|
17/08/2007
Quatro frases que
fazem crescer o nariz do Pinóquio
Escrito por Eduardo Galeano*
1. Somos todos culpáveis pela
ruína do planeta
A
saúde do mundo está um asco. 'Somos todos responsáveis',
clamam a vozes de alarme universal, e esta generalização
absolve: se todos nós somos responsáveis, ninguém o é. Tais
como coelhos, reproduzem-se os novos tecnocratas do meio
ambiente. É a taxa de natalidade mais alta do mundo: os
peritos geram peritos e mais peritos, que se ocupam em
envolver o tema no papel celofane da ambigüidade.
Eles
fabricam a brumosa linguagem das exortações ao 'sacrifício de
todos' nas declarações dos governos e nos solenes acordos
internacionais que ninguém cumpre. Estas cataratas de palavras
– inundação que ameaçam converter-se numa catástrofe ecológica
comparável ao buraco na camada de ozônio – não se desencadeiam
gratuitamente. A linguagem oficial afoga a realidade para
conceder impunidade à sociedade de consumo, a qual é imposta
como modelo em nome do desenvolvimento e das grandes empresas
que lhes extraem o sumo.
Mas
as estatísticas confessam. Os dados ocultos debaixo do
palavrório revelam que 20 por cento da humanidade comete 80
por cento das agressões contra a natureza, crime a que os
assassinos chamam suicídio e é a humanidade inteira quem paga
as conseqüências da degradação da terra, da intoxicação do ar,
do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da
dilapidação dos recursos naturais não renováveis.
A
senhora Harlem Bruntland, que dirige o governo da Noruega,
comprovou recentemente que se os 7 bilhões de habitantes do
planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do
Ocidente, "fariam falta 10 planetas como o nosso para
satisfazer todas as suas necessidades". Uma experiência
impossível. Mas os governantes dos países do Sul que prometem
a entrada no Primeiro Mundo, passaporte mágico que tornará
ricos e felizes todos nós, não deveriam apenas ser processados
por roubo. Não estão apenas nos gozando, não: além disso,
esses governantes estão cometendo o delito de apologia do
crime. Porque este sistema de vida que se apresenta como
paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da
natureza, é o que nos está enfermando o corpo, envenenando a
alma e nos deixando sem mundo.
2. É verde o que se pinta de
verde
Agora
os gigantes da indústria química fazem a sua publicidade em
cor verde, e o Banco Mundial lava a sua imagem repetindo a
palavra ecologia a cada página dos seus relatórios e tingindo
de verde os seus empréstimos. "Nas condições dos nossos
empréstimos há normais ambientais estritas", esclarece o
presidente do supremo banco do mundo.
Somos
todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a
liberdade de contaminação. Quando o Parlamento do Uruguai
aprovou uma tímida lei de defesa do meio ambiente, as empresas
que lançam veneno para o ar e apodrecem as águas sacaram
subitamente a sua recém comprada máscara verde e gritaram a
sua verdade em termos que poderiam ser assim resumidos: "os
defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a
sabotar o desenvolvimento econômico e a espantar o
investimento estrangeiro".
O
Banco Mundial, em contrapartida, é o principal promotor da
riqueza, do desenvolvimento e do investimento estrangeiro.
Talvez por reunir tantas virtudes, o Banco manejará, junto à
ONU, o recém criado Fundo para o Meio Ambiente Mundial. Este
imposto sobre a má consciência disporá de pouco dinheiro, 100
vezes menos do que haviam pedido os ecologistas, para
financiar projetos que não destruam a natureza.
Intenção inquestionável, conclusão inevitável: se esses
projetos requerem um fundo especial, o Banco Mundial está a
admitir, de fato, que todos os seus demais projetos fazem um
fraco favor ao meio ambiente. O Banco se chama Mundial, assim
como o Fundo Monetário se chama Internacional, mas estes
irmãos gêmeos vivem, cobram e decidem em Washington. Quem
paga, manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato
onde come.
Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o
Banco Mundial governa nossos países cativos que a título de
serviço da dívida pagam aos seus credores externos 250 mil
dólares por minuto, e lhes impõe a sua política econômica em
função do dinheiro que concede e promete.
A
divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada
vez pior, permite estufar de quinquilharias as grandes cidades
do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os
campos se esgotam, apodrecem as águas que os alimentam e uma
crosta seca cobre desertos que antes foram florestas.
