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17/08/2007
O ser humano e a
Terra. Uma relação insustentável.
Entrevista especial com José Marengo
A
forma com que temos tratado a Terra tem sido insustentável
ambientalmente. A IHU On-Line entrevistou, por
e-mail, o professor José Marengo. “Eventos extremos e
intensos, como as ondas de calor na Europa de 2003 e,
atualmente, a seca da Amazônia, a seca na Europa, os
incêndios florestais, os furacões Katrina e Catarina são
amostras do que poderia acontecer num clima futuro mais
quente”, afirma Marengo, na entrevista a seguir.
José
Antonio Marengo Orsini
é graduado em Física e Meteorologia pela Universidade Nacional
Agrária, no Peru, onde também realizou o mestrado em
Engenharia de Recursos de Água e Terra. Na University of
Wisconsin, nos Estados Unidos, realizou doutorado em
meteorologia. Possui pós-doutorado pela NASA e pela Florida
State University, nos Estados Unidos. É pesquisador do
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe e um dos
cientistas do Grupo de Trabalho, que redigiu os quatro
relatórios do IPCC. É autor de Mudanças climáticas globais
e seus efeitos sobre a biodiversidade: caracterização do clima
atual e definição das alterações climáticas para o território
brasileiro ao longo do século XXI (Brasília: Ed. Brasília,
2006). Confira a
entrevista.
IHU On-Line - Al Gore, com "Uma
verdade inconveniente", conseguiu influenciar os meios de
comunicação e a população. Qual é o tempo de influência que
esse documento pode ter?
José Marengo -
Documentos impressos sobre aquecimento global estão aparecendo
regularmente no meio científico, em revistas científicas
altamente relevantes, como Science e Nature. Mas
o melhor seriam os três relatórios do IPCC AR4 liberados este
ano, que apresentam o estado das análises climáticas do
presente e projeções de clima do futuro. O filme de Al Gore
baseia-se em evidências científicas até certo ponto.
IHU On-Line – O documentário foi
importante para a divulgação dos problemas que causam o
aquecimento global?
José Marengo -
É um filme interessante, bastante didático e tem mostrado o
tema das mudanças de clima e aquecimento global para
audiências leigas de uma maneira clara e detalhada, mesmo
que muito do seu sucesso tenha se dado em razão dos efeitos e
das animações apresentados. De qualquer modo, embora também "Uma
verdade inconveniente" tenha seja baseado 100% no contexto
da realidade estadunidense, ele tem o mérito de ter levado o
assunto das mudanças de clima até as audiências mundiais, com
um moderado grau de impacto.
IHU On-Line - O aquecimento
global foi a pauta do ano. A opinião pública está dando o
devido valor a este problema? Por quê?
José Marengo -
Sim, porque as evidências sobre aquecimento global já podem
ser percebidas pela população e pelos meios de comunicação.
Eventos extremos e intensos, como as ondas de calor na
Europa de 2003 e, atualmente, a seca da Amazônia, a seca
na Europa, os incêndios florestais, os furacões Katrina e
Catarina, são amostras do que poderia acontecer num clima
futuro mais quente. Além disso, a liberação do relatório do
IPCC AR4 (Quarto relatório Científico) tem levado o assunto
das mudanças climáticas a todos os níveis, desde a escola
básica até as altas esferas do Governo Federal.
IHU On-Line - Recentemente um
estudioso desta área afirmou que a iniciativa do IPCC
tem "falhas graves”. No entanto, foi através do relatório que
o mundo teve certeza das condições do clima do planeta. Como o
grupo formulador do IPCC tem reagido às críticas?
José Marengo -
Eu não conheço este senhor e não concordo com as colocações
dele. O IPCC não é uma ONG, nem uma universidade, nem um
instituto, mas é um grupo de cerca de três mil cientistas de
todo o mundo, que a cada quatro anos são convocados pela
Organização Mundial de Meteorologia e pelo Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente, para poderem avaliar o estado da
arte do clima atual, apresentar e avaliar evidências de
projeções de clima futuro e para antecipar os impactos desta
mudança, assim como identificar vulnerabilidades, com o
intuito de propor medidas de adaptação e estratégias de
mitigação. O IPCC não é um ente político nem propõe linhas ou
planos de pesquisa; os cientistas que o compõem avaliam os
estudos já publicados. O IPCC foi formado em 1988 e não possui
interferências dos meios de comunicação ou dos políticos. É
possível que alguns cientistas tentem levar aspectos políticos
aos trabalhos do IPCC, mas o painel é basicamente
científico.
IHU On-Line - O que as altas
concentrações de gás carbônico e metano e a mudança do regime
de precipitação já tem influenciado no cotidiano do homem?
José Marengo -
O aumento na concentração de gases de efeito estufa (entre
eles CO2 e metano) pode ajudar a aquecer o planeta e, como
conseqüência do aquecimento global, temos uma aceleração do
ciclo hidrológico, o que pode afetar o regime de chuva, na
forma de chuvas intensas e esporádicas seguidas de períodos
secos ou veranicos mais freqüentes também. Isto tem sido
observado em regiões como Sudeste, Centro-Oeste e Sul do
Brasil, onde tem se observado, de 1951 até 2002, um aumento na
freqüência de eventos extremos de chuva. As projeções dos
modelos climáticos para os cenários do aquecimento global
mostram que, de fato, eventos mais extremos de chuva podem ser
mais freqüentes até finais do século XXI. Isto
certamente pode afetar a população, pois pode gerar mais
enchentes nas cidades (onde, muitas vezes, as galerias
pluviais foram subdimensionadas e até podem estar cheias de
lixo), devido ao fato de que o excesso de água não pode ser
eliminado pelo sistema atual de drenagem. Isto também afeta a
população que mora perto de córregos e morros desmatados,
favorecendo avalanches que podem soterrar casas e pessoas.
