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03/06/2008
A dominação
transforma o mundo em um manicômio
Entrevista com o escritor uruguaio Eduardo Galeano
Em
seu novo livro, "Espelhos: uma história quase universal", o
escritor conta 600 histórias curtas, "que recolhem uma
experiência de toda a vida, muitas leituras e muitas
perguntas". Relatos que falam dos esquecidos pela história
oficial, uma história, diz Galeano que sacrificou e mutilou o
arco-íris terrestre. Relatos de um mundo que está
enlouquecendo.
Armando G.
Tejeda - La Jornada
Madri
- Aos 63 anos, Eduardo Galeano dedica-se diariamente a tentar
resolver o maior desafio da linguagem, sabendo que isso é
“impossível”: utilizar em seus textos apenas palavras que
sejam melhores do que o silêncio.
Foi
com esse desejo de depuração do idioma que o escritor uruguaio
escreveu seu livro mais recente, Espelhos: uma história
quase universal (Editora Siglo XXI), no qual, por meio de
600 histórias breves, oferece um panorama inquietante sobre o
devir do mundo e da história da humanidade.
Em
entrevista a La Jornada, Galeano levanta a voz frente
ao “sistema mundial de dominação que está levando todos nós
para o matadouro ou para o hospício”. E critica a obstinação
do ser humano em “mutilar” o arco-íris terrestre com “o
racismo, o machismo, o elitismo e o militarismo”.
Todos
somos africanos emigrados
La
Jornada: Dá a impressão que com este livro você se
esvaziou, que colocou nele o conhecimento, as leituras e os
aprendizados acumulados ao longo de sua vida.
Galeano:
Acho que sim. A idéia era reunir em um único livro estas 600
histórias ou relatos que viajam pelo mundo e pelo tempo, sem
limites, sem fronteiras. E eles vão e vêm pelo mapa do mundo e
do tempo. E é verdade que recolhem uma experiência de toda a
vida, muitas leituras e muitas perguntas.
Sobretudo recolhe as perguntas que tenho me formulando ao
longo da minha própria vida. Desde que eu era pequenininho e
ia para a escola e a professora me dizia que o basco Núñez de
Balboa foi o primeiro homem que viu os dois oceanos, do alto
de um monte do Panamá. E eu levantava a mão e dizia:
‘Senhorita, senhorita, então os que viviam aí eram cegos’. E
ela me expulsava da aula por ser atrevido.
E as
perguntas que depois fui me fazendo que foram ficando e
esperando respostas que fossem, por sua vez, novas perguntas.
Por exemplo, esta outra, que abre o livro, quando pergunto se
Adão e Eva eram negros, porque se a viagem humana começou na
África, de lá partiram nossos avós para a conquista do planeta
e foi o Sol que repartiu todas as cores, porque somos todos
africanos e somos todos emigrados. É bom lembrar agora que
todos somos africanos emigrados, diante de tanta demonização
que se faz da emigração, como se fosse um crime.
Mas
sim, também é um livro de perguntas incômodas. Eu sempre digo
que uma boa resposta é uma fonte de novas perguntas, ou seja
que o livro está escrito por um 'perguntão', por um curioso
que quer despertar a curiosidade de quem ler.
La Jornada:
Essas 600 histórias, contadas assim, de maneira aparentemente
desconexa, é porque você também pretendia chamar a atenção
para a anarquia que há no mundo e na história da própria
humanidade?
Galeano:
Sim, mas que estão atadas por fios invisíveis, que fazem com
que essa aparente desconexão não seja mais do que uma
expressão da diversidade da vida humana, da história e da
presença dominante, nessa diversidade, dos esquecidos pela
história oficial. Que é uma história que sacrificou, que
mutilou o arco-íris terrestre.
Sempre digo que o arco-íris terrestre tem mais cores do que o
celeste. É muito mais belo, mais fulgurante, mas tem sido
mutilado pelo racismo, pelo machismo, o elitismo, o
militarismo… Então, não somos capazes de ver a nós mesmos em
toda a nossa plenitude assombrosa, em toda a nossa prodigiosa
capacidade de beleza.
O
livro rende homenagem à diversidade humana e à diversidade da
natureza, da qual também fazemos parte.
Então, na aparência pode parecer desconexo, mas quando a gente
entra para lê-lo está armado de tal maneira que há muitíssimo
trabalho por trás. É como um rio que às vezes corre por baixo
da terra, outras por cima, mas que nunca deixa de correr. É um
único fluxo de um rio, de muitos rios.
Discípulo
de Juan Rulfo
La Jornada:
Como uma sinfonia.
Galeano:A
literatura e a música são muito parecidas. Por isso é bom ler
em voz alta. Quando a gente escreve, quando termina um texto,
a gente lê em voz alta, porque essa leitura nos dá a música
das palavras. E a música manda. Tem que haver uma continuidade
da música.
La Jornada:
Depois de tantos livros e, principalmente, aprendizados, você
acha que chegou ao máximo de depuração da sua própria
linguagem literária?
