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15/06/2007
Entrevista com o
geógrafo Paulo Scarin sobre a ocupação ilegal de terras no
Espírito Santo
A Aracruz ainda
acha que pode continuar passando
o trator por cima das paisagens e das pessoas'
Terras ocupadas ilegalmente
têm que ser devolvidas
("Depois de a última árvore sem frutos, o último rio envenenado,
o homem
perceberá que dinheiro não se come".
Gustavo de
Assis)
A
desterritorialização das comunidades quilombolas, indígenas e de
pequenos camponeses no Espírito Santo tem sido tema de estudos
do professor Paulo Scarin. O geógrafo, que recentemente concluiu
sua tese de doutorado sobre o tema na Universidade Federal
Fluminense (UFF), sustenta que o processo de expropiação dessas
terras, por parte das empresas transnacionais, começou na década
de 60, durante a ditadura militar. O paulista de Presidente
Prudente (600 km de São Paulo) acredita que a redemocratização e
o processo de globalização deram uma nova roupagem a esse
modelo, com a criação de ONGs ambientais e empresariais, a
adoção de um discurso ecologicamente 'correto' pautado no
desenvolvimento sustentável e na responsabilidade social que
consegue dar uma resposta rápida e convincente a grande parte da
sociedade e garantir a manutenção dos interesses do capital
internacional.
O
professor Scarin, há três anos na Universidade Federal do
Espírito Santo (Ufes), também é um dos responsáveis de ter
levado a discussão da Geografia Agrária para dentro da
universidade. Hoje ele coordena uma série de projetos de
pesquisas que estão sendo desenvolvidos para tentar entender
melhor essa lógica de dominação que se estende por quase 50 anos
e que mantém refém as comunidades tradicionais que heroicamente
lutam para recuperar as terras que lhes pertencem por direito.
Nesta
entrevista o leitor vai poder entender como se deu esse processo
histórico de ocupação ilegal no Espírito Santo, quais são as
análises do cenário atual e as perspectivas de reverter essa
situação que hoje resulta em conflitos violentos pelo campo.
Século Diário: Como o senhor
iniciou sua trajetória acadêmica no Espírito Santo e como está
sendo a experiência de levar essa discussão para a universidade?
Paulo Scarin:
Estou há oito anos no Espírito Santo e há três anos na Ufes.
Entretanto, eu já acompanhava essas discussões anteriormente.
Antes de entrar na Ufes eu já atuava como pesquisador, diretor
da Associação de Geógrafos do Espírito Santo. Eu já dava apoio,
assessoria, desenvolvia relatórios sobre uma série de questões
que envolviam os conflitos agrários. Nesse primeiro momento,
demos início a uma linha de pesquisa, que é a Geografia Agrária.
Havia uma demanda da sociedade e de estudantes em torno de
estudos que abordassem a reforma agrária, a questão ambiental, a
questão dos impactos dos usos dos recursos naturais.
SD: A Ufes já possuía um histórico
sobre esses estudos ou o senhor teve que partir do zero?
PS: No caso da Geografia,
nessa linha de trabalho, a partir dos conflitos, dos atos dos
movimentos sociais, das manifestações, enfim, relacionadas a
essas questões havia pouca coisa. Iniciamos então uma nova linha
de pesquisa. Ao mesmo tempo, o Incra (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária) nos convidou para participar de
uma série de estudos sobre a regularização dos territórios
quilombolas no Espírito Santo. Isso foi exatamente há três anos,
momento em que eu estava entrando na Ufes, e o Incra nos
convidou para elaborar esses relatórios.
SD: Qual era o teor desses
relatórios?
PS: Há um decreto-lei que
indica quais são os elementos, as especificações necessárias
para identificação dessas terras. Nós então fomos coordenando as
equipes. Foi estabelecido um convênio entre o Incra e as
organizações da sociedade civil e nós da Ufes ficamos com a
parte metodológica desse projeto. Paralelamente, comecei a
acompanhar um projeto chamado Pronera (Programa Nacional de
Educação para a Reforma Agrária) nos assentamentos do Estado,
com 40 turmas e cerca de 400 educandos em mais de 20 municípios.
