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07/11/2005
Projeto de
Agricultura e o Movimento de Mulheres Camponesas
Vanderlei Franck Thies *
O
presente texto tem o objetivo de registrar algumas idéias
discutidas com a Coordenação Nacional do MMC (Movimento de
Mulheres Camponesas), em encontro realizado nos dias 31 de
agosto e 1º de setembro 2004, em Brasília.
O
objetivo do encontro, proposto pelo MMC, foi de refletir e
avançar nas definições do Movimento sobre qual projeto de
agricultura se pretende construir, o papel do Movimento na
construção desse projeto e qual a concepção de campesinato.
Estiveram presentes 23 companheiras da Coordenação Nacional,
vindas de 14 Estados. Também contribuiu na condição de assessora
a Professora Bernardete Oliveira.
Ao
falarmos em projeto de agricultura precisamos, inicialmente,
compreender o sentido e o significado do que é projetar algo. A
idéia de projeto está fortemente associada ao estabelecimento de
planos para a mudança de algo, no nosso caso, num primeiro
momento, pretendemos a mudança da agricultura brasileira.
Obviamente não se constrói ou modifica algo partindo do nada.
Sempre partimos de uma situação concreta dada, a qual analisamos
e decidimos nos lançar, ou não, em um empreendimento para
mudá-la.
Se
pretendemos definir qual o projeto de agricultura que queremos
construir teremos que tomar alguns cuidados. A primeira tarefa a
ser cumprida é construir um diagnóstico da agricultura existente
e responder se consideramos ela adequada ou não. Se nos propomos
a construir um projeto alternativo de agricultura é por que
discordamos da agricultura que está aí. Se a resposta coletiva
for essa vamos nos dedicar a construir uma nova agricultura e
para isso teremos que tomar alguns cuidados.
O
primeiro cuidado é que temos que perceber que nós compomos uma
totalidade integrada, que é muito maior que o campo e que as
mulheres camponesas. Não conseguiremos compreender o que está
acontecendo conosco e na agricultura olhando apenas para nós,
pois somos parte de um conjunto mais amplo de seres humanos e
vivemos em sociedade. É preciso compreender o funcionamento e o
que gera as mudanças na totalidade, ou seja, no conjunto da
sociedade em que estamos inseridos.
O
segundo cuidado é que devemos ler a realidade como ela é, e não
como gostaríamos que ela fosse. Mesmo que discordemos e não
gostemos da realidade é preciso encará-la com todas as suas
contradições. Quando vamos desenhar o mapa da realidade temos
que colocar todos os rios, montanhas, precipícios, etc. pois é
ele que vamos usar para nos guiar em nossa caminhada. Quem
desenha de forma incompleta ou errada o mapa da realidade corre
o risco de, em sua caminhada, encontrar ao invés de um bosque
florido um despenhadeiro.
Todos
os mapas que desenhamos da realidade são provisórios, pois a
realidade está em permanente movimento, sempre está em
transformação e a única coisa que podemos afirmar com certeza
que sempre existirá é o movimento de transformação, de mudança
da realidade. Precisamos desenhar bem o mapa da realidade,
identificando todas as forças sociais que estão atuando na
sociedade, com seus respectivos interesses e poder, para nos
posicionarmos e participarmos de forma ativa e eficiente da
disputa dos rumos da sociedade.
Outro
aspecto importante que devemos considerar é que as mudanças
históricas substantivas no conjunto da sociedade são fruto da
ação coletiva e não de iniciativas individuais. São os grupos
sociais, na articulação e defesa de seus interesses, que
conduzem o desenvolvimento de uma sociedade em uma ou outra
perspectiva.
Vivemos
em uma sociedade capitalista, onde o capital é a força social
hegemônica, embora não a única. As principais definições e os
rumos da sociedade como um todo são decididos pelos interesses
das classes dominantes (da qual não fazem parte as mulheres
camponesas). A exploração dos trabalhadores, a busca permanente
do lucro, a transformação de tudo em mercadoria, o domínio
ideológico, a construção de um Estado que atenda suas
necessidades, são algumas das características da sociedade
dirigida pelo capital.
O
capital não é a única força social que deve constar no mapa da
realidade brasileira. No campo, por exemplo, existem diversos
Movimentos Sociais além do MMC (Movimento dos Pequenos
Agricultores, Movimento dos Atingidos por Barragens, Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, etc.) que se contrapõem ao
desenvolvimento e ao domínio do capitalismo no campo. Esses
movimentos fazem a leitura da realidade e concluem que no rumo
que o capital está levando a sociedade, especialmente o campo,
suas condições de existência e de vida tendem cada vez mais a
piorar. Por isso oferecem a sociedade um projeto alternativo de
agricultura, diferente e que nega o projeto do capital.
Portanto, no campo existe uma disputa de projetos para a
agricultura, se desenvolve uma luta entre os interesses do
capital e os interesses dos camponeses organizados, uma luta de
classes, que se materializa de forma desigual mas combinada em
todo o planeta. Falar em projeto de agricultura é falar em
projeto de sociedade e portanto em projeto de classe.