Galeano:
Acho que sim. A linguagem que eu utilizo, não quero que
apareça, mas cada um destes relatos teve 15 ou 20 tentativas.
Como dizia um escritor chileno quando reeditava seus contos:
edição corrigida e diminuída. Eu também vou diminuindo; é um
trabalho de tirar a gordura, para que só fique a carne e o
osso daquilo que se quer contar. É um trabalho de despir e
purificar a linguagem.
La Jornada:
Uma
linguagem pouco freqüente nas letras latino-americanas, que às
vezes tendem a exagerar na verborréia, você não acha?
Galeano:
Pode ser, mas eu não acho que a literatura latino-americana
deva ser isto ou aquilo, porque o melhor desta nossa região é
que ela é tão diversa. Ou seja, que contém todas as cores, os
cheiros, os sabores do mundo.
Se o
melhor que o mundo tem está na quantidade de mundos que o
mundo contém, poucas regiões do mundo contêm tantos mundos
como a nossa. E, portanto, há uma diversidade de linguagens e
essa é a nossa riqueza. Eu escrevo do meu jeito, o que sinto e
como sai, mas há muitas outras formas de escrever. Toda
linguagem é legítima, na medida em que as palavras nasçam da
necessidade de dizer.
La Jornada:
Mas há influências, gerações literárias.
Galeano:
Sim, eu escrevo do meu jeito, que por sua vez é um jeito muito
influenciado pelo meu mestre Juan Rulfo. Em uma entrevista, já
faz algum tempo, pediram que eu escolhesse os escritores mais
importantes na minha formação literária. Eu respondi: Juan
Rulfo, Juan Rulfo e Juan Rulfo.
Histórias
sentipensantes
La Jornada:
Em sua busca por novas linguagens, suponho que também está à
par da evolução do nosso idioma na sociedade atual.
Galeano:
Sim, é um aprendizado cotidiano. Recebo muitas vozes da rua,
que são as que mais me alimentam. E é um trabalho de recriação
das vozes que a gente recebe. Quando Rulfo me dizia que se
escreve mais com a borracha do que com o lápis, isso é
verdade, mas não toda. Porque também é preciso ver quais são
as palavras.
Outro
de meus mestres, Juan Carlos Onetti, com quem compartilhei
poucas palavras e muitos silêncios, sempre dizia que havia um
provérbio chinês que dizia que as únicas palavras que merecem
existir são as palavras melhores que o silêncio.
É uma
idéia muito linda, porque o silêncio é uma linguagem muito
funda e profunda; então, é muito difícil que as palavras sejam
melhores que o silêncio. Na verdade, isso é impossível, mas a
gente tem que tentar esses impossíveis. É o maior desafio da
linguagem.
La Jornada:
Justamente. Seu livro "Espelhos" tem muitos silêncios e muita
calma em sua leitura.
Galeano:
O livro pede lentidão, como o amor. E silêncio, para que as
palavras tenham sonoridade realmente.
La Jornada:
Você também assume a literatura como esse saltimbanco que vai
de vilarejo em vilarejo contando histórias, declamando, lendo
em voz alta essas histórias?
Galeano:
Sim, mas se são só conhecimentos, ou seja, mensagens da razão,
terão curto percurso. Precisam ser histórias sentipensantes,
para que cheguem a quem as lê; elas têm que vir da razão e do
coração. Têm que unir o que foi desvinculado pela cultura do
desvínculo, que é a cultura dominante. Que, entre outras
coisas, desvinculou a razão da emoção, assim como desvinculou
o passado do presente.
Por
isso, no livro misturo muitíssimo o passado e o presente; o
extermínio do Iraque pelas mãos de um senhor que acredita que
a escritura foi inventada no Texas e, ao mesmo tempo, o
nascimento do primeiro poema de amor da história humana, que é
um poema escrito no Iraque, quando ainda não tinha esse nome,
em língua suméria e em tabuletas de barro.
La Jornada:
Uma dessas linhas invisíveis que dão sentido às 600 histórias
de "Espelhos", é a vocação do homem pela guerra, por essa
tendência de destruir a si mesmo?
Galeano:
Acho que aqueles que acreditaram que a contradição é o motor
da vida humana não erraram. Somos uma contradição incessante.
E isso ajuda você a sobreviver em um mundo difícil; a certeza
de que não existe horror que não implique alguma maravilha. A
certeza de que somos metade lixo e metade beleza. Então, o
livro alimenta-se dessa contradição incessantemente. Não só do
horror, mas também do amor.
La Jornada:
Com especial foco nas guerras, você não acha?
Galeano:
Sim, porque a guerra é parte do
horror. Não penso que a guerra seja um destino humano, mas é
verdade que continua sendo uma realidade do nosso tempo. A
cada minuto morrem de fome ou de doença curável 10 crianças no
mundo. A cada minuto! E a cada minuto os Estados Unidos gastam
meio milhão de dólares matando inocentes no Iraque!
La Jornada:
Também o machismo é uma constante da história da humanidade...
