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31/03/2009
Até quando a ofensiva
anti-reforma agrária?
Por Osvaldo Russo
Alguns
estudiosos que se apresentam donos da verdade científica,
como se a ciência fosse desprovida de ideologia e de
política, consideram irracional a condução da reforma
agrária no Brasil, seja no governo atual, com Lula, seja no
governo anterior, com FHC, que, com maior ou menor ênfase,
aceitaram, cada qual ao seu modo, o debate da agenda agrária
colocada pelo movimento sindical e pelos movimentos sociais.
A
argumentação de que pesquisadores defensores da reforma
agrária são cooptados pelo governo não parece justa e
verossímil, pelo menos entre aqueles que se destacam no meio
acadêmico pela sua produção científica independente ou mesmo
pela sua militância política engajada, da mesma forma que
não seria aceitável a tese de cooptação entre aqueles que
prestavam consultoria ao governo FHC, ao criticarem a
bandeira da reforma agrária defendida pelo movimento
sindical e pelos movimentos sociais, quer por sua
"desatualização" histórica, quer por sua radicalidade e
amplitude.
Ao
contrário, em relação à questão agrária, é notório o
afastamento do chamado mundo acadêmico do debate agrário,
mas não só dele, como também de outros temas polêmicos
associados diretamente à política, onde pelejam idéias,
projetos e interesses de classe antagônicos. O protagonismo
político das mudanças sociais ou do desenvolvimento não está
como nunca esteve com as universidades e os pesquisadores,
mesmo reconhecendo a relevância e indispensabilidade de sua
contribuição científica nessas mudanças.
A tática,
no entanto, de ofensa à independência ou ao engajamento
político de pesquisadores parece somar-se, de boa ou má fé,
à nova ofensiva contra o governo Lula e os movimentos
sociais que lutam pela reforma agrária, com a tentativa de
sua criminalização pelos setores conservadores, que procuram
impor a sua agenda política para 2010. Há pesquisadores que
não fazem coro com o governo, mas fazem coro com a reforma
agrária. Estes também estariam cooptados pelo poder de
sedução do governo?
A ausência
de política seria a negação do debate ideológico e da
própria democracia. Não há encenação de "pressões", ninguém
encena com fome ou debaixo da lona. Há, sim, interesses,
idéias e projetos em disputa, o que não significa o "ou tudo
ou nada" ou o assalto ao Palácio de Inverno. Os consensos e
os dissensos se fazem a cada realidade e circunstância
histórica e não ao sabor de algum pensador brilhante, que
queira impor o seu consenso ou o seu pensamento exclusivo,
ainda que sob inspiração científica.
Ao se
focar o debate na suposta cooptação e no privilégio do poder
e de apropriação de recursos públicos pelos movimentos
sociais reduz-se o debate à dimensão penal pautada pela
direita ideológica, perdendo-se a oportunidade de se debater
sobre qual reforma agrária nos entendemos ou divergimos. Ou,
ainda, se é possível e necessária ser feita alguma reforma
agrária e qual? A crise do capital muda alguma coisa? A
persistência de mobilizações, acampamentos e conflitos no
campo sinaliza o que? O sistema predatório do agronegócio é
sustentável? O desenvolvimento com desigualdade é aceitável?
A agricultura camponesa está fadada à economia de
subsistência ou isso está mais associado ao modelo de
sociedade imposto por uma classe ou grupo social? As
políticas públicas de educação e de acesso à pesquisa e à
tecnologia podem alterar o modo e a escala da produção
camponesa, as formas associativas podem cumprir uma função
econômica diferenciada e competitiva? As políticas públicas
são equitativas?
Hoje,
trata-se de discutir as alternativas para o desenvolvimento.
Por que o Brasil é um dos raros grandes países onde a
reforma agrária continua na agenda nacional? Será obra da
irracionalidade coletiva? A crise alimentar pode não
produzir o ressurgimento da reforma agrária como opção, mas
quem disse que isso é inexorável? A ciência apartada da
ideologia?
A
agricultura tecnificada já existe, a modernização
conservadora já ocorreu e não foi capaz de superar a crise
alimentar e, na atual crise financeira e econômica
internacional, está se afundando junto com o seu príncipe
encantado, o capitalismo em sua versão neoliberal. A
redistribuição da terra e das condições de produção,
inclusive do conhecimento, não é uma inevitabilidade, mas
uma alternativa de outro tipo de desenvolvimento e sociedade
para o qual existe demanda social.
Por isso
está no rumo certo a direção do PT em querer aprofundar o
embate ideológico. É verdade que o agronegócio aumentou a
produtividade, só que esse segmento é o primeiro a barrar a
atualização legal dos índices de produtividade para fins de
desapropriação. Será que as reformas agrárias que não deram
certo se preocuparam com produtividade, planejamento,
sustentabilidade, educação, cultura, capacitação,
gerenciamento, assistência técnica, pesquisa e tecnologia?
Será que não podemos estar formando um novo setor agrícola a
partir de uma reforma agrária de novo tipo? O desmatamento
na Amazônia está associado não à pequena unidade produtiva,
mas à expansão do agronegócio e à penetração indiscriminada
da pecuária extensiva na região.
A crise do
capital é também uma crise do seu modo de produção, que
concentra renda, desemprega e compromete o meio ambiente e a
soberania alimentar dos povos. Os instrumentos jurídicos são
resultantes do caminho que será hegemonizado na sociedade.
No passado, a Bolívia fez uma reforma agrária minifundiária
ineficiente, mas agora retoma o processo reformista em novas
bases políticas, sociais, econômicas e jurídicas. É preciso
reconhecer que já existem, no Brasil, quatro milhões de
pequenas unidades produtoras agrícolas, entre as quais um
milhão nos assentamentos, que respondem pela maior parte da
produção de alimentos que abastecem o mercado interno.
Enquanto
houver demanda social e realidade objetiva que sustente a
coexistência conflitiva do agronegócio e da agricultura
familiar e camponesa, haverá necessidade política e
institucional de convivência de dois ministérios. Essa
contradição só poderá ser superada pela política e não com o
autoritarismo do pensamento único. A reforma agrária é a
opção democrática e sustentável para um desenvolvimento com
equidade social.
É bom
saber, no entanto, que mesmo entre os que acham a reforma
agrária em desuso, há os que a admitem, ainda que
regionalizada ou só no Nordeste. Nesse debate não cabe a
polarização maniqueísta entre ciência e ideologia, pois o
Brasil precisa de ambas para avançar. A eleição de 2010 será
uma ótima oportunidade para debatermos as alternativas do
Brasil. Iremos nos envergonhar se cada um de nós não fizer a
sua parte.
Osvaldo Russo, ex-presidente
do INCRA, é estatístico, diretor da Associação Brasileira de
Reforma Agrária (ABRA) e coordenador do Núcleo Agrário
Nacional do PT
Artigo
publicado no Correio da Cidadania e no Portal do PT, em
resposta ao texto "Até quando a desrazão agrária?", de
Zander Navarro, publicado na Folha de S. Paulo (30/03).
http://orusso.blog.uol.com.br |
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