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03/08/2005
Agora, a
esperança tem de vencer a decepção
Dom
Pedro Casaldáliga
Um dos
maiores símbolos da resistência à ditadura, dom Pedro
Casaldáliga
renunciou às funções de bispo de São Félix do Araguaia (MT)
mas continua
acompanhando de perto a vida nacional. Ele se diz decepcionado
com o
escândalo que envolve o PT e o governo Lula.
1. O que o
senhor está achando da crise que envolve o PT e o governo?
DOM PEDRO CASALDÁLIGA:
Às vezes os políticos, os de esquerda também,
justificam os meios pelos fins. O fim, dizem, é o partido no
poder, a
serviço do povo. E com isso justificam os meios, e chegam a
cair nesses
pecados contra a ética. Não por interesses pessoais, mas por
interesses do
partido e do governo, o que não deixa de ser falta de ética.
2. O PT e o
governo cometeram esse pecado?
DOM CASALDÁLIGA: Acho
que o governo Lula, no que tem de PT, se distanciou
das autênticas demandas do povo. Ficou uma certa cúpula, uma
espécie de
vanguarda mais ou menos colegiada, mas as reivindicações do
povo, os
movimentos populares, foram vistos de longe.
3. O PT
frustrou o eleitor?
DOM CASALDÁLIGA: Amigos
me perguntam: e agora? Eu me recordo que o slogan
era: a esperança vence o medo. Agora, terá de ser: a
esperança vence a
decepção.
4. O senhor
acha que será possível vencer a decepção?
DOM CASALDÁLIGA: A
esperança sempre é uma última palavra. Não vamos parar, o
povo continua caminhando, há muita vontade, há muita utopia
ainda. Não vamos
parar na decepção, não. Tocamos para a frente, apanhando e
aprendendo. E
recordando que alianças demais acabam sendo concessões demais
e claudicações
demais.
5. O senhor
acha que o problema foi das alianças que o governo Lula fez?
DOM CASALDÁLIGA: Em
grande parte, não ao todo, mas em grande parte.
6. E as
acusações contra José Dirceu e toda a cúpula do PT ligada a
ele?
DOM CASALDÁLIGA:
É uma cúpula que se distanciou do povo e dos movimentos
populares, da base.
7. Esse foi
o problema: a cúpula se voltou para o projeto de poder do
partido?
DOM CASALDÁLIGA: E
quiseram justificar meios espúrios com um fim bom, que é
o povo. Mas o fim nem sempre justifica os meios.
8. Como o
senhor recebeu a notícia da suposta existência do mensalão?
DOM CASALDÁLIGA:
Vulgarizaram a política. Está a se exigir cada vez mais uma
reforma política que, inclusive, exija fidelidade partidária.
Existem
políticos importantes no Congresso que passaram por cinco, seis
partidos.
Assim não tem seriedade alguma, acaba sendo brincadeira.
9. E a
compra de votos?
DOM CASALDÁLIGA: É
absurda e imoral, e a negação de um trabalho partidário.
10. Isso
causa decepção?
DOM CASALDÁLIGA: Eu
não esperava milagres, mas esperava uma mudança de rumo.
Infelizmente, existe ainda um problema maior, que está sendo
deixado de
lado, que é a opção economicista feita por este governo, em
continuidade com
os outros governos. Estamos servindo ainda ao FMI e ao Banco
Mundial,
continuamos submetidos a uma política neoliberal, na alta de
juros, no
pagamento da dívida externa, e na obediência cega ao FMI.
11. A
decepção é maior pela falta de ética na política ou pelo
problema
econômico?
DOM CASALDÁLIGA: As
duas. As duas são falta de ética e as duas são a negação
dos verdadeiros interesses e necessidades do povo.
Fonte: Jornal O
Globo - 24/07/2005
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