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06/08/2007
Estratégias para
extinguir uma comunidade rural:
o caso de Couro de Porco
1. Deixa-lhe sem estrada:
Desde a
primeira metade do séc. XX que existe aquela comunidade. Se
aquele povo quis alguma estrada que ligasse aquele arraial a
qualquer outro, isso foi feito na picareta. Foi assim quando
quiseram ligar a comunidade ao local conhecido como "Véia da
Galinha", para, daí, alcançar um pau-de-arara para chegar a
Correntina ou Posse.
Na
atual estrada, quando chove, gasta-se uma hora da BR – 349 até o
Couro.
2.
Deixa-se-lhe sem saúde:
É comum
em outras Estados e municípios programas como "médico na
família" ou coisa do gênero.
De 2005
a 2007, foi médico (odontólogo) uma única vez, no Couro de
Porco.
Água
encanada é luxo dos poucos que podem comprar uma bomba (roda
d´água), apesar de a Prefeitura já ter gastado rios de dinheiro
para tal finalidade.
Como
conseqüência, muitas famílias não têm banheiro em casa, fazendo
suas necessidades fisiológicas literalmente "no mato".
3.
Deixa-se-lhe sem teto:
No
Couro de Porco, as únicas residências com telhas são umas "caixa
de fósforos" feitas pelo governo federal, na década de 90. Como
de praxe, a empreitada não foi concluída e nenhum dos
responsáveis pelo projeto, sequer, respondeu algum tipo de
processo; as demais residências do Couro de Porco e localidades
circunvizinhas ainda são cobertas de palha de buriti, lona
plástica ou telha de amianto. O restante do material vindo para
concluir a empreitada virou material de campanha e compra de
votos em eleições passadas.
4.
Deixa-se-lhe sem terra:
Região
ocupada pelos enxotados da vida desde a primeira metade do
século XX, agora seus legítimos donos têm que brigar na justiça
para provar para Deus, o mundo e o judiciário que são eles os
verdadeiros donos e não a Planta 7 Empreendimentos.
Ora, a
legitimidade é maior que o legalismo. O homem não foi feito para
a lei, mas ao contrário. Mas, quem faz a lei nessa nação de
latifundiários? Possivelmente não são os pobres. E é contra a
lei dos ricos e os próprios ricos que famílias paupérrimas estão
lutando para não serem novamente enxotadas pela ganância
avassaladora do capital internacional, transvertido de
"empreendimento agrícola".
5.
Deixa-se-lhe sem educação:
Em
1952, quando a equipe de Donald Pierson esteve no Couro de
Porco, 100% de seus moradores eram analfabetos. As tentativas de
se arranjar um professor para lá foram muitas. A partir da
década de 80, foi disponibilizado um professor "formado" que
quase nunca ficava por lá.
Em
2002, o Ministério da Educação, baseado numa denúncia da
Associação dos pequenos agricultores de lá, forçou o prefeito a
construir uma escola na comunidade.
De lá
para cá já foram feitas duas reformas. Nenhuma foi capaz de
fazer a fossa parar de feder. A última reforma começou em março,
tempo de começar as aulas e até a presente data não foi
concluída. A comunidade nunca pode dar qualquer palpite, nem
nesse, nem em outros governos, sobre como querem as coisas.
Acredita-se que nem a Direção da escola local pode dar qualquer
palpite, haja visto que o alojamento de professores que está
inacabado tem, apenasmente, dois quartos para dormir, dois
banheiros e uma cozinha. O alojamento é como uma casa de
joão-de-barro, só tem a porta da frente. Quando os professores
estiverem morando lá, pega-se o prato de comida na cozinha e vai
sentar em cima da cama, pois não tem nenhuma sala para isso, nem
para qualquer outra atividade típica de professor, como ler,
estudar, ver filmes, guardar materiais. Tudo isso deverá ser
feito em cima da cama.
Por não
terminar a tão propalada reforma, os estudante já ficaram duas
semanas sem aulas. Dos 200 dias letivos obrigatórios, até agora
só foram dados 83. Desses, em 41 não houve merenda escolar. E
olhe que tem crianças que saem de casa às 10h30min e só chegam
de volta às 19h30min, depois de viajar 140 quilômetros num
pau-de-arara. É duro dar aulas para crianças com fome, mais duro
ainda é saber que o mesmo município que oferece carnavais,
touradas, vaquejadas e outras baboseiras opulentas para
turistas, deixa suas crianças atoladas nesse lodaçal. O álcool
utilizado no antiquado "mimeógrafo", na última semana foi
CACHAÇA, comprada num "boteco" local.
6.
Tira-se-lhe a cultura:
A
fórmula é simples e eficiente:
-
-
sataniza-se a cultura e religiosidade popular;
-
-
aplica-se-lhe uma catequese dogmática e proselitista, ou pior,
fundamentalista;
- - prostitui-se-lhe o gosto
musical e oferece-se-lhe essas latarias do tipo: "libera o tõe
que eu te dou dez conto", "na bundinha, na bundinha" e toda
sorte de "forró" desses de deixar roxo de vergonha qualquer
profissional da prostituição.
Utilizando dessas estratégias, apoiadas, e incentivadas até, por
diversos segmentos da sociedade municipal, é bem fácil que o
destino da comunidade rural de Couro de Porco (modernamente
Arrojelândia) seja realmente deixar de existir.
Correntina-BA, 04 de agosto de 2007.
Iremar Barbosa
de Araújo
Professor local
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