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07/01/2008
48 índios Guarani
assassinados em Mato Grosso do Sul no ano de 2007... O que
temos a ver com isso?
Cláudio, Gilson, Marcelo, Marina, Márcio, Ramona, Francisco,
César, Edson, Mário, Valdir, Lucas, Ademir... Nomes tão
conhecidos, nomes comuns… Uma listagem com 48(1)
nomes de pessoas quase anônimas, daquelas que não contam nas
estatísticas, que pesam pouco nas contagens oficiais, as que
menos importam... Nomes de Guarani-Kaiowá assassinados no ano
de 2007, pessoas que também sonhavam com dias melhores, mortos
agora, vítimas da violência cometida contra os povos indígenas
em Mato Grosso do Sul.
Nomes
são marcas que nos individualizam, que nos identificam, e por
isso é certamente mais fácil lidar com números, quando se
trata de expor a violência. A morte parece menos contundente
quando remetida ao campo da estatística. Mas os nomes falam,
sussurram histórias pessoais, lembram pessoas que conhecemos,
põem em evidência a humanidade e a materialidade das vidas que
foram roubadas. Ao lermos os casos de assassinatos noticiados
pelos jornais, esses nomes já não nos são indiferentes,
especialmente quando se descrevem as condições das mortes:
espancamentos, corpos mutilados por inúmeras facadas ou tiros,
enforcamentos, estupros seguidos de morte, uso de meios
cruéis, assassinatos praticados diante de crianças, com
participação de mulheres e adolescentes. Dados que denunciam
uma situação insustentável, e que pode ser vista como um
grande grito de socorro.
Todos
esses nomes pertencem a pessoas que compartilhavam a vida com
outras – eram filhos e filhas, pais e mães, irmãs e irmãos,
sobrinhos e netos, eram parte de uma família, de uma
comunidade, de um povo, de uma rede de relações que há muito
está ameaçada. E a ameaça não é a barbárie ou a falta de
civilidade, que muita gente insiste em atribuir aos índios,
mas sim a omissão do poder público, a situação de confinamento
em que vivem, a falta de terra, a falta de condições adequadas
para organizar e manter a vida, a falta de perspectivas, a
ausência de justiça e de direitos. A vida dos Guarani-Kaiowá
está ameaçada pelo confinamento de uma imensa população em
pequenas áreas, que por sua vez é resultado de uma insaciável
sede de produção, de lucratividade, de acumulação que nos
torna cegos para as injustiças decorrentes do modelo de
desenvolvimento que adotamos como único e inquestionável.
Os
Guarani-Kaiowá vivem um estado de exceção, parecido com aquele
experimentado em tempos de guerra ou de repressão, só que para
eles isso se tornou rotineiro e, para nós, parece não fazer
diferença. Viver em confinamento, enfrentar a escassez, a
fome, a violência, o descaso, o preconceito, a falta de
assistência, é uma rotina que torna impossível manter laços de
solidariedade, e vivenciar certas tradições, certos costumes
que regulam as relações sociais nestas comunidades.
Se a
desnutrição infantil, noticiada com destaque anteriormente no
estado do Mato Grosso do Sul, parecia abalar aquela sensação
de que vivemos num país de fartura e de democracia, as
notícias de assassinatos indígenas que agora nos chegam desse
mesmo lugar parecem não produzir o mesmo efeito. Será que
realmente acreditamos se tratar de violência interna, de
conflitos entre índios, e pensamos que nada temos a ver com
isso? Se nos conforta essa certeza, é necessário, então,
sacudirmos a poeira que recobre o que chamamos de justiça e
reconhecer que a violência que assola a vida indígena tem
causas implicadas diretamente com nossas vidas, com nosso
modelo de sociedade e com as escolhas que temos feito em
termos sociais e políticos. Temos tudo a ver com essa lista de
nomes de mortos, bem como com as incontáveis listas de pessoas
submetidas à semi-escravidão e a condições desumanas de
sobrevivência em cada canto desse país. Temos tudo a ver com
as concessões dadas a grandes empresas, com a acumulação de
terras em latifúndios, com a ampliação dos já imensos plantios
de soja, cana-de-açúcar, eucaliptos, e dos cada vez mais
amplos campos de criação de gado. E temos também tudo a ver
com os desvios de recursos e com a priorização dada a setores
financeiros, restringindo sempre mais os investimentos em
questões sociais, entre elas a demarcação das terras
indígenas. Afinal, todos nós participamos da consolidação de
certas formas de governo, consciente ou inconscientemente,
falando ou calando, e desse modo legitimamos certas
estratégias políticas e acatamos a omissão de tantos direitos
sociais.
