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28/04/2009
''1/5 das
terras no Brasil são de pessoas
que não
têm documentos hábeis legais''.
Entrevista especial com Ariovaldo Umbelino
O professor
Ariovaldo
Umbelino, em
entrevista à IHU On-Line defende a Reforma Agrária,
pois, “o Brasil possui os maiores latifúndios que a
humanidade já registrou, ou seja, não há limite para o
tamanho de suas propriedades . É uma
excrescência,
do ponto de vista internacional, um país ter propriedades
privadas que são maiores do que unidades federativas que
possui, sem falar que algumas são ainda maiores do que
muitos países existentes no mundo. Então, é evidente que
existe uma questão fundiária e ela não está resolvida”.
Ariovaldo Umbelino
é graduado em Geografia, pela Universidade de São Paulo,
onde também realizou o doutorado em Geografia Humana e
obteve o título de Livre Docência. Umbelino
é professor e chefe do departamento de Geografia da
USP. Autor de A geografia das lutas no campo (São
Paulo: Contexto, 1996), entre outras obras, seu livro mais
recente é Modo Capitalista de produção, agricultura e
Reforma Agrária (São Paulo: FFLCU/LABUR EDIÇÕES, 2007).
Confira a entrevista:
IHU On-Line – Existe ainda, no Brasil, uma
questão agrária? A Reforma Agrária ainda é uma necessidade?
Ariovaldo Umbelino –
Ainda está em jogo o processo produtivo, de um lado, e a
questão da propriedade privada da terra, de outro. Se
analisarmos exclusivamente da ótica do processo produtivo,
poderíamos dizer que não há uma
questão
agrária no
Brasil porque não é um país que depende de importação de
produção de alimento. A única exceção é o trigo e, vez ou
outra, são importados arroz e feijão. De qualquer forma, o
Brasil tem condições e vem produzindo excedentes exportáveis
do ponto de vista agrícola. Então, se eu analiso dessa
perspectiva do processo produtivo, não haveria uma questão
agrária.
Mas, quando analiso a questão agrária, na
perspectiva da formação da propriedade privada da terra no
Brasil, penso que ela existe sim, ou seja, cerca de 1/5 das
terras no Brasil foram cercadas por pessoas que não têm
documentos hábeis legais para deter o controle dessa
propriedade da terra.
Isto quer dizer que uma parte dos que se dizem proprietários
não são de fato proprietários. Além disso, há um grande
número, que podemos classificar como posseiros, que, pela
legislação brasileira, têm direito à legitimação dessa área
que ocuparam e que, por direito, deveriam ter essa correção
do ponto de vista da propriedade privada da terra no Brasil.
Mas as médias e grandes propriedades não têm esse direito.
Isso quer dizer que a questão fundiária não está resolvida.
Por outro lado, o Brasil possui os maiores
latifúndios que a humanidade já registrou, ou seja, não há
limite para o
tamanho
das propriedades
do país. É uma excrescência, do ponto de vista
internacional, um país ter propriedades privadas que são
maiores do que unidades federativas que possui, sem falar
que algumas são ainda maiores do que muitos países
existentes no mundo. Então, é evidente, como eu disse, que
existe uma questão fundiária ainda não resolvida.
Além disso, há a presença no país de
movimentos sociais de luta por acesso à terra.
Simultaneamente à luta desses momentos sociais, há uma parte
do
campesinato sem terra
no Brasil que abre luta através da abertura de novas posses.
Portanto, existe uma questão agrária, a questão fundiária
não está resolvida, assim como um processo de luta. A
questão da Reforma Agrária é atualíssima e faz parte do
processo de diminuição da violência que existe no campo
exatamente porque não está resolvida.
IHU On-Line – Como o senhor vê o processo de
Reforma Agrária atual?
Ariovaldo Umbelino –
A Reforma Agrária hoje, do ponto de vista como está posta no
plano governamental, precisa ter dois pontos destacados. A
primeira é que o governo atual, no primeiro mandato, por
pressão dos movimentos, fez o segundo Plano Nacional de
Reforma Agrária e se dispôs a assentar, em quatro anos,
400 mil famílias e no quinto ano mais 140 mil famílias. Isso
daria, em cinco anos, portanto, 540 mil famílias.
