Pensar a
temática que trata sobre Soberania alimentar, biodiversidade e
diversidade cultural significa acima de tudo, compreender que
existe um processo histórico em curso através do qual, a classe
trabalhadora é explorada em sua força de trabalho, dominada e
excluída das possibilidades plenas de vida, por um pequeno grupo
detentor dos meios de produção que determina, através do mercado
como deve ser a vida em sociedade. É esse processo que tem
gerado a fome, a miséria, a degradação do ambiente como um todo
e a desigualdade social.
O papel e a
contribuição histórica das mulheres, no que diz respeito a luta
pela terra, pela água e pela biodiversidade é inegável! Ao longo
do tempo, fomos consideradas como guardiãs das sementes,
produzindo principalmente, em nossas hortas e nos pequenos
roçados, mesmo que sempre participamos de todo processo de
produção e reprodução da vida. Até os dias atuais, a maior parte
da comida das famílias camponesas provém do trabalho das
mulheres, além do excedente que vai para ser comercializado
principalmente nas feiras locais.
Podemos comparar
o planeta como a grande casa em que vivemos. Precisamos
organizar os espaços para que todos os seres vivos tenham
garantido as condições para viver bem. Entendemos que soberania
alimentar, biodiversidade e diversidade cultural são elementos
indispensáveis do projeto de agricultura camponesa que contribui
para a organização desta casa.
Em se tratando
da vida camponesa, cada vez mais quem vive e trabalha no campo,
sente a falta de implementação de políticas públicas e a má
distribuição dos recursos públicos. A omissão das esferas
governamentais, bem como o comprometimento dessas, com as
empresas privadas e o agronegócio, vem tentando destruir as
possibilidades de vida camponesa e da classe trabalhadora.
Para nós do MMC
está bastante claro de que a terra deve ser tratada como uma
questão de direito social para quem nela trabalha. A terra neste
país deve ser distribuída, para que de fato possa cumprir com
seu papel social. Neste sentido, a luta pela Reforma Agrária
deve ser intensificada e assumida por toda a sociedade
brasileira, especialmente pelos movimentos sociais do campo.
Neste momento
histórico se faz necessário uma grande ruptura com o rumo que o
modelo neoliberal, comandado pelo imperialismo norte americano,
tem tomado nestes últimos tempos e que a sociedade brasileira
está comprometida, envolvida.
Os mecanismos do
modelo imperial, construídos pela elite dominante, como é o caso
da Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, o Fundo
Monetário Internacional, vem impondo políticas para convencer as
camponesas e os camponeses de que estamos num brete, ou seja,
querem nos convencer de que não existe outra alternativa para a
vida camponesa a não ser a obediência e a submissão aos ditames
do capitalismo. Para eles trata-se do “fim da história”. São
políticas trabalhadas no mundo todo para privatizar os recursos
naturais e a cultura do povo. Esse modelo, tem investido para
consolidar um Estado mínimo e colocar, não só os camponeses (as)
na dependência do mercado das Transnacionais, mas sim toda
Classe Trabalhadora.
A medida em que
foi crescendo o modelo de sociedade capitalista, desenvolvemos
uma cultura de exploração e de domínio em relação a terra, à
água, à biodiversidade e ao próprio alimento. A saúde da terra
exige cuidados. Neste modelo aprendemos o contrário: Envenenamos
a terra, contaminamos a água, poluímos o ar. Não nos damos conta
de que somos um todo. Se a terra está envenenada nossa saúde
estará comprometida e a vida condenada.