3. Entre o capital e o
trabalho, a ecologia é neutra
Pode-se dizer tudo de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o
bom Al sempre enviava flores aos velórios das suas vítimas. As
empresas gigantes da indústria química, petrolífera e
automobilística pagaram boa parte das despesas da Eco 92, a
conferência internacional que no Rio de Janeiro se ocupou da
agonia do planeta.
E
essa conferência, chamada Cimeira da Terra, não condenou as
transnacionais que produzem poluição e dela vivem, e nem
sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de
comércio que torna possível a venda de veneno. No grande baile
de máscaras do fim do milênio, até a indústria química
veste-se de verde.
A
angústia ecológica perturba o sono dos maiores laboratórios do
mundo, que para ajudar a natureza estão inventando novos
cultivos biotecnológicos. Mas estes desvelos científicos não
se propõem encontrar plantas mais resistentes às pragas sem
ajuda química, procuram sim novas plantas capazes de resistir
aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos laboratórios
produzem. Das 10 maiores empresas de sementes do mundo, seis
fabricam pesticidas (Sandoz, Ciba-Geigy, Dekalb, Pfiezer,
Upjohn, Shell, ICI). A indústria química não tem tendências
masoquistas.
A
recuperação do planeta ou o que nos resta dele implica a
denúncia da impunidade do dinheiro e a liberdade humana. A
ecologia neutral, que se parece antes com a jardinagem, faz-se
cúmplice da injustiça de um mundo onde a comida sã, a água
limpa, o ar puro e o silêncio não sã direitos de todos e sim
privilégios dos poucos que podem pagá-los.
Chico
Mendes, operário da borracha, caiu assassinado em fins de
1988, na Amazônia brasileira, por crer naquilo que acreditava:
que a militância ecológica não pode ser divorciada da luta
social. Chico acreditava que a floresta amazônica não poderá
ser salva enquanto não se fizer a reforma agrária no Brasil.
Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram
que mais de 100 trabalhadores rurais morrem assassinados a
cada ano na luta pela terra, e calcularam que quatro milhões
de camponeses sem trabalho vão para as cidades abandonando as
plantações do interior.
Adaptando os números de cada país, a declaração dos bispos
retrata toda a América Latina. As grandes cidades
latino-americanas, inchadas até arrebentar pela invasão
incessante de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica:
uma catástrofe que não se pode entender nem mudar dentro dos
limites da ecologia, surda perante o clamor social e cega
perante o compromisso político.
4. A natureza está fora de
nós
Nos
seus 10 mandamentos, Deus esqueceu de mencionar a natureza.
Dentre as ordens que nos enviou do monte Sinai, o Senhor teria
podido acrescentar, por exemplo: "Honrarás a natureza da qual
fazes parte". Mas isso não lhe ocorreu.
Há
cinco séculos, quando a América foi apresada pelo mercado
mundial, a civilização invasora confundiu a ecologia com a
idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia
castigo. Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades
que usavam cascas para se vestir jamais descascavam o tronco
inteiro, para não aniquilar a árvore, e os índios sedentários
plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para
não cansar a terra.
A
civilização que vinha impor as devastadoras monoculturas de
exportação não podia entender as culturas integradas na
natureza, e confundiu-as com a vocação demoníaca ou a
ignorância. Para a civilização que se diz ser ocidental e
cristã, a natureza era uma besta feroz que era preciso domar e
castigar a fim de que funcionasse como uma máquina, posta ao
nosso serviço desde sempre e para sempre.
A
natureza, que era eterna, devia-nos escravatura. Muito
recentemente soubemos que a natureza se cansa, como nós, seus
filhos, e soubemos que, como nós, pode morrer assassinada. Já
não se fala em submeter a natureza, agora até os seus verdugos
dizem que há que protegê-la. Mas tanto num como noutro caso,
natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós.
A
civilização que confunde os relógios com o tempo, o
crescimento com o desenvolvimento e o grandote com a grandeza,
também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo,
labirinto sem centro, dedica-se a romper o seu próprio céu.
*Eduardo Galeano,
escritor uruguaio,
é
autor de “As veias aberta da América Latina”, entre outros
livros.
Publicado
originalmente em
http://www.resumenlatinoamericano.org |