Entretanto, o Incra não cumpriu essa meta, embora
tenha divulgado que fez assentamentos superiores a essa
meta. Na realidade, os dados que o Incra divulga são
relativos à relação de beneficiários da Reforma Agrária
emitidas. Essas relações são emitidas tanto para os
assentados novos como são emitidas para a
regularização fundiária
e reconhecimento de assentamentos antigos para que as
famílias tenham acesso ao Pronaf. Além disso, nessa
relação, também estão inclusas as emissões feitas aos
quilombolas, as demarcações de terras extrativistas, os
reassentamentos de atingidos por barragens. Tanto a
regularização fundiária quanto a reorganização fundiária e
os reassentamentos não são Reforma Agrária.
Reforma Agrária é aquele ato em que o
Incra desapropria terras ou usa terras públicas
disponíveis e faz assentamentos novos. Isto é Reforma
Agrária, e o Incra não faz essa separação, e sim junta todos
os dados e divulga um número que não condiz com a realidade.
Se fôssemos fazer a desagregação desses dados que o Incra
divulga, apenas 180 mil famílias de fato foram assentadas em
processo de Reforma Agrária. O que estou querendo dizer é
que o governo atual não fez a Reforma Agrária que prometeu.
Ao mesmo tempo, estamos diante de um processo em que o
governo não manifestou qualquer disposição de fazer um
terceiro plano nacional de
Reforma
Agrária.
Resta, evidentemente, aos movimentos sociais, ação
e política de pressão para que o governo retome esse
processo. Inclusive, o governo atual foi mais ainda adiante:
ele não só não fez a Reforma Agrária como passou a
privilegiar a regularização fundiária, ou seja, a concessão
de terra aos grileiros na Amazônia Legal. Um contra-senso a
todo programa político elaborado no âmbito do Partido dos
Trabalhadores, que nunca defendeu a concessão de terras
aos grileiros.
IHU On-Line – Como esse processo deveria
acontecer para que o problema de distribuição de terras
fosse sanado?
Ariovaldo Umbelino –
A Constituição Brasileira é clara, límpida. A propriedade
privada à terra está subordinada a sua função social. Isto
quer dizer o seguinte: a propriedade privada da terra não é
uma propriedade como outra qualquer. Quando uma pessoa tem
um automóvel, pode deixá-lo na garagem da sua casa
apodrecendo e ninguém poderá falar nada. É um direito dele,
que tem o direito absoluto sobre aquela propriedade.
Evidentemente, desde que não esteja atrapalhando terceiros.
Com relação à propriedade privada da terra não, pois não é
uma propriedade absoluta. Ou seja, está submetida ao seu uso
produtivo e ao fato de essa produção seja feita respeitando
as
leis trabalhistas
e as leis ambientais, e não se produza produtos interessando
os tóxicos que estão definidos na Constituição como situação
em que a propriedade não cumpriria a sua função social. Nós
temos no Brasil hoje, do ponto de vista das grandes
propriedades, 120 milhões de hectares de grandes
propriedades, as quais, no cadastro do Incra, já
estão identificadas como improdutivas, ou seja, que não
cumprem a sua função social. Qual é a obrigação
constitucional do Incra? Desapropriá-las e
destiná-las à Reforma Agrária, para que cumpram sua função
social.
Ao mesmo tempo, há, no Brasil, cerca de 250
milhões de hectares de terras apropriadas indevidamente. No
Rio Grande do Sul, praticamente metade do município
de Bagé, por exemplo, está nas mãos de pessoas que
não têm documentos. Isso está registrado porque os próprios
proprietários declararam. Há, no Rio Grande do Sul, cerca de
seis milhões de hectares de terras devolutas, ou seja,
aqueles que controlam não têm documentos sobre elas. A
função do estado é fazer com que o preceito constitucional
da função social da
propriedade privada da terra
seja cumprido. É evidente que é função do estado promover a
redistribuição dessas terras através de programas de Reforma
Agrária.
IHU On-Line – Como o senhor vê a atuação do
MST, atualmente?
