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18/01/2008
O Movimento de
Mulheres Camponesas e a Revolução
Para
início de conversa, é preciso ressaltar que a revolução, na
óptica do MMC Brasil, é construída dia-a-dia, através de ações
micro no plano cotidiano, tanto quanto em parâmetro macro, com
ações populares de maior impacto possível contra o sistema
capitalista patriarcal.
Com
relação às ações, tanto micros quanto macros, são feitas por
pessoas da classe trabalhadora nacional, em primeiro plano em
um determinado país, com a junção dos vários Movimentos
populares do campo e da cidade. Não é apenas um movimento
social, sindical ou outra categoria isolada que pode dizer que
está construindo a revolução, tampouco, pode se considerar
mais revolucionário que os demais setores populares em luta.
Cada qual dá a sua contribuição de forma diferente, e é assim,
que os vários setores da sociedade vão tomando conhecimento e
partido sobre o processo revolucionário. Nesse processo, é
imprescindível contar com alianças internacionais para
triunfar.
Do
ponto de vista das mulheres, a Revolução significa acesso
eqüitativo de poder com relação aos homens, subentendendo
condições para tal vista às suas diferenças e desigualdades,
tanto do ponto de vista de gênero quanto de classe.
Para
as mulheres acesso a poder, inclusive, espaços e tarefas de
decisão, implica em compartilhamento de responsabilidades
tanto no âmbito privado quanto público. E, este poder, por sua
vez, deve abranger a esfera da produção e da reprodução.
Sabe-se que as mulheres, em grande parte, estão no mundo do
trabalho, em muitas ocasiões fazendo aquilo que foi denominado
‘serviço’, sendo tarefas relativas ao cuidado sem remuneração
e reconhecimento dentro do núcleo familiar.
Apesar de estarem massissamente no mercado de trabalho, ou no
mundo do trabalho 94%delas, segundo o IBGE(agosto de 2007)
realizam o trabalho, também, do ambiente doméstico, como se
fosse tarefa delas somente, por uma imposição cultural sexista.
Dados da mesma pesquisa mostram que apenas 6% dos homens
brasileiros realizam tarefas domésticas por consciência do
compartilhamento das mesmas. Em torno de 23% as realizam por
obrigação e, a grande parte, não as realiza, mesmo no caso da
companheira ter outra ou outras jornadas de trabalho. O
trabalho doméstico ainda é visto como ‘ajuda’ dos homens, como
se não fosse tarefa deles e este é um grande fator
determinante para que as mulheres permaneçam restritas ao
espaço privado, com trabalhos penosos e repetitivos.
No
caso das mulheres camponesas o espaço público e o privado se
confundem e se misturam em determinadas ocasiões, no entanto,
o que podemos trazer presente, é o fato delas garantirem a
maior parte da produção de subsistência da família e o cuidado
com filhos/as, idosos e animais de pequeno porte, ficando sob
suas responsabilidades casa, pessoas e roça, com pouco acesso
e tempo para o estudo, por exemplo. No caso delas o falso
moralismo religioso contribui para o papel normalizado da
submissão, aliado à educação sexista, ou á pouca educação
sexista a que tiveram e têm acesso.
Concorda-se e se trás á tona que a palavra igualdade entre
homens e mulheres é uma farsa, ou seja: uma maquiagem daquilo
que realmente não se quer mexer enquanto estrutura, pois há
uma posição confortável dos homens com relação às mulheres,
mesmo na classe trabalhadora. Quanto mais pobre, mais ainda,
recai a carga de responsabilidade sobre a mulher, inclusive a
culpa pelo fato de engravidar e gerar mais uma boca faminta.
A
discriminação sutil da tal ‘igualdade’, faz muitas vezes,
homens assumirem a postura de provocação na comparação, como
se mulher tivesse que estar sempre provando que é capaz,
inclusive, medindo força física e desempenho nas mais variadas
atividades.
É por
isso que as citações das situações de ‘desvantagem’ das
mulheres vem dizer que o discurso de que primeiro deveremos
fazer as transformações de cunho econômico e depois mudam-se a
situação das mulheres, é machista e discriminatório. No
entendimento das mulheres, seria a meia revolução, e esta,
elas não estão dispostas construir. Tomamos como exemplo o
socialismo do leste europeu, que ruiu, pois não foi capaz de
articular as várias dimensões da vida das pessoas, tampouco
percebendo a diferença biológica entre homens e mulheres.
Um
exemplo claro da tentativa de superação do enraizamento do
patriarcado e suas conseqüências pode ser observado no
processo revolucionário cubano. A existência da federação das
mulheres cubanas, que abrange 3 milhões de filiadas, dos 10
milhões de sua população geral mostra-nos que a dominação
machista precisa ser combatida urgentemente. A revolução está
em andamento, no entanto as mulheres, precisam se organizar
para lutarem contra o inimigo machismo que ainda permeia as
relações. Entendemos, entretanto, que esta organização vem a
fortalecer e construir o verdadeiro socialismo, sem opressão
de classe e sem opressão de gênero.
Assim
como as mulheres se organizam, de forma específica, outros
setores oprimidos precisam continuar e intensificar suas lutas
específicas em qualquer lugar do mundo, que venham a somar no
processo revolucionário como um todo. A Revolução precisa dar
conta de superar todos os sectarismos e ser em vista do
interculturalismo. Somos povos com diversidades e estas não
significam oposições e sim, diferenças. Ou faremos a
transformação cultural, política, econômica, juntas, ou não
haverá transformação.
No
entendimento das mulheres camponesas do MMC, maquiar a
realidade e continuar a opressão por parte de homens de uma
mesma classe, não é revolução.
Na
revolução verdadeira, para o Movimento, deve haver o pensar
feminino, e não o uso das mulheres como objetos não pensantes
e fazentes de tarefas e trabalhos delegados. É isto que temos
atualmente no capitalismo que massacra tanto mulheres quanto
homens. É preciso ir avançando rumo a autonomia das mulheres
sobre si e sobre o mundo que querem para si e seus filhos e
filhas. Para tanto, elas necessitam de espaços autônomos de
debates rumo ás novas práticas, ensaios e treinamentos (porque
não) de como farão e fazem em vista de um poder circular.
As
mulheres precisam aprender a dizer sua palavra sem medo e
culpa sabendo que esta deverá ter o mesmo valor da palavra de
um homem. Historicamente elas foram negadas disso e de tantas
coisas mais. O machismo patriarcal capitalista as joga para
espaços de domínio masculino e exige a mesma condição, como se
elas tivessem nas mesmas condições. Portanto: a revolução deve
ser pensada e construída com viabilidade de participação
efetiva das mulheres para que possam, elas também, negar e
desconstruir todas as formas de opressão e negação a que foram
submetidas.
Isaura Conte
(MMC,
outubro de 2007) |
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