Se as
vítimas indígenas em Mato Grosso do Sul têm nomes, os
agressores também têm! Não se trata de responsabilizar apenas
a mão que empunhou a arma, a faca, o terçado, a corda da
forca, ou que desferiu os golpes, espancando e matando a
pauladas. Trata-se de atribuir responsabilidades também, e
principalmente, ao poder público, ao Estado brasileiro e ao
Governo Federal pela negligência e pelo descaso que leva ao
não cumprimento dos direitos constitucionais dos povos
indígenas. Se a responsabilidade em demarcar terras indígenas
suficientes e adequadas – assegurando assistência e respeito
pelas culturas, crenças, tradições e estilos de vida dos
distintos povos indígenas – fosse efetivamente assumida pelo
Governo Federal, é possível que estes cruéis assassinatos não
acontecessem. Isso porque, ao assegurar o restabelecimento das
condições de vida e de dignidade desta população, seria
possível vislumbrar um futuro pelo qual vale a pena viver e
lutar. Não se trata de assegurar privilégios aos indígenas,
como muitos costumam afirmar, mas de resguardar seus direitos,
constantes nas leis brasileiras e referendados, também, em
diversos documentos, convenções e normas internacionais.
Pensar nos nomes, nos rostos, na agonia dessas tantas vítimas
do descaso e do confinamento nos causa desalento, e é
necessário levar em conta que elas tinham diferentes idades...
12, 13, 14, 15, 16 anos! Adolescentes ainda, esfaqueados,
violentados, espancados, sem possibilidades de defesa.
Adolescentes como nossos filhos, irmãos, netos, passeando,
divertindo-se ou a caminho de casa, vítimas da mesma violência
que nos apavora quando nossos familiares saem para seus
afazeres cotidianos. As vítimas, com seus nomes, histórias e
vivências, eram pessoas como nós, para quem certamente a
justiça se faz bem mais justa.
Também foram assassinados homens e mulheres Kaiowá de 18, 20,
22, 25 anos, outros de 30, 32, 36; 40, 60, 70, 107 anos! E,
diante desse amplo espectro de dor, não podemos mais escapar à
pergunta: qual a parte que nos cabe neste grande genocídio?
Talvez devêssemos nos perguntar: que tipo de mundo estamos
colaborando para construir? Quais são os valores que
cultivamos? Quem são as pessoas que contam e pelas quais nos
mobilizamos para assegurar a vida? Quais são as causas pelas
quais lutamos? O que ainda é capaz de nos indignar? E,
necessariamente devemos indagar sobre as ações daqueles que
escolhemos para nos representar e para fazer valer nossos
direitos de cidadania e para resguardar nossa condição de
homens e mulheres que, diante da lei, desfrutam dos
inalienáveis direitos à vida, à dignidade, à liberdade, à
segurança.
Devemos nos sentir responsáveis, como pessoas e como cidadãos,
pelas grandes injustiças cometidas contra aqueles que se
tornam cada vez mais vulneráveis, em especial os povos
indígenas para quem reservamos áreas cada vez menores, e de
quem a cada dia subtraímos mais e mais as condições de bem
viver. Mas, acima de tudo, devemos atribuir responsabilidade
àqueles que, ao assumir o governo, assumiram a inegável
atribuição de zelar pelo bem de todos, e de cada um.
Porto Alegre
(RS), 05 de janeiro de 2008.
Iara Tatiana
Bonin
Doutora em Educação/UFRGS
(1) Dados do
Conselho Indigenista Missionário indicam que ocorreram 76
assassinatos
de
indígenas no Brasil em 2007, sendo 48 no Mato Grosso do Sul. |
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