Ao mesmo tempo, juntamente com os alunos, demos início ao
Projeto Quilombo Ciências Sociais, História e Geografia, que
agora tem também a participação do Direito. São vários projetos
que interligam as diferentes áreas do conhecimento na
universidade.
SD: Quer dizer então que esses
projetos envolvem professores e alunos de vários departamentos
da universidade?
PS: Exatamente. Esses
projetos têm a proposta de funcionarem integrados. Estamos ainda
tentando efetivar outros projetos. Nós, por exemplo, estamos, a
convite do Ministério Agrário acompanhando o Projeto de
Desenvolvimento Territorial Agrário do Espírito Santo. Esse
projeto divide o Estado em diversas áreas agrárias...
SD: Essa divisão territorial foi
proposta por quem?
PS: Pelo Conselho Estadual
de Desenvolvimento Local Sustentável. O governo Lula coloca esse
novo conceito para fins da sua política de infra-estrutura da
agricultura familiar. Anteriormente, essa divisão obedecia os
limites dos municípios. Nessa nova proposta, agrega-se vários
municípios. Esses municípios elegem um conselho que vai definir
as prioridades com relação aos investimentos dos recursos que
deverão atender a vários localidades.
SD: E o senhor considera essa
proposta mais eficaz?
PS: Há várias questões a
considerar. Embora a proposta se baseie num conceito
tradicional, que é o sistema de divisão territorial, na prática
tudo ainda é muito recente. A proposta fala em território, mas,
muitas vezes, não pelo conceito físico, e sim de forma
metafórica. E também existem outras políticas, outras esferas,
nem sempre as esferas municipal e estadual seguem o mesmo
conceito. Por exemplo, enquanto o governo federal vem com essa
política do Pronaf, que é o programa nacional para
desenvolvimento da agricultura familiar, o governo estadual
criou um outro Pronaf capixaba, que segue aquela linha anterior
de divisão dos municípios. Então se percebe que não há muita
coerência de uma para outra esfera política. Existe também uma
série de dificuldades com relação à sua implementação, a questão
da burocracia etc.
Nós também temos um grupo acompanhando a agroecologia, a
agricultura familiar, economia solidária, os fóruns regionais.
Participamos também de uma pesquisa com vários institutos
brasileiros, coordenada pela Universidade Rural do Rio de
Janeiro. Esse estudo está sendo desenvolvido em sete estados,
inclusive o Espírito Santo, e aborda essa política territorial.
Há um outro estudo sobre agricultura latifundiária, terras
devolutas (são aquelas que pertencem ao Estado sem que tenham
qualquer uso público). Nós, inclusive, estamos junto com o Incra
regularizando as pequenas propriedades e as terras devolutas,
porque aqui há muitas áreas nessa situação e percebemos que
ainda faltam informações, esclarecimentos sobre essas questões.
SD: Parece que é preciso ainda
sistematizar muitos dados. É isso mesmo, o Espírito Santo é
carente dessas informações técnicas?
PS: De fato faltam muitas
informações. Nós estamos tentando organizar esses dados a partir
desses vários estudos que estão em andamento. Faltam
informações, por exemplo, sobre a agricultura familiar. Não
temos informações estruturadas, mapeadas, com pesquisa no
Estado. A idéia é construir um grande banco de dados sobre o
espaço agrário do Espírito Santo, seus conflitos, a produção,
enfim, queremos fazer uma análise geográfica sobre isso. Todos
esses projetos estão empenhados nesse sentido.
SD: Conforme o senhor explicou,
esses estudos são recentes no Estado. Como os estudantes estão
recebendo esse novo momento, em que se abrem novas perspectivas
de pesquisa que contribuem para a ampliação das possibilidades
profissionais e acadêmicas dentro das universidades?
PS: Todos esses projetos
têm como objetivo formar estudantes, pesquisadores, cidadãos a
partir dessas realidades. Nesses trabalhos os estudantes têm
oportunidade de vivenciar essas experiências por meio de bolsas
de pesquisa, bolsa de extensão. O Projeto Quilombo, por exemplo,
contrata estudantes de diversas áreas do conhecimento. Cada
equipe, entre coordenadores e estudantes, tem quase 50 pessoas.
