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18/12/2007
A legitimidade da
greve de fome do Bispo que jejua por nós
Valério Arcary,
professor de história no CEFET/SP,
é
autor de As Esquinas perigosas da História, situações
revolucionárias em perspectiva marxista.
D.
Luíz Cappio mantém, com valentia admirável, a greve de fome
exigindo do governo Lula a suspensão das obras de transposição
do rio São Francisco. Sua luta merece o apoio de todos. A
transposição é um projeto mais do que controverso: já são
muito consistentes as críticas que asseguram que os bilhões de
reais não serão suficientes para garantir a acessibilidade a
água potável. São interesses empresariais que se escondem por
trás do discurso de “levar água a quem tem sede”. Mas, há uma
outra dimensão na greve de fome de D.Cappio. A legitimidade da
greve de fome como forma de luta foi colocada em cheque pelas
forças que apóiam o governo, em primeiríssimo lugar, pelos
dirigentes do PT, que mobilizaram Patrus Ananias, militante
católico, para acusar D. Cappio de extremista e radical. Esta
acusação não é inocente. Tem como objetivo diminuir a simpatia
social, reduzir a audiência política e isolar a repercussão
internacional da greve de fome.
As
greves de fome foram no século XX, em todos os continentes,
uma das formas da luta defensiva por direitos democráticos
elementares. Sua legitimidade, histórica e politicamente, é
irrefutável. Ganhou destaque mundial a partir das greves de
fome de Gandhi contra a opressão colonial inglesa na Índia
antes da independência, inserida em uma estratégia de
desobediência civil. Na Bolívia, por exemplo, há uma longa
tradição de greves de fome, e uma delas incendiou o país e
culminou em uma greve geral que derrubou a ditadura Banzer em
1978. Ainda em 1978, mas no Mexico, 84 mulheres e quatro
homens iniciaram um jejum na Catedral para exigir a liberdade
de 1500 presos. Sua ação obteve a primeira anistía política.
Por último, no Brasil, em 1978, também, quase duas dezenas de
militantes da recém constituída Convergência Socialista
fizeram uma greve de fome na PUC/SP quando todo o Comité
Central – com a excepção de três membros - foi preso em
Agosto, junto com Nahuel Moreno. Impediram a deportação do
líder argentino para Buenos Aires, onde uma morte quase certa
o esperava. Na Irlanda, em 1981, líderes presos do IRA fizeram
greves de fome que culminaram com o sacrifício da vida de
Bobby Sands, que exigia o reconhecimento do estatuto de preso
político. No Chile, presos Mapuche fizeram uma greve de fome
há poucos meses. Greves de fome comovem a sociedade porque
expõem a disposição ao sacrifício terminal por uma causa. Os
inimigos das lutas populares as denunciam como um gesto
radical, ou messiânico ou milenarista.
É
verdade que, na luta contra a exploração, as massas populares
mais de uma vez deixaram-se seduzir por discursos milenaristas
– a escatologia de futurismos que prevêem um esgotamento
“natural” da ordem do mundo – ou messiânicos – a redenção de
uma vida de sofrimento por um agente salvador – que ressoam
suas aspirações de justiça. São ilusões de que o mundo poderia
mudar para melhor sem luta, ou sem maiores riscos. A linguagem
mística, porém, não deveria desviar nossa atenção. A vida
material das massas populares ao longo da história remete à
imagem do vale de lágrimas. Quem vive sob a exploração precisa
acreditar que é possível transformar o mundo ou, pelo menos,
que haverá recompensa e punição em outra vida, e tem boas
razões para desejá-lo. A esperança em uma mudança iminente, ou
a fé na força de uma liderança salvadora respondem a uma
intensa necessidade subjetiva – os céticos asseverariam, um
consolo –, mas também a uma experiência. Os que vivem do
trabalho sempre foram a maioria. Os explorados sabem que
sempre serão a maioria, enquanto houver exploração. É dessa
experiência que se renova a esperança de que podem mudar suas
vidas.
Todos
as classes dominantes foram hostis a doutrinas utópicas que
previam a subversão da ordem, e combateram sem hesitação
movimentos de massas que abraçaram o prognóstico – ou a
profecia – de um iminente desmoronamento do poder constituído.
O povo expressa-se no vocabulário que tem disponível, e
crenças revolucionárias, quando conquistam as vozes das ruas,
podem assumir uma dicção religiosa. São os despossuídos, os
oprimidos e os radicais políticos que se comovem com a
perspectiva de que é possível mudar o mundo. Os reacionários
de todos os tempos sempre insistiram em desqualificar as
utopias como teorias e projetos desvairados inspirados por
fanáticos e birutas.
Não
se deve, contudo, exagerar estabelecendo uma equação simples
entre crenças milenaristas e movimentos igualitaristas. Os
movimentos operários e sindicais modernos foram, na maioria
dos países, essencialmente laicos e uma das mais importantes
expressões sociais da secularização das sociedades urbanizadas
e industrializadas. Tanto reformistas quanto revolucionários
lutaram por um programa de reivindicações imediatas que
atendiam às necessidades concretas dos trabalhadores. A
diferença entre eles não era a recusa dos radicais à luta por
reformas, mas a recusa dos moderados em assumir um programa
anticapitalista.
A
dimensão utópica da idéia socialista – a promessa de uma
sociedade sem classes, ou seja, a aposta na liberdade humana –
teve e tem seu lugar na exaltação ideológica. Os sonhos
alimentam a luta por um mundo melhor. O sonho de uma nova
sociedade que garantiria direitos e deveres iguais é
necessário. Igualdade social e liberdade humana permanecem
sendo as aspirações civilizatórias mais elevadas da época que
nos tocou viver. O movimento social proletário foi, porém,
fundamentalmente um projeto político e, como todo movimento
político, colocou-se objetivos – como a defesa de direitos em
situações defensivas, e a conquista do poder em situações
revolucionárias – que pudessem ser alcançados por seus
militantes enquanto estivessem vivos. Não há, entretanto, por
que ser condescendente: a relação entre miséria extrema,
desespero social, pobreza cultural e anseios apocalípticos foi
historicamente anterior à influência do marxismo nas classes
populares, mas nunca deixou de existir e exerceu influência
sobre os marxistas.
São
poderosas as pressões de inércia social e cultural que
aprisionam as amplas massas trabalhadoras, urbanas ou rurais,
na sonolência, na apatia ou na submissão, mas em situações
revolucionárias precisam medir forças com pressões ainda mais
fortes. Não há força social mais poderosa na história do que a
revolta popular quando se organiza e mobiliza. O medo de que a
mudança não chegue nunca – que, entre os trabalhadores, é
desencorajado pelo temor às represálias – precisa encarar
medos ainda maiores: o desespero das classes proprietárias de
perder tudo. No calor de processos revolucionários, a
descrença dos trabalhadores em suas próprias forças, a
incredulidade em seus sonhos igualitaristas, foram superadas
pela esperança de liberdade, um sentimento moral e um anseio
político, mais elevado que a mesquinhez reacionária e a
avareza burguesa.
O
lugar dos socialistas é, portanto, ao lado de D.Luiz Cappio. A
grandeza do seu sacrifíco deve servir para levantar para a
luta todos nós. |
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