filósofo, espiritualista, e
ecologista.
Ajudou
a formulara a Teologia da Libertação e escreveu mais de sessenta
livros.
É
professor emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Publicada em 31.01.2007
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