O Pronera, que também segue o mesmo esquema, oferece
oportunidade para um grande número de estudantes.
SD: Quem está financiando todos
esses projetos?
PS:
Primeiro é preciso lembrar que sem recurso não se faz pesquisa.
E a universidade não tem verba para pesquisa. Então, para
viabilizar esses projetos estamos buscando parcerias. A demanda
para pesquisa, seja de alunos ou da própria sociedade, existe. É
preciso esclarecer que estamos buscando recursos exclusivamente
para financiar pesquisa. Esse recurso não é para complementar
salário de professor. Eu, inclusive, sou totalmente contra. Esse
recurso deve ser destinado ao pagamento de bolsa, custeio,
equipamentos. Diversos cursos hoje estão com projeto de mestrado
em andamento e a tendência é de que, em 2008, novos projetos
sejam inscritos. Por exemplo, há um projeto sobre os Indígenas
Desaldeiados, outro sobre Territórios Étnicos, Quilombos
Urbanos, Mapeamento das Comunidades Quilombolas - inclusive esse
projeto já mapeou mais de 100 comunidades quilombolas no Estado.
Enfim, são vários projetos que estão possibilitando contribuir
com essas comunidades. Como no caso da comunidade Linharinho, em
Conceição da Barra, onde foi efetivado o pedido das terras. Lá
houve todo um trabalho, que se iniciou através de uma demanda da
comunidade, que solicitou apoio técnico-científico da
universidade para o projeto. Nós elaboramos o relatório, que foi
enviado ao Incra, que depois remeteu para o Ministério Agrário,
que deu parecer favorável à comunidade.
SD: As empresas transnacionais,
por meio de uma política compensatória, oferecem recursos para
organizações sociais e instituições para financiamento de
projetos que possam diminuir o ônus social causado por uma
política de exploração danosa nessas comunidades. Como tem sido
a relação da Ufes com essas empresas? Como fica a questão ética,
moral e o compromisso estabelecido com essas comunidades que
lutam justamente contra essas mesmas empresas?
PS: Temos que considerar
várias questões. Primeiro é preciso entender que se trata de uma
universidade pública, que tem como finalidade garantir os
interesses da sociedade. Um outro ponto, que talvez seja herança
da universidade republicana, é a questão da autonomia, não no
sentido de prestar contas financeiras à sociedade, porque isso é
uma obrigação, mas no sentido de a universidade ter sobrevivido
à ditadura, eu pelo menos entendo dessa forma. Então, sempre
houve toda uma luta histórica para defender suas idéias
fundamentadas na consciência, na ética, e não a interesses
particulares. A universidade pública tem de ser transparente,
ter autonomia, liberdade, porque ela atende a interesses da
sociedade. Internamente ela tem de ser democrática no momento de
decidir suas prioridades, seja com relação à aplicação dos
recursos, na definição das pesquisas que deverão ser
desenvolvidas. Essas discussões devem acontecer internamente.
SD: No caso específico da Aracruz
Celulose, como se deu esse processo?
PS:
No caso da Aracruz realmente não estava acontecendo dessa
maneira. O processo estava acontecendo de uma forma restrita.
Nós só tomamos conhecimento do que estava acontecendo no dia da
decisão. Não houve respeito às diferenças de idéias, de opiniões
dentro da universidade. As decisões estavam sendo tomadas sem
diálogo e um grupo de professores e organizações sociais
considerou 'estranho' esse processo e se colocou contrário a
essa posição. Eu acho que essa forma de lidar com as diferenças,
com outras opiniões, com outras forças estava sendo feita de
maneira muito autoritária. A Aracruz vem da época da ditadura
militar e ela ainda está acostumada a resolver as coisas dessa
forma. A Aracruz ainda acha que pode continuar passando o trator
por cima das pessoas, por cima das paisagens, e eu acho que as
coisas não podem ser feitas assim, porque vivemos numa sociedade
de direito. E a democracia prevê que, se a Aracruz ocupou terras
ilegalmente, ela tem que, no mínimo, devolver essas terras. Se
ela quer se relacionar com a universidade pública, ela tem de
discutir com a universidade, apresentar seus argumentos. Estamos
discutindo hoje na universidade esses direitos do professor, da
comunidade universitária ter recursos para pesquisar aquilo que
é prioritário para a sociedade e não para uma empresa. Eu acho
que a universidade não é lugar para professor enriquecer, para
prestar consultoria particular. Existe muita demanda na
sociedade que vai além do interesse de sete ou oito empresas.