IHU On-Line - O senhor diz que
ainda há muita falta de informação, principalmente entre os
segmentos sociais capazes de implantar mudanças mais efetivas.
O que políticos, técnicos e autoridades devem fazer
imediatamente para que as conseqüências do aquecimento global
possam ser diminuídas ao longo dos anos?
José Marengo -
Falta convencer os setores chaves (governos municipal,
estadual e federal). Eu posso afirmar que neste ano,
após os relatórios do IPCC, a população está mais ciente do
problema e os governos já estão tomando ações para poder
reduzir as emissões de gases de efeito estufa pela indústria
e, certamente, para reduzir o desmatamento ao mínimo. Além
disso, medidas de mitigação, como projetos de mecanismo de
desenvolvimento limpo, estão sendo implantadas no Brasil,
para, por exemplo, florestas serem plantadas, o que, de fato,
pode tirar CO2 acumulado na atmosfera por muitos anos. Isso
não vai reduzir as temperaturas, mas pelo menos pode reduzir a
taxa de aquecimento, a fim de que, com isso, sejam atenuados
os impactos e haja redução do grau de vulnerabilidade das
comunidades humanas, dos setores econômicos e da
biodiversidade às mudanças de clima.
IHU On-Line - Qual é a relação
que o senhor faz entre clima e saúde?
José Marengo -
O clima é uma variável chave na saúde e, certamente, pode
piorar a situação se os governos não cuidarem desse setor. Sem
investimentos, vacinas, cuidados com a água e cuidado com os
mais vulneráveis (idosos, crianças, doentes), o clima pode
piorar uma situação social atualmente já complicada. Em climas
mais quentes e úmidos, doenças com vetores (mosquito), como a
dengue e a malária, podem se espalhar em áreas onde atualmente
não existem. Climas mais quentes e secos podem ter condições
que favoreçam incêndios e queimadas, e a população poderia
ficar mais exposta a doenças respiratórias. Problemas com a
qualidade de água e leptospirose (produzida pelos ratos) podem
gerar doenças no estômago, como a cólera.
IHU On-Line - Levar água ao
semi-árido é, hoje, uma necessidade. Há diversos projetos que
prevêem sanar com esse problema. Assim, gostaria de saber qual
sua opinião sobre a transposição do Rio São Francisco e a
construção das usinas hidrelétricas do Rio Madeira?
José Marengo -
Em minha opinião, os estudos de impacto ambiental para a
transposição do Rio São Francisco não consideraram a variável
mudança de clima e isso poderia gerar graves problemas de
gerenciamento de água. O semi-árido tem um clima seco e
quente com uma alta taxa de evaporação. Se no futuro os
modelos mostram que o clima na região Nordeste poderia virar
mais seco e quente, com uma taxa de evaporação ainda maior,
típica de um deserto, muita água que sai do rio poderia
evaporar rapidamente nos canais abertos e açudes, com grandes
perdas de volume dela no caminho antes de chegar ao destino
final. Além disso, a água terá que ser bombeada para níveis
mais elevados em alguns trechos do projeto. Isso, geralmente,
seria feito pelos geradores elétricos que usam gasolina ou
querosene, o que aumentaria a emissão de gases de efeito
estuda.
No Madeira o problema é outro:
as turbinas poderiam ficar cheias de sedimentos, o impacto
para a fauna pode ser grave e, perto de cidades como Porto
Velho, a ocorrência de malária pode aumentar, pois a água
parada no reservatório, num clima mais quente, apresentaria
condições ótimas para esta doença.
IHU On-Line – Qual é a
alternativa para que o poder e os interesses econômicos não
prevaleçam sobre as questões ambientais?
José Marengo -
Difícil de saber. Precisamos reduzir o desmatamento e aumentar
a agricultura de soja e cana-de-açúcar, os empregos e geração
de renda, tão necessários para o crescimento do país. O PAC
- Programa de Aceleração do Crescimento - não considera
esta mudança de clima, pois seus objetivos são de curto prazo.
A mudança de clima está numa escala de mais longo prazo.
Não podemos ser 100% conservadores, mas também não podemos
assumir um papel de 100% objetivos economicamente. Temos que
ter uma harmonia, chegar a um equilíbrio, que basicamente
representa o desenvolvimento sustentável.
IHU On-Line - Qual é a
importância dos biocombustíveis para a manutenção do meio
ambiente do planeta e a contenção do aquecimento global?
José Marengo -
Os biocombustíveis poderiam representar uma fonte alternativa
de energia, e, por exemplo, o etanol reduz a emissão de C02 em
até 30% em relação ao que petróleo gera. Precisamos pensar em
formas de reduzir as emissões de CO2 e o uso de etanol e gás
nos veículos. Também temos que considerar outras fontes de
energia mais limpa, como a energia solar e a eólica, assim
como o metano gerado nos aterros sanitários. Porém, precisamos
também ter a consciência de que, com as intenções de ter mais
etanol, podemos involuntariamente afetar a vegetação nativa do
Brasil (floresta Amazônica, Mata Atlântica cerrado) e as
possíveis vantagens de etanol possam ser eliminadas com a
mudança de vegetação da mata ou Amazônia para campos de cana. |
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