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03/08/2005
Emparedar Lula?

Leonardo Boff - Teólogo

Luis Gonzaga de Souza Lima, brilhante cientista político da Universidade do Estado do Rio de Janeio, há anos trabalha ima hipótese interpretativa segundo a qual nosso pais seria melhor entendido historicamente, se partíssemos da constatação de que desde seus primórdios foi e continua sendo uma empresa privada internacional, das mais bem sucedidas que se tem notícia no Ocidente. Sua hipótese se funda em estudos minuciosos acerca do advento do capitalismo europeu, nas análises jurídico-instituiconais que ocorria nas repúblicas renascenistas italinas, dando especial atenção às descobertas científiicas na arte da navegação feitas em Sagres pelos reis portugueses. Mostra como lentamente a grande empresa de além-mar ia se moldando e como se conjeturava já naquele tempo o projeto-mundo. Neste conjunto de reflexões geopolíticas o Brasil ocupava um lugar central. Nada era feito ao acaso. Havia visão de longo alcance e sentido estratégico da história. As coisas começaram a dar certo e houve épocas em que a  moeda do Brasil era de longe a mais valorizada do mundo. Deixava para trás Veneza, Madrid e Londres.

O Brasil foi projetado para ser uma imensa empresa internacional privada. O que os europeus já não podiam testar na Europa pelo nivel de consciência e de direitos que as sociedades haviam alcançado, puderam fazer aqui sem a mienor cerimônia. Trataram gente como peças, dizimaram etnias, ensairam a construção de uma nova humanidade fundada no ganho e na exploração da pessoa humana, do indío, do negro, dos degredados, da mulheres e das terras.

Pelo fato de ter sido concebida como empresa privada internacional, nunca se lhe permitiu que se construisse realmente como sociedade organizada nem criar aqui  um estado que realizasse um projeto coletivo. Elites portuguesas, espanholas e inglesas artculadas com elites crioulas ocuparam o ensaio de Estado em benefício próprio mantendo entre 50-60% da população escravizada ou empobrecida.
Espírito privatista das capitanias hereditarias, do escravagismo, da posse de terras por compra em dinheiro, o assalto organizado aos bens do arremedo de Estado, confusão do público com o privado, o patrimonialismo, os compadrios, a falsificação de documento e a corrupção mais deslavada pertencem à lógica desta empresa. Cada geração lhe deu uma moldagem, mas sua estrutura de base permaneceu inalterada até os dias de hoje. Uma classe política se formou com este tipo de ethos de salteadores e de ladrões de beira de estrada. Consideram a república coisa deles. Chegando ao poder, sentem o direito de depredá-la para si. Digamos que houve excessões até para não cometermos um erro metafísico. do mal absoluto e das honrosas excessões. Mas a  tônica era o vale-tudo hegemonizado pelas cortes portugueses e seus agentes no Brasil.

Qual é o escândalo atual? Que um metalúgico, um sobrevivente da fome, assentado num vasto movimento social que se opunha sempre a esse descalabro, formado com imensos sacrifícios, rebeldias e mortandades sem conta narradas pelos historiadores José Honório Rodrigues e Capistrano de Abreu, conseguiu romper a blindagem político-institucional e ser eleito Presidente.

As classes argentárias e oligárquicas nunca o aceitaram mas tiveram que engoli-lo politicamente. Os partidos conservadores e representantes do que há de mais atrasado deste pais não tinham líderes carismáticos para enfrentar "a força da natureza" que presentava Lula. Mas no campo da economia (o que na verdade lhes interessa) revelaram toda sua habilidade. Com uma estratégia sutil, avalisada pelos organismos da ordem econômica mundial como o FMI e o Banco Mundial, conseguiram fazer manter o projeto da macroeconomia neoliberal a pretexto de evitar o caos sistêmico e de garantir a governabilidade.

Mesmo vitoriosos neste campo, não se sentem tranquilos. Suspeitam que os movimentos sociais poderão, num momento crítico, presssionar o Governo a mudar as regras do jogo econômico dando centralidade ao social. Por isso, segundo eles, há que presssionar e até emparedar Lula. Ele é um obstáculo à volta das elites  ao poder. É  empecilho ao seu enriquecimento perverso.

O lugar de operário, dizem, é na fabrica, no eito e na produção, não no governo e da gerência da coisa pública. Trata-se de uma questão de cultura de classe. O fato da corrupção que deve ser investigada e condenada ofereceu agora a ocasião que faltava para suscitar o velho sonho traiçoeiro das elites de se livrar de Lula.

Como realizá-lo? Políticos do PFL e do PSDB, geralmente rapagões, sem sentido de responsabilidade pelo pais já aventam um proceso de impeachment. A outra estratégia já foi enunciada por um dos ícones da política velhista, carcomida e corrupta, quando disse com todas as letras. "Não queremos o empeachment de Lula, querermos desmoralizá-lo, sangrá-lo e liquidá-lo para que seja envergonhado publicamente e derrotado nas eleições para desparcer para sempre do cenário político". Estou convencido de que esses políticos perderam o sentido das coisas. Agora não será mais como pensam. O povo saberá, aos milhares, defender sua conquista histórica. Botarão para correr aqueles vendilhões como Jesus o fez no templo de Jerusalém. Já escutamos nossos vizinhos gritarem: "Que se vayan, que se vayan todos". E gritaremos também.

 
 

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