Existem muitos saberes, muitos conhecimentos, muitos processos
importantes acontecendo no território capixaba e nós não podemos
ficar alheios a tudo isso por causa de meia dúzia de empresas
que são detentoras de recursos. Se elas querem aplicar seus
recursos, que apliquem num fundo de pesquisa e deixem a
universidade decidir, junto com as organizações, com os
movimentos sociais, com os órgãos ligados à gestão pública quais
são as prioridades da sociedade. No caso da Geografia, em que
estudamos as transformações do espaço, eu percebo que há, a
partir dos conflitos existentes no espaço agrário capixaba, um
processo violento de tentativa de desterritorialização das
populações camponesas. Esse tem sido o tema de minhas pesquisas
e essas são algumas das conclusões que eu chego. O Estado, as
forças políticas capixabas, as universidades e as pesquisas
estiveram, o tempo todo, coerentes com esse processo hegemônico.
O Estado capixaba construiu seus conceitos para pensar o
Espírito Santo nessa relação 'estranha' entre poder público e
grandes empresas. Desde a década de 60 as políticas foram
desenvolvidas no sentido de atender aos interesses dessas forças
industrializantes. E esse processo foi e continua sendo, em
grande parte, violento. O resultado é que essas questões
aparecem hoje na forma do conflito. Se hoje nós passamos a
perceber na mídia, nas leis, nas pesquisas a emergência ou
reemergência dos interesses das questões indígenas, dos
quilombolas, da reforma agrária, da pequena agricultura agrária
ocupando terras, dos movimentos tomando órgãos públicos, fazendo
manifestações, isso muitas vezes gerando conflitos, ameaças de
morte, enfim, isso tudo é resultado dessa política violenta
criada desde a ditadura militar e que ainda não foi resolvida no
período democrático.
SD: Quer dizer que o
posicionamento, tanto dessas empresas como do Estado, ainda é
bastante retrogrado. O senhor vê perspectiva de esse cenário se
alterar?
PS: Houve um pacto, uma
certa coalizão, uma certa aceitação de algumas condições por
parte de uma elite local com o governo federal durante o período
militar que resultou na montagem dessa estrutura das grandes
empresas, a partir da década de 60, que cria um discurso sobre o
Espírito Santo como sendo um Estado atrasado, periférico, isso
baseado no PIB, na produção, nos conceitos de desenvolvimento
urbano industrial. Todos esses indicadores tentavam convencer a
opinião pública que o Espírito Santo é um local atrasado que
precisava passar urgentemente por um processo de
desenvolvimento. E a única solução apontada para alcançar esse
desenvolvimento foi a indústria. Então, desde essa época,
cria-se uma leitura do espaço capixaba que criminaliza, que
penaliza o espaço rural. E essa criminalização é transferida
justamente para as populações tradicionais: índios, quilombolas
e pequenas comunidades rurais.
SD: Essas comunidades então acabam
sendo vistas como um empecilho ao desenvolvimento?