Segundo
Iasi, num primeiro momento podemos definir uma classe social de
acordo com a propriedade ou não de meios de produção, pela
posição ocupada no interior de certas relações sociais de
produção, pela consciência que se associa ou distancia de uma
posição de classe e pela ação desta classe nas lutas concretas
no interior de uma formação social.
Podemos, a partir disso, concluir que um agricultor que não
possui terra pertence a uma classe social diferente de um grande
proprietário de terra. Isso se pegarmos apenas o critério
objetivo da propriedade ou não de meios de produção. Mas a
definição de Iasi sugere outros elementos a serem considerados.
Por exemplo, esse agricultor que não possui terra, em função do
tipo de consciência que possui, pode associar-se as posições dos
latifundiários e participar da luta política em uma posição
contra a ação de agricultores que como ele não possuem terra,
mas que estão organizados em luta contra o latifúndio e pela
reforma agrária. Portanto o conceito de classe é um conceito
relacional e temos que considerar a ação e as concepções que
determinados grupos sociais representam para definirmos sua
opção de classe, ou seja, a favor e contra de qual projeto
determinada força social atua.
Isso
nos ajuda entender porque muitas camponesas, que partilham da
mesma condição objetiva de vida que nós, não estão do nosso lado
lutando e muitas vezes acabam se voltando contra a luta e
organização do MMC.
Em uma
sociedade dividida em classes sociais, as idéias mais fortes, ou
hegemônicas, tendem a ser as idéias da classe hegemônica (mais
forte). No caso de nosso tempo podemos dizer que, os valores
mais fortes na sociedade capitalista tendem a ser os valores e
as idéias que reforçam as relações sociais capitalistas, por
exemplo o individualismo, a competição, etc. Isso é uma
tendência pois em alguns locais, dependendo do desenvolvimento
da luta de classes, as idéias da classe dominante podem se
estabelecer de forma mais ou menos rápida.
Precisamos compreender que somos frutos do momento histórico que
vivemos. Fomos criados e educados dentro de uma sociedade
capitalista, portanto formados dentro de princípios, normas e
valores que interessam ao capital. Somos portadores e
reprodutores ativos das idéias que interessam a classe dominante
dentro da relação social de produção capitalista. Isso ocorre
mesmo no campo, onde em alguns espaços essas relações não se
fazem presente de forma direta.
Também
é preciso compreender que a cultura é algo que está em
permanente transformação, pois ela é expressão da realidade,
sendo a forma como simbolizamos e damos significados a essa
realidade. Não podemos idealizá-la (considerá-la desvinculada da
realidade) e nem naturalizá-la (considerá-la imutável, pronta e
acabada). Como a realidade está em permanente transformação a
cultura tende a ajustar-se aos novos padrões vividos.
Os
camponeses desenvolvem uma cultura diferenciada ou que tende a
ser diferente do operariado urbano, em função de viver em um
contexto e estabelecer relações diferentes do proletariado. Se
fossemos comparar as manifestações culturais de uma comunidade
quilombola, que estabelece pouco contato e está bastante
dissociada dos padrões de vida da sociedade atual, com uma
comunidade de agricultores que trabalham integrados a uma grande
multinacional, poderíamos provavelmente perceber que os valores,
as idéias e a cultura do capital estariam muito mais presentes
nesse segundo grupo.
Cada
vez mais o cerco do capital se fecha sobre os camponeses, seja
pela expulsão e imposição de seu padrão de exploração do
trabalho, seja pela difusão de seus padrões culturais através
dos mais diversos meios, como rádio, televisão, família, igreja,
etc.
No
relato das companheiras dos estados fica bastante evidente essa
ofensiva do capital. Do ponto de vista objetivo pela presença
cada vez mais constante do padrão capitalista de produção -
monocultura, uso intensivo de insumos químicos, trabalho
assalariado, concentração da terra, expulsão dos camponeses,
etc. Do ponto de vista subjetivo pela imposição de sua ideologia
individualista/competitiva e pela mercantilização que vem
substituindo costumes e tradições camponesas como os mutirões,
as visitas para prosear, as músicas, as danças, etc.
Mas o
campo não é só espaço da ofensiva do capital. Também é espaço de
vida e de luta dos camponeses, resistindo e enfrentando as
imposições capitalista. É nesse contexto que devemos localizar a
questão de gênero, não a desenvolvendo desvinculada da luta de
classes que se desenvolve no conjunto da sociedade.
Sobre
isso, que não é a temática central desse texto, acreditamos que
são insuficientes as lutas gerais de classe quando desprovidas
das questões de gênero, como são insuficientes as lutas de
gênero desprovidas de conteúdo de classe.
Portanto, o avanço na construção de um projeto de agricultura na
ótica feminista, depende de nossa capacidade de combinar os
conteúdos de gênero com os de classe, a luta concreta com os
processos de formação e fundamentalmente o aprimoramento da
organização do MMC a nível nacional, estadual e local.
* Membro do Setor Pedagógico da Escola Uma
Terra de Educar
FUNDEP, Ronda Alta – RS. E-mail:
vftc@ig.com.br
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