Galeano:
Sim, por isso menciono o paradoxo das vidas de Santa Teresa e
de Joana Inés de la Cruz. As duas perseguidas pela Inquisição,
pelos setores mais dogmáticos e ferozes da Igreja católica e
suas verdades únicas. Suspeitas por serem mulheres
inteligentes, criativas, por terem tanto ou mais talento que
os homens. E, portanto, culpadas do imperdoável delito de
serem elas mesmas.
O
caso de Santa Teresa é o mais trágico. Penso que um braço de
Santa Teresa acompanha Francisco Franco em sua longuíssima
agonia, porque foi esquartejada e mandaram os pedaços para
todas partes; e o braço incorruptível – como é chamado –, na
mesinha de cabeceira de Franco. É uma piada de mau gosto da
história. Ela, que tinha sido vítima dos equivalentes de
Franco do seu tempo.
La Jornada:
Como Eduardo Galeano vê o que ocorreu recentemente na África
do Sul, que desconcertou o mundo: a explosão xenófoba no país
que sofreu durante tantas décadas com o apartheid?
Galeano:
Acho que há um sistema mundial de dominação que está
transformando o mundo em um matadouro, e também em um
manicômio. Está enlouquecendo a todos nós e a prova de que
isto está se transformando em uma loucura total é que esse
sistema de dominação mundial conseguiu que os negros se matem
entre si, como está ocorrendo na África do Sul, ou que os
iraquianos se matem entre si, como ocorre no Iraque, ou que os
palestinos se matem entre si. Enlouquecem-nos. Já não sabemos
quem é quem, nem por quê, nem para quê.
Agora
o mundo entrou em um período de crise muito perigoso e isto
vai gerar explosões de racismo por todas partes. O imigrante,
o que vem de fora, principalmente se for de pele escura, será
o bode expiatório do desemprego, da desocupação.
La Jornada:
Dá a impressão que o mundo não pensa nem guarda silêncio para
analisar isto desse jeito, como podemos fazer com seu livro,
por exemplo…
Galeano:
Sim, porque vivemos em uma vertigem incessante. Somos presos.
Instrumentos dos nossos instrumentos. Máquinas das nossas
máquinas. E a vertigem da vida urbana impede que disponhamos
do tempo necessário para recuperar a memória perdida e para
lembrar das coisas mais óbvias: que ninguém pediu passaporte
para Colombo, que ninguém exigiu contrato de trabalho para
Hernán Cortés, que ninguém exigiu certificado de boa conduta
para Francisco Pizarro —que, por outro lado, ele não teria
obtido, porque era um cara com péssimos antecedentes.
Como
dizia no começo, somos todos africanos emigrados. São coisas
elementares que esquecemos completamente e que devemos
recuperar para fazer perguntas como as seguintes: este mundo é
um destino? Será que ele não está grávido de outro?
La Jornada:
No livro você também reflete sobre a conquista, depois de
cinco séculos. Como você vê a situação dos povos indígenas?
Galeano:
Acho admirável a capacidade que tiveram os indígenas das
Américas de perpetuar uma memória que foi queimada, castigada,
enforcada, desprezada durante cinco séculos. E a humanidade
inteira tem que estar muito agradecida a eles, porque graças a
essa obstinada memória sabemos que a terra pode ser sagrada,
que somos parte da natureza, que a natureza não termina em
nós. Que há possibilidades de organizar a vida coletiva,
formas comunitárias que não estão baseadas no dinheiro. Que
competir com o próximo não é inevitável e que o próximo pode
ser algo muito mais do que um competidor.
Todas
estas coisas que foram herdadas das culturas originais e que
tiveram uma persistência admirável, porque sobreviveram a
tudo, e que agora se manifestam. Por exemplo, a nova
Constituição do Equador, que tem nome indígena, pela primeira
vez na história da humanidade consagra a natureza como sujeito
de direito. Nunca ninguém tinha pensado nisso.
No
Equador, apesar de ser um país muito infectado pelo racismo,
como o México e todos na América Latina, conseguiu
perpetuar-se uma memória subterrânea que torna possível esta
recuperação de verdades pronunciadas por vozes do passado mais
remoto, mas que falam para o futuro.
Troca de
senhor
La Jornada:
E o fato de que agora estejamos em plena “comemoração” do
bicentenário das independências, o que você acha disso?
Galeano:
As independências foram, em geral, as certidões de nascimento
das nações, mentira nestas que vivemos. Porque todas as
constituições das nossas repúblicas independentes negaram os
direitos para aqueles que derramaram seu sangue para conseguir
essas independências. Foram emboscadas feitas contra os filhos
mais pobres das Américas. Isso foi unânime e sempre foi assim.
Foram
repúblicas nascidas para a negação de direitos, para a
maldição e para o desprezo da maioria de seus habitantes,
muitos dos quais passaram a ter uma vida pior da que tinham
sob a dominação colonial. Ou, em todo caso, limitaram-se a
trocar de senhores. Como dizia uma pichação anônima em uma
parede de Quito, quando foi promulgada a independência do
Equador: ‘Último dia do despotismo e primeiro da mesma coisa’.
Tradução:
Naila
Freitas/Verso Tradutores
Fonte:
www.cartamaior.com.br |