PS: Exatamente. Desde essa
época as elites criam o mito da crise do café. Eles vão criar
uma leitura destorcida para dizer que os produtores de café
estavam passando por uma crise, e isso não é verdade. A economia
cafeeira caminhava inclusive muito bem, a crise que havia era no
gande comércio. O café não era a única fonte de renda dos
produtores e sim complemento. Os tecnocratas, ideólogos da
época, criaram uma tese de que o Espírito Santo precisa se
industrializar e para isso era necessário aproveitar as
oportunidades colocadas pelo mercado internacional, e o mercado
internacional vai dizer que o Espírito Santo precisa se
transformar numa grande área produtiva de celulose, não de
papel. Daí esse projeto se instala com incentivos fiscais e com
apoio da ditadura militar para atender uma demanda dos capitais
internacionais. E isso tudo acontece de uma maneira bastante
violenta. Então, essa leitura que o campo era lugar de atraso e
para tanto precisava se modernizar e que era necessário ocupar
todas essas áreas 'vazias', que na verdade eram florestas - mais
de 50% do Espírito Santo eram cobertos por florestas e os dados
da época confirmam isso -, vai ser a base de sustentação desse
projeto de ocupação das grandes empresas. Com esse novo cenário
que se instala, é brecado o avanço da agricultura familiar, que
estava em plena expansão, você estrangula o crescimento rural -
e até a década de 60 a população rural estava crescendo
rapidamente. Nessa época, mais de 1 milhão de habitantes estavam
nas áreas rurais enquanto as áreas urbanas respondiam apenas por
cerca de 300 mil habitantes. Enfim, se tem um bloqueio dessas
populações camponesas em benefício dessas várias monoculturas
que vão ser instaladas no Estado: a monocultura da cana, do
eucalipto, do capim, a fruticultura e depois os grandes
latifúndios. Para se ter uma idéia, até a década de 50 nós não
tínhamos propriedades aqui no Estado com área superior a 5 mil
hectares. Não havia latifúndio no Espírito Santo e nós tínhamos
um processo de desenvolvimento da agricultura familiar, dessas
frentes de colonização e muita mata nativa. Depois disso, o que
temos é um processo rápido, intenso e autoritário que afirma que
tudo que havia de agrário até então no Estado era arcaico. E
quem era considerado arcaico? Justamente a agricultura familiar,
que praticamente não usava nenhum tipo de produto químico, e se
baseava nas sementes crioulas, produzindo quase tudo que o
Estado consumia. É ela que vai ser apontada como responsável por
esse atraso econômico do Estado. Essas empresas então vão
crescer e se fortalecer a partir de uma articulação com o poder
público, ou seja, esses representantes dos interesses privados
vão ocupar cargos estratégicos, ora na administração pública,
ora nas grandes empresas, para garantir os interesses desses
grupos.
SD: E no processo mais recente,
como têm se estabelecido essas relações?
PS: Com a redemocratização,
com o processo de globalização, com a crise do Estado, essa
relação muda. Você não tem mais o Estado autoritário. De alguma
forma, a própria privatização dessas empresas (Samarco, Aracruz,
CST, Vale etc.) vai coincidir justamente com o processo de
democratização. É uma certa coincidência, mas isso nos leva a
fazer uma série de análises. Esse processo, em princípio, já faz
com que a relação entre Estado e empresas se altere. A partir do
momento em que o Estado não consegue, por ele próprio, garantir
a manutenção da relação desses grupos de interesse. Então os
grandes capitais vão passar a ter que fazer essa interlocução
com a sociedade. Mas para isso eles vão precisar primeiro mudar
seu discurso para continuar controlando a sociedade. Para isso
eles vão se valer de algumas ferramentas como a criação de ONGs
(organizações não-governamentais) empresariais e ambientais, vão
passar a assimilar novos discursos pautados no desenvolvimento
sustentável, na responsabilidade social, e vão se relacionar
agora diretamente com a sociedade a partir do financiamento de
projetos, de apoios etc. Passa a não ser mais suficiente o
financiamento de campanhas de deputados, senadores, governadores
para garantir esses interesses. Os políticos, sozinhos, não dão
mais conta de fazer a manutenção desses interesses devido à
pressão da sociedade que é cada vez maior.
SD: De acordo com essa análise que
o senhor fez, fica muito claro que esse novo discurso é bastante
eficaz e cria uma blindagem bastante poderosa para essas
empresas que passam a se acomodar confortavelmente nesse novo
contexto. Isso também nos leva a construir uma visão pessimista,
porque, dessa maneira, fica difícil imaginar uma possível
mudança de cenário, principalmente se formos depositar nossas
esperanças no poder público estadual, que parece estar pouco
interessado em reverter essa situação, não é verdade?