Ariovaldo Umbelino –
O MST, como movimento social de luta pela Reforma
Agrária e pelo acesso à terra, educação, saúde e tudo aquilo
que qualquer cidadão por direito deveria ter, responde aos
seus objetivos. Se existe
Reforma
Agrária no
Brasil, ela foi fruto dessa luta histórica nesses 25 anos de
existência do MST. Este é um movimento social de importância
política no Brasil porque forçou o Estado a colocar na
agenda política a realização da Reforma Agrária. Então, ele
tem a sua importância de natureza política porque cobra que
o direito que aqueles que não têm terra se faça no âmbito do
Estado. Portanto, trata-se de um movimento social de grande
importância para o processo de democratização do acesso à
terra e da própria propriedade privada de terra no Brasil.
IHU On-Line – Que análise o senhor faz das
experiências de assentamentos criadas pela política de
Reforma Agrária?
Ariovaldo Umbelino –
Em primeiro lugar, é preciso dizer que uma
política
de Reforma Agrária
tem dois pilares principais: o primeiro pilar é aquele
relativo ao acesso à terra, que nós chamamos de política
fundiária, ou seja, se criar as condições para que haja
acesso à terra, sobretudo às terras de qualidade e,
evidentemente, que isso não aconteceu, de maneira geral, no
Brasil, porque, via de regra, os assentamentos foram feitos
em áreas distantes, em solos não propícios. O segundo é o
resultado econômico. Do ponto de vista da Reforma Agrária, a
grande maioria desses assentados saiu de uma condição para
uma condição de pelo menos ter acesso à produção de
alimentos. Desse ponto de vista, a Reforma Agrária cumpre a
sua função social. Ela só não é mais progressista porque a
política agrícola realizada pelos diferentes governos não
tem permitido.
IHU On-Line – O governo Lula anunciou nesta
semana uma ajuda financeira significativa para o
agronegócio. De que forma o senhor analisa essa decisão?
Ariovaldo Umbelino –
Eu analiso de forma como a realidade indica, ou seja, o
governo atual, do presidente Lula, fez a
preferência pelo agronegócio. Assim, ele não fez a opção
preferencial pela Reforma Agrária ou pelos movimentos
sociais. Por isso, continua fazendo concessões de recursos
financeiros públicos para esse setor, que tem sido
contemplado com fatias expressivas do orçamento. O governo
atual continua realizando a sua
política
de apoio ao agronegócio,
que, no meu ponto de vista, pode colocar o país, mais cedo
ou mais tarde, dentro da questão da insegurança alimentar.
Isso porque, do total da famosa safra de grãos, vamos
verificar que 80% ou pouco mais é produção de soja e milho,
que não são produzidos para serem consumidos no Brasil, mas
sim para exportar. Enquanto isso, a produção de arroz,
feijão e trigo no Brasil não cresce desde 1992. O que mostra
que a sociedade brasileira está comendo a safra que está
sendo plantada e colhida. Isso é um risco muito grande, ou
seja, se perder a soberania alimentar no nosso país.
Evidente que essa política atual é uma suicida.
Eu
gostaria de retomar a questão central que envolve o debate
da Reforma Agrária, que é o fato de que 1/5 das terras do
Brasil não pertencem aqueles que a cercaram. Em geral, são
esses que estão em terras que não lhes pertence, do ponto de
vista legal, e que, no entanto, se agarram ao direito de
fazer críticas às ações dos movimentos sociais, que não têm
por parte do governo atual o cumprimento das ações da
Reforma Agrária. Então, é preciso que a sociedade brasileira
tenha consciência de que a Reforma Agrária é necessária e só
ela irá garantir ao país a produção de alimentos em
quantidade, de modo a que nós tenhamos, simultaneamente,
segurança e soberania alimentar. Além disso, é com a Reforma
Agrária que os países desenvolvidos conseguiram chegar às
condições de soberania alimentar. É evidente que o Brasil
tem uma estrutura fundiária altamente concentrada nas mãos
das elites que controlam terras que não lhes pertence, o que
é um contra-senso e uma ilegalidade denunciados pelos
movimentos sociais. |
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