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18/01/2008
O Trabalho do
Movimento de Mulheres Camponesas
na questão de
gênero
O
Movimento de Mulheres Camponesas se caracteriza como sendo um
Movimento classista e feminista. Constituiu-se Movimento
Nacional em março de 2004 por ocasião do primeiro Congresso
Nacional. Em alguns estados do Brasil a caminhada do mesmo,
vem desde a primeira metade da década de 1980.
O MMC
nasce como Movimento autônomo, com trabalho específico com
mulheres da roça. Isto porque: pelo menos nos últimos dez mil
anos a sociedade é constituída como patriarcal(1)
sendo que às mulheres foi determinado papéis e lugares tidos
como secundários, cabendo-lhes “o ser menos(2)”,
ou seja: inferiores e incapazes se comparadas aos homens.
Constata-se que as mulheres camponesas são, ainda, as mais
excluídas do acesso ao estudo e conhecimento desde os
científicos até com relação aos seus próprios direitos sociais
de cidadãs. Em pesquisa realizada pelo MMC na região Missões I
do Rio Grande do Sul, em 2004, mostrou que 80% das mulheres
pesquisadas, militantes do MMC, possuem até cinco anos de
escolarização e, destas, 92% tiveram que deixar de estudar por
que tinham que trabalhar para contribuir no sustento da
família.
No
que se refere ao trabalho grande parte das mulheres camponesas
assumem a jornada dupla ou tripla. Fazem aquilo que é
indispensável e necessário para a sobrevivência da população,
considerado ‘serviço’, como se fosse sua condição de mulher. É
esse trabalho, justamente, que não é considerado e valorizado,
tampouco, valorado financeiramente e, além disso, mantêm o
trabalho na roça. A jornada de sobrecarga, em geral
repetitiva, exigente e de muita responsabilidade, faz com que
as mulheres adoeçam, fiquem depressivas e vivam em profunda
infelicidade, o que é uma forma de violência que a sociedade,
como um todo, costuma não perceber, ou ignorar.
Todas
as formas de proibição às mulheres camponesas se dão desde o
moralismo imposto sobre elas até os impedimentos de saírem do
espaço privado com a responsabilidade sobre filhos/as, idosos,
casa, animais domésticos e outros. Tudo isso contribui para
lhes tolhirem as possibilidades de avançar nos debates mais
gerais de participação na sociedade.
Com
relação à denúncia de todas as formas de violência sofrida por
elas, a falta de condições/acesso de fazê-la é ainda mais
acentuada com relação ás mulheres urbanas.
É a
partir de espaços autônomos e específicos de mulheres, que o
Movimento de Mulheres Camponesas afirma que é necessário fazer
uma reapropriação do poder roubado(3).
Isto significa bulir em algo enraizado, inclusive, como
elemento de cultura(4),
que questiona o Ser Mulher e o Ser Homem e seus papéis na
história e porque se chegou a esse tipo de relação onde as
mulheres são levadas à obediência e a submissão, excluindo-as
de espaços de decisão.
A
Missão do Movimento é: “ A libertação das mulheres
trabalhadoras de qualquer tipo de opressão e discriminação.
Isto se concretiza na organização, na formação e na
implementação de experiências de resistência popular, onde as
mulheres sejam protagonistas de sua história. Nossa luta é
pela construção de uma sociedade baseada em novas relações
sociais entre os seres humanos e desses com a natureza”.
A
missão do Movimento, nesse momento histórico, se traduz na
luta direta contra o capital por este ameaçar o campesinato
através do agronegocio, o qual vai tomando o território e
impossibilitando a produção de alimentos saudáveis e a própria
vivência e sobrevivência das pessoas.
Como
mulheres, a ação do capital patriarcalista é percebida, ainda
mais, porque faz com as mulheres pobres sintam culpa de sua
condição, ou as leva a serem consumistas daquilo que o mercado
impõe. A violência dos padrões de beleza e de
consumo-descarte, e o próprio fato de morarem no campo, as
colocam mais uma vez como inferiores. Além disso, o trabalho
delas aumenta, para conseguirem sobreviver.
Diante de tudo isso a proposição do trabalho do MMC na
questão de gênero vai na linha do cuidado(5)
compartilhado entre homens e mulheres e da necessidade de
empoderamento das mulheres rumo a construção do Novo,
onde mulheres e homens possam ser libertos(as), onde não haja
nem opressão de classe, tampouco de gênero, etnia ou
orientação sexual.