PS:
O que se tem claramente é uma disputa de interesses. A questão
não é simplesmente de entendimento. O que está em jogo é a base
de sustentação do agronegócio, que passa pela ocupação ilegal
dessas terras. Há muitas terras devolutas no Estado, que foram
ocupadas ilegalmente ao longo do século XX, em alguns casos
essas áreas foram legalizadas e em outros elas foram
simplesmente ocultadas pelo próprio Estado. Esse processo foi
responsável pela desterritorialização de diversas comunidades
camponesas, sejam os quilombolas, índios ou pequenos posseiros,
para atender às bases do agronegócio no Espírito Santo. Então,
quando você mexe com isso, você não está mexendo somente com a
Aracruz Celulose, mas está mexendo com interesses da
cana-de-açúcar, da pecuária, enfim, com uma série de setores
que, em grande parte dos casos, ocuparam essas terras de maneira
duvidosa. Por isso a tendência é de que as tensões e os
conflitos ganhem maior evidência. Todos esses modelos de
concentração de riquezas foram marcados pela expropriação de
terras, e se essas questões ficaram ocultadas por um longo
tempo, agora elas aparecem na forma de conflitos. Hoje, com a
crise do Estado, que até então havia garantido que essa
conjuntura político-econômica se instalasse e que permitisse ,
muitas vezes, que essa hegemonia prevalecesse e essas pessoas
pudessem fazer do Estado seus escritórios particulares, mudou.
Hoje, quem pauta, quem formula a política estadual não é mais o
governo estadual, é uma ONG empresarial que se chama Espírito
Santo em Ação, da qual participam consultores, empresários,
gestores, professores das grandes universidades, institutos de
pesquisa. São eles que elaboram a política atual de
desenvolvimento do Estado. Foram eles que elaboraram o Plano
Espírito Santo 2025, do qual o Estado se apropriou dizendo ser
esse seu plano de desenvolvimento. Aí você percebe que a
articulação passa hoje por outras redes. As empresas precisam
ficar o tempo todo convencendo a sociedade capixaba com relação
às suas benesses. Mas por que isso acontece? Se nós não somos
consumidores de celulose da Aracruz, não somos consumidores do
minério da Vale, do aço da Samarco. Os mercados consumidores
dessas empresas estão nos Estados Unidos, no Japão, na Europa.
Então por que eles precisam nos convencer se eles não estão
vendendo nada para nós? Por que eles precisam fazer o tempo todo
propagandas caríssimas, desenvolver projetos com a sociedade?
Por que eles ainda precisam gastar milhões com financiamento de
campanhas de deputados? A Aracruz, por exemplo, gastou mais de
R$ 6 milhões com o financiamento de campanhas políticas nas
eleições de 2006, mais do que ela gastou com o pagamento de
impostos no Espírito Santo no ano passado. Por que essas
empresas precisam de tudo isso? Quando começamos a desvendar
todos esses elementos é que vamos entender onde está a base de
sustentação dessas grandes empresas, que é justamente o controle
dos recursos naturais, o controle da energia, o controle da
água, da terra, e ao controlar a terra você controla a chuva a
insolação, tudo isso é energia, tudo isso é recurso. É esse o
modelo que instalou no Espírito Santo e ainda vai gerar muita
dificuldade para ser revertido. Essas empresas com certeza não
vão querer sair facilmente daqui.
SD: De fato a situação parece
estar bastante complicada...
PS: É um absurdo, por
exemplo, nós termos um grande complexo siderúrgico [Companhia
Vale do Rio Doce] como este dentro de Vitória, ou seja, isso é
mais uma herança da ditadura militar que facilitou a instalação
dessas grandes empresas no Estado. E sair dessa situação hoje é
nosso grande desafio, nosso grande obstáculo a um outro modelo
de desenvolvimento. Como nós reverteremos esse problema que
criou essa estrutura gigantesca que ocupa hoje milhares de
terras e o que faremos agora para transformar todos esses
espaços em agricultura familiar, em terras quilombolas, em
terras indígenas, que gera muito mais emprego, que produz muito
mais alimentos e assim por diante.
SD: É possível fazer uma projeção
se, no lugar da instalação das grandes empresas, tivesse sido
mantido aquele modelo de desenvolvimento que havia no Estado na
década de 50 da agricultura familiar, das pequenas propriedades
camponesas, enfim, qual seria a situação econômica do Espírito
Santo hoje sem as chamadas transnacionais?
