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03/08/2005
Os dirigentes
se acomodaram ao conquistar o poder
Daniel
Cassol
Porto Alegre (RS)
Baiano
de Santa Maria da Vitória, Clodomir Santos de Morais, 77 anos, é
a memória viva das Ligas Camponesas. PhD em sociologia e
professor da Universidade Federal de Rondônia, ele viaja o Brasil
lançando o seu Dicionário de Reforma Agrária – América
Latina, publicado pela primeira vez na década de 1970, em
espanhol, e só agora editado em português. Nesta entrevista,
Clodomir analisa parte da trajetória das Ligas Camponesas,
critica a acomodação das classes dirigentes quando chegam ao
poder e aponta caminhos para a luta popular no Brasil.
Deputado
estadual em Pernambuco, assessor e organizador do movimento
camponês das décadas de 50 e 60, Clodomir Santos de Morais foi
exilado pelo golpe militar. Atuou em diversos processos de reforma
agrária na América Latina, como consultor das Nações Unidas.
Na sua volta ao Brasil, na década de 80, conheceu o Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), tendo dedicado grande parte
da sua produção intelectual à teoria da organização dos
movimentos sociais.
Brasil
de Fato – Como foi a sua aproximação com as Ligas Camponesas?
Clodomir
Santos de Morais – Eu
era um militante de esquerda desde 1941. Morei em São Paulo e
trabalhava como operário da Ford, na montagem de automóveis,
quando comecei minha militância. Mais ou menos na mesma época,
aos sábados e domingos, eu assistia as Ligas Camponesas no
interior de São Paulo, que eram patrocinadas pelo Partido
Comunista de [Carlos] Prestes. Quando retornei para o Nordeste,
já fui organizar as Ligas Camponesas na minha terra. A essa
altura eu estava envolvido no movimento estudantil secundarista.
BF
– Como a sociedade via as Ligas Camponesas?
Clodomir
– Variava de acordo com
o estrato social. Num primeiro momento, contamos com a oposição
total dos latifundiários, que achavam que aquilo era comunismo, e
trataram de colocar o nome de Ligas, para carimbar. Mas no
Nordeste não havia esse nome, era sociedade de agricultores e
pecuaristas.
BF
– O que seriam das Ligas, não fosse o golpe militar de 1964?
Clodomir
– As Ligas estariam
transformadas, porque já teriam uma estrutura partidária dentro
de uma organização de massa. O que sempre se buscou evitar,
porque seria uma espécie de fracionismo do PC. O PC do B quis
atrair as Ligas, mas elas prefiram continuar como uma
organização de massas, onde havia os militantes do PC de Prestes
e os militantes do PC de [João] Amazonas, e de outros partidos,
até que chegaria o dia em que criaríamos uma estrutura
partidária. E isso começou em 1964, meses antes do golpe. Com o
golpe se deu conta de que havia um partido de esquerda a mais, e
que era ligado aos camponeses. Depois, os camponeses decidiram que
não iriam morrer como passarinhos, e para isso era preciso
preparar a defesa. Aí começaram a passar por treinamento
militar.
BF
– Armar os camponeses foi apenas uma atitude de defesa?
Clodomir
– Foi uma atitude de
defesa, já que o governo de São Paulo estava distribuindo armas
aos latifundiários. Depois evoluiu para uma estrutura militar.
Evidentemente, clandestina. A estrutura política não conhecia
todos os detalhes da estrutura militar. A estrutura de massa,
muito menos. Francisco Julião [fundador das Ligas Camponesas]
não sabia como funcionava a estrutura militar.
BF
– Quais erros e acertos das Ligas servem de exemplo para os
movimentos populares de hoje?
Clodomir
– Há um livro que vai
sair no final do ano que se chama História Militar das Ligas
Camponesas. Esse livro irá mostrar o que foi certo e o que
foi errado ao longo da história da estrutura militar. Quanto à
organização de massa, essa operou de uma forma extraordinária.
Criou facilmente alianças com a classe operária e com demais
setores da população. Tinha Ligas de estudantes, de sargentos,
de oficiais, de mulheres, de pescadores, Ligas de tudo. Ligas
Camponesas era a “marca”. O abarcar de grande parte da
sociedade se dava de maneira extraordinária, e permitia cobrir os
atos de maior rebeldia.
BF
– Como organizar, hoje, a massa humana de favelados, pessoas que
perderam muitas referências?
Clodomir
– É preciso criar uma
organização de massas, e dentro dela uma estrutura política. É
a organização política que vai garantir a unidade e a
disciplina. Mas isso constitui a grande preocupação dos que
estudam a sociologia política. Que destino vai ter isso? O
sistema capitalista está em crise. Como não pode dar emprego,
dá esmola. Aí vem Fome Zero, e uma quantidade coisas que o
Estado arrecada, da burguesia ou do seu próprio orçamento, para
segurar a massa. Porque, se não segura, ela vai para a rua. E
isso é no mundo todo. Por isso o FMI e o Banco Mundial financiam
esses programas que chamam de “humanitários”.
BF
– Mas que argumentos convencem essa população?
Clodomir
– Toda organização de
massa padece de uma falta de orientação política. São muito
imediatistas. Você chega com um programa qualquer, o sujeito diz:
“Não entendi nada, mas qual é a minha parte?” É necessário
dar um passo seguinte, um meio para que as pessoas possam atuar
politicamente. Para isso, precisam passar por cursos, ou serem
jogadas na luta. Porque a luta é o que mais ensina o rumo.
BF
– Como o senhor analisa a relação do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva com os movimentos sociais?
Clodomir
– Em geral os
movimentos sociais sempre foram ligados à Igreja. E também ao
PT. Os movimentos sociais têm um papel muito importante na
conscientização das massas. A consciência vem da luta, das
decepções. A classe operária tem uma quantidade de leis que
garantem seus direitos. Num governo autocrático, a diferença
entre movimentos sociais e governo era visível. Agora, não. O
governo trata de aparecer beneficiando os movimentos sociais. E os
movimentos sociais, dada a ideologia dos participantes, se
resignam. O que mostra a maior parte deles é formada por pessoas
ou que não trabalham ou que não necessitam de empregos, porque
podem se arrimar aos pais, aos parentes. É uma espécie de
pequena burguesia. Quando um movimento social é formado pelos que
trabalham, ou desempregados, se vê a diferença.
BF
– Existem alternativas?
Clodomir
– Um aspecto que tem
que ser estudado seriamente são as organizações de estudantes
secundaristas. Esses não têm muita perspectiva, porque tem a
barreira do vestibular, a falta de empregos. Temos que centrar o
foco nesses estudantes, que são numerosos. E o jovem é generoso,
ele se joga à luta. Os adultos pensam antes, porque têm o que
perder. A revolução sandinista, na Nicarágua, também precisa
ser estudada seriamente, não só porque foi uma clássica
revolução do povo, como também porque ela perdeu o poder por
ter sido dirigida pela pequena burguesia. A pequena burguesia
nunca faz revolução. Tenho a impressão de que está acontecendo
no Brasil algo parecido. Se faz uma revolução pacífica, se
chega ao poder e os dirigentes se acomodam. E pode acontecer aqui
o que aconteceu com Daniel Ortega [ex-presidente da Nicarágua,
que foi integrante da Frente Sandinista de Libertação Nacional]:
vem uma eleição e bota ele para fora. Só os camponeses, os
operários, a juventude estudantil, os favelados, esses colocam a
pele em jogo.
Publicado
no Jornal Brasil de Fato
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