Trabalhamos, ‘As novas relações’ na perspectiva de uma Nova
Sociedade, entendida que o socialismo que queremos não será
apenas alteração do modelo econômico, até porque não haverá
socialismo pleno, até que houver exploração, inclusive, dentro
de uma mesma classe - dos homens sobre as mulheres. Logo:
enquanto elas não opinam e não têm efetiva participação,
condição e direito a voz e vez, ainda prevalece a relação
opressor-oprimido(6),
sendo a opressão de homens sobre outros homens e destes sobre
as mulheres, crianças, natureza, etc.
Como
linhas gerais o trabalho do movimento prima por:
-
Manter discussões e estudos permanentes com mulheres dos
grupos de base e comunidades, não negando o espaço amplo da
sociedade com a qual nos articulamos, em vista do dar-se
conta das ações do patriarcado capitalista e machista no
cotidiano. O Cuidado compartilhado entre homens e mulheres
que propomos não pode significar tolhimento do prazer das
mulheres, nem que a carga de responsabilidade fique sobre
elas, somente. O saber cuidar deverá proporcionar relações
não de descarte nem de uso de um como objeto de outro.
Consideramos que há muito o que construir e que essas
construções sejam a partir das mulheres assumirem que são
exploradas pelo sistema do jeito que está, mas que há
possibilidade de mudança, onde os homens possam e devem ser
companheiros;
-
Construir espaços autônomos de mulheres onde possam debater
e falar sobre assuntos que dizem respeito a si, suas vidas e
reapropriação do poder que lhes foi roubado. Por isso, nem
todos os debates devem e podem ser feitos junto com os
companheiros homens, pois, há uma relação de poder desigual
há milhares de anos. O papel do MMC é contribui para que
sejam possíveis as novas ações de não aceitação da
inferioridade por parte das mulheres. Elas necessitam de
reeducação para a superação, também, da condição ‘de
vítima’, pois é cômodo, aparentemente. Precisam saber do seu
valor para exigir que exijam valorização de si, do trabalho
que faz, da palavra que diz, da sua condição de ser humano;
-
Manter a indignação contra a discriminação e buscar espaço
de igualdade nas relações sociais de poder. Para tanto,
deverá haver compartilhamento das tarefas e trabalhos entre
mulheres e homens; perda do medo delas, de falar e
questionar, da culpa, de dizer suas vontades e seus sonhos;
-
Trabalho que possibilita que as mulheres e suas famílias
possam ir acumulando práticas e debates do projeto de
agricultura camponesa que nega e resiste ao agronegócio e a
ação do capital e das empresas transnacionais;
-
Construção do feminismo como forma de relação equilibrada de
poder e de responsabilidades entre as pessoas para se
contrapor ao machismo e todas as formas de violência.
Compreendemos que é necessário companheirismo e
solidariedade entre as mulheres do MMC e destas com outras e
outros nas relações que estabelecem, seja nos Movimentos
populares ou outros espaços;
- Participação nas lutas
populares de enfrentamento na perspectiva de destruir o
patriarcado e o capital que explora e destrói os seres
humanos e o planeta.
No
mais, o Movimento de Mulheres Camponesas trabalha as questões
de gênero, a partir do feminismo, juntamente com o recorte
classista, com acompanhamento permanente nos grupos de base
onde se reúnem as mulheres. Este acompanhamento é feito, em
geral, por parte das lideranças municipais, regionais e
estaduais/nacionais e também, técnicas no trabalho
agroecológico. Há momentos específicos de formação para
militantes, quadros e dirigentes na perspectiva da construção
e consolidação das novas relações.
A
intensionalidade do Movimento em todo e qualquer espaço de
atuação é levar as mulheres a serem sujeito, por isso, tem
potencializado formação com crianças, jovens, educandas,
mulheres camponesas e urbanas, assim, como também, em muitos
momentos, debates com os companheiros. Ocupa-se espaços tantos
quantos se consegue ter como meio aliado para impulsionar o
trabalho do MMC.
O MMC
deixa claro que “não somos contra os homens, mas, sim, contra
o poder centralizado que oprime especialmente as mulheres –
pelo fato da negação – mas oprime também os homens”. O poder
centralizado, verticalizado comandado pelo capital põe homem X
mulherX natureza e por isso a crise de civilização e
planetária. É por isto que as mulheres do MMC tem buscado
formas de construir a sociedade feminista e socialista.
1
A partir do patriarcado, (patris= poder centralizado no ser
masculino).
2
Conforme Gebara, 2001.
3
Segundo Gebara, 2001 “ Cultura e relações de gênero”.
4
Patriarcal, segundo Muraro, 2000.
5
A partir da concepção de Leonardo Boff – “Saber Cuidar”.
6
Relação opressor-oprimido – segundo FREIRE, Paulo. Pedagogia
do Oprimido. SP. Paz e Terra, 1987. |
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