PS: Eu conclui recentemente
um doutorado que se chama "Territorialidades em Conflito na
Construção do Espaço Agrário Capixaba - Desenvolvimento em
Questão". Nesse estudo eu justamente comparei dados da década de
40 para cá, até 2005, da pequena e grande agricultura,
agricultura familiar e empresarial, geração de emprego, renda,
produção, arrecadação de impostos, etc. E a conclusão a qual
cheguei é que é incomparável, ou seja, a produção de emprego,
geração de renda da agricultura familiar, por hectare, está
muito distante dessas grandes monoculturas. Enquanto em cada 100
hectares você emprega uma pessoa na monocultura do eucalipto, na
pequena agricultura familiar você emprega duas em cada hectare.
É uma diferença muito grande. Então, se tivéssemos seguido esse
caminho, nós estaríamos produzindo hoje o que o mundo valoriza e
paga bem: alimentos de qualidade, sem agrotóxicos, garantiríamos
a preservação de grandes complexos ambientais, teríamos água
pura, muita água e as populações tradicionais produzindo uma
série de alimentos com uma biodiversidade enorme. Com certeza,
seriamos hoje um modelo de superação das crises mundiais.
SD: Diante de toda essa análise
que o senhor acabou de fazer, se percebe que a situação presente
é bastante complexa o que gera até um certo pessimismo em
relação à possibilidade de reversão do modelo instalado. Existe
perspectiva de mudança?
PS: Apesar da
desterritorialização dessas comunidades, da imposição de um
conceito de agricultura moderna (química e mecanizada), todo
mundo na cidade, trabalho assalariado, produção industrial,
consumo em massa, concentração de renda, enfim, apesar de tudo
isso, o número de pessoas vivendo no campo ainda é o mesmo da
década de 60. É bem verdade que mudou o perfil da família, antes
se tinha dez filhos agora se tem bem menos. Eu refiz cálculos,
onde considerei que pequenos municípios que têm boa parte de sua
população no campo, como sendo rurais. Percebi que a população
que vive nesse espaço agrário é aproximadamente a mesma da
década de 60, ou seja, cerca de 1 milhão de habitantes. Esses
dados nos mostram que o Espírito Santo é muito mais rural do que
imaginamos. Existe uma diversidade muito grande nesse especo
rural que foi mantida. Então, quando emergem essas questões,
esses conflitos, também emergem os direitos. As comunidades
quilombolas, por exemplo, que já viviam nesses espaços, eram
muitas vezes chamadas com outros nomes, comunidades rurais
negras, bairros de pretos e outras denominações. Entretanto,
quando o direito passa a reconhecê-las, ele vão se reafirmando.
Por exemplo, se analisarmos os dados iremos perceber que há
muito mais indígenas no Espírito Santo do que os 17 mil que o
censo mostra. Isso porque as famílias 40 anos atrás proibiam que
os filhos se vestissem, se identificassem como índios para não
apanharem nas ruas. Entretanto, com a efetivação do direito, e a
terra é um deles, as pessoas começam a se afirmarem, isso é
política afirmativa. As pessoas passam a confiar no direito e
vão perdendo o medo e dizem: "Eu sou botucudo", ou, "Eu sou
Puris". São comunidades que as pessoas pensam que já
desapareceram, mas estão aí. Esse processo vai fazendo com que
muitas coisas no Espírito Santo que não eram visíveis passem a
ser consideradas. Muitos recursos que entram hoje no Espírito
Santo vão para a agricultura familiar, para as comunidades
quilombolas, indígenas, e isso é um avanço. Nós temos atualmente
no Espírito Santo boas experiências em agroecologia, comércio de
produtos orgânicos, venda direta a partir de feiras, comércio
justo, economia solidária, além de outras iniciativas
importantes como fóruns de debates onde esses movimentos sociais
do campo junto com os da cidade se articulam e discutem suas
propostas. Eu acredito que esse movimento diversificado,
colorido que surge dá uma outra perspectiva, abre uma nova
possibilidade para o Espírito Santo.
Texto e fotos:
José Rabelo
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