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17/01/2008
Margens opostas
O saldo
do gesto de frei Luiz Cappio institui um abismo moral entre
companheiros que até ontem bebiam da mesma água
Roberto Malvezzi
O
saldo do gesto de frei Luiz Cappio demarca as margens e
estabelece um abismo moral entre companheiros que até ontem
bebiam da mesma água. O rio que nos separa é mais profundo que
o São Francisco. O que está em jogo é o futuro deste país, do
próprio planeta, da própria humanidade.
Durante o longo "jejum e oração", principalmente diante da
iminência de um desfecho trágico, o governo aceitou mais uma
conversa com os opositores do projeto de transposição do rio
São Francisco.
Na
sede da CNBB, diante de nossas oito propostas alternativas à
transposição, o governo reconheceu que seis delas poderiam ser
consideradas, particularmente as políticas públicas contidas
no "Atlas Nordeste" e a implementação de tecnologias de
captação de água de chuva em projetos de convivência com o
semi-árido. Porém, o governo jamais aceitou rever o projeto da
transposição.
Será
que o caminho do governo está mesmo "livre" para prosseguir
com o projeto após a decisão do STF de liberar as obras? Uma
obra de longo prazo, que envolve bilhões de reais durante
sucessivos governos, nunca está garantida antes de sua
conclusão.
Há
detalhes que escapam ao povo brasileiro. Basta citar um, o
"detalhe Castanhão". Essa grande barragem do Ceará, construída
para receber as águas do São Francisco, tem capacidade para
armazenar 7 bilhões de metros cúbicos de água. Dali, ela será
levada para a Grande Fortaleza, particularmente ao porto de
Pecém, onde se instalará um complexo industrial demandante de
água. Sem o Castanhão, praticamente não existe transposição
para o Ceará.
Pois
bem, a parede da barragem do Castanhão foi construída sobre
uma falha geológica, sujeita a abalos sísmicos ("A Face Oculta
do Castanhão", Cássio Borges, 1999).
Os
técnicos defensores da obra sempre disseram que esse risco
jamais existiria. Porém, dias atrás, a terra tremeu na região,
causando rachaduras nas paredes, apavorando a população a
jusante da barragem. Alguns técnicos garantiram que sua
estrutura não está comprometida.
Mas
quem garante que não ocorrerão novos abalos, mais fortes que
esses, pondo em risco a estrutura da obra e toda a população a
jusante?
A
preocupação fundamental demonstrada pelo governo foi "não
fazer concessões ao bispo", como demonstração de "autoridade".
Muitas vezes, a expressão corrente foi que "ceder liquidaria o
Estado". Ou: "Agora é o São Francisco, depois podem querer
barrar usinas no rio Madeira".
Portanto, o governo sabe que o gesto de frei Luiz aponta não
só contra o governo e seu PAC mas também contra o modelo de
desenvolvimento que está sendo imposto sobre a natureza, as
pessoas e as comunidades mais pobres do país.
Os
movimentos sociais somente reivindicam que o governo cumpra o
que está proposto no "Atlas Nordeste", que é o principal
estudo realizado até hoje sobre a demanda humana de água na
região Nordeste. Foi elaborado pela ANA (Agência Nacional de
Águas), um organismo de Estado (www.ana.gov.br).
Os
técnicos da ANA sempre demarcam a distinção com a transposição
afirmando que "esta tem finalidade econômica, enquanto o atlas
tem finalidade de abastecimento humano". Aqui está a razão
maior de nossa divergência com o governo: na ótica dos
direitos humanos, dos princípios de Dublin, que norteiam o
manejo da água no mundo contemporâneo, na ótica cristã, na Lei
Brasileira de Recursos Hídricos, a prioridade no uso da água é
saciar a sede humana e dessedentar os animais.
As
propostas do "Atlas Nordeste" alcançam 34 milhões de
nordestinos no meio urbano, em nove Estados e 1.356
municípios. Somados aos 10 milhões que poderíamos alcançar com
a captação de água de chuva no meio rural, ofereceríamos
segurança hídrica para 44 milhões de pessoas. Portanto, sua
abrangência humana é quase quatro vezes a da transposição.
Não
temos medo de discutir o uso econômico da água. Mas esse
debate precisa ser feito com profundidade, principalmente numa
região em que apenas 5% do solo é irrigável e só temos água
para irrigar 2% dele.
Em um
momento histórico de diminuição da disponibilidade de água e
solos férteis em todo o planeta, queremos apenas que o governo
tenha critérios claros para o uso de bens tão escassos e
preciosos.
Na
hora certa, retomaremos nossa luta. Como os peixes de
piracema, que nadam contra a corrente reproduzindo a vida. Os
que se deixam levar pelas águas não se reproduzem, não
contribuem com as gerações futuras. São devorados pelos
homens.
Roberto Malvezzi,
54, filósofo, é assessor da Comissão Pastoral da Terra
e
autor de "Semi-árido: uma Visão Holística".
FONTE: Folha de São Paulo, 15 de janeiro de 2008. |