Os governos
brasileiros tem atuado no sentido reforçar a hegemonia que o
capital financeiro, o agro-negócio e o capital exportador mantém
sobre a política nacional. Como exemplo do poder do capital
financeiro internacional sobre o nosso país, podemos observar
que o gasto com juros supera o investimento desde 1980. Naquele
ano, o governo federal investiu 10 bilhões e pagou 6,7 bilhões
de juros. Em 1990, já sob Collor, o governo investiu 13,5
bilhões e pagou 35,8 bilhões de juros. Em 1995, sob FHC, o
governo investiu 12 bilhões de reais e pagou 42 bilhões de
juros. Em 2002, último ano de FHC, o governo investiu 12,8
bilhões e pagou 70 bilhões (!!!) de juros. Em 2003, já sob Lula,
o governo investiu 6,9 bilhões e pagou 70,7 bilhões de juros. Os
dados em 2004 são parciais, mas a tendência não se alterou: 1,7
bilhão em investimentos e 50,8 bilhões em juros[1].
Portanto, as
políticas centrais do governo têm servido para reforçar a
hegemonia do capital financeiro, em detrimento das demais áreas
da economia. Neste momento, o comando do governo federal está
disposto “administrar o neoliberalismo”, buscando reforçar o
papel do Estado, ampliar os investimentos produtivos e sociais,
mas nos marcos da política neoliberal, ou seja, sem tocar na
hegemonia do capital financeiro, do agro-negócio e do setor
exportador.
Em função disso
o governo não tem conseguido avançar nas reformas que poderiam
propiciar direitos para a classe trabalhadora e perdas para a
classe dominante, como é o caso da reforma agrária, tributária e
judiciária.
Mas não é só
isso. O modelo tem conseguido passar sua ideologia em setores da
sociedade civil organizada, que muitas vezes tem colocado suas
organizações para facilitar a implementação dos programas do
Banco Mundial como é o caso do Crédito Fundiário e da Minha
Primeira Terra.
Entretanto o
modelo econômico capitalista adotado no Brasil tem servido para
gerar o crescimento da pobreza, a concentração da renda,
colocando as oportunidades nas mãos de poucas pessoas. Um
pequeno grupo empresarial. É por isso que se consolida no meio
de nós, um crescente processo de exclusão social,
particularmente no que diz respeito à vida camponesa atingindo
principalmente as mulheres.
Tentar
“humanizar esse modelo e ou suas instituições” vai contra sua
própria originalidade, pois a prática tem provado que o seu
objetivo é o lucro, não importando a morte dos seres. Temos
assistido nos últimos tempos a perversa matança da natureza, das
pessoas, da biodiversidade, da água, enfim do Planeta Terra.
Para tanto
reafirmamos que a consolidação de um Projeto de Agricultura
Camponesa, só será possível com a ruptura deste modelo
neoliberal, que vai desde a construção de novas práticas e novos
valores até o enfretamento direto contra a ALCA, a OMC, o FMI e
o não pagamento da Dívida Externa.
Entendemos que o
centro deste debate é a garantia de condições de dignidade e de
vida do SER HUMANO, possibilitando assim a construção das novas
relações entre pessoas, com a natureza e com o ecossistema.
Em nossos
Movimentos, fizemos o debate do Projeto de sociedade que
queremos, entretanto, por vezes, deixamos de fazer o debate da
prática de destruição da natureza, que tem dizimado a vida de
milhões de seres humanos e contribuído na continuidade de um
projeto de agricultura química na lógica da monucultura e do
fortalecimento do agronegócio.
Quando nos
referimos à necessidade do abastecimento alimentar digno para
toda a população se faz necessário compreender que não é
suficiente produzir grandes quantidades de alimentos a base de
inseticidas, herbicidas entre outros, mas impõe-se sobre nós a
responsabilidade de garantir a produção do alimento saudável.
A soberania
alimentar e a biodiversidade, passam por uma agricultura
agroecológica e por uma profunda mudança cultural que contribui
na perspectiva da construção de valores como: a solidariedade, o
respeito, a ética, a dignidade e a preocupação com a vida a cima
do lucro e da dominação.
A organização de
todos os setores da sociedade é decisiva para fortalecer as
novas relações de igualdade e respeito entre as pessoas e destas
com a terra e com a natureza. Bem como, para fortalecer a luta
de resistência e enfrentamento pela construção de uma nova
sociedade a serviço da vida.
Fortalecer a luta em
defesa da vida!