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04/06/2008
As raízes da
violência no campo
José de Souza
Martins*
Publicado em
O São Paulo
(Semanário da Arquidiocese de São Paulo),
Ano
53, nº 2.698, terça-feira, 20 de maio de 2008, p. A2.
“Cangaceiro”, de
Aldemir Martins
A
persistência e o agravamento da violência no campo, nos
últimos anos, alcançando até religiosos e religiosas, tem
causas que podem ser explicadas. Apesar dos religiosos e
religiosas, ameaçados ou alcançados pela violência,
pertencerem, no geral, ao extenso grupo que na Igreja se
identifica com Lula e o PT, justamente as alianças partidárias
do PT lhe tolhem a competência para resolver o problema com
firmeza e coragem. Trata-se de um governo dividido e
bifronte.
Desde
o período colonial, a história política do Brasil é demarcada
pela polarização entre o poder central e o poder local, na
época entre a Coroa e as câmaras municipais. No município, os
potentados locais, senhores de escravos e da terra, tudo
podiam. Essa estrutura política se manteve ao longo da
história brasileira, apesar de mudanças como a proclamação da
Independência e a proclamação da República. O poder central
mudou de concepção e de forma, mas o poder local que o
sustenta se manteve praticamente o mesmo, em boa parte apoiado
na posse legal ou ilegal da terra e na dominação política
pessoal, no clientelismo e no favor.
Muitos dos chamados potentados locais desde a Colônia tinham
seus exércitos privados de servos, parentes e jagunços.
Mandavam e desmandavam. Esses exércitos privados sobrevivem na
figura do pistoleiro. A Revolução de 1930, que levou Vargas ao
poder, re-centralizou o poder em nome da unidade nacional,
enquadrou as oligarquias, suprimiu-lhes a autonomia política.
Passamos a viver a sina de que para nos livrarmos do poder
local temos que abrir mão da democracia; para ter democracia
temos que nos associar a ele.
Quando, após a ditadura militar, surgiu a possibilidade de
partidos democráticos chegarem ao poder, o PSDB sabiamente fez
alianças antes de eleger Fernando Henrique Cardoso.
Escolheu o PFL, hoje DEM, partido da facção iluminista das
oligarquias. Cardoso norteou seu governo no sentido,
justamente, de fortalecer a democracia, modernizar o poder e
atenuar a influência das oligarquias nas funções do Estado. O
PT, ao contrário, imaginou que chegaria ao poder sozinho,
deixou para fazer alianças depois de eleger Lula e o
fez enfraquecido para negociar, premido pela urgência de
governar. Fez as piores alianças. Comprometeu-se profundamente
com o latifúndio e seus representantes, manietou-se ao poder
local, teve que fechar os olhos à corrupção, loteou o poder.
Entregou-o a inimigos das reformas sociais. Optou pela
caridade, optou pelo menos e não pelo necessário. Não pode ser
duro com os grupos sociais que praticam a violência, pois são
de vários modos membros e beneficiários de sua base política.
O governo Lula não pode tomar decisões de governo contra os
interesses de seus decisivos aliados. Do contrário, não
governa.
* Professor
titular de Sociologia na Faculdade de Filosofia da USP.
Dentre
outros livros é autor de O Sujeito Oculto
(Ordem e transgressão na reforma agrária), Editora da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2003;
Exclusão Social e a Nova Desigualdade, 3ª edição,
Paulus, 2007; A Sociedade Vista do Abismo (Novos
estudos sobre exclusão, pobreza e classes sociais), 2ª edição,
Vozes, 2003. |
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