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28/04/2009
O caminho mais curto para
fracasso
Por Leonardo Boff
Das muitas
reflexões acerca do colapso do sistema neoliberal, três
despontam com claridade. A primeira é que para salvar o
Titanic afundando não bastam correções e regulações no
sistema em naufrágio. Precisa-se de uma outra rota que evite
o choque com o iceberg: uma produção que não se reja só pela
ganância nem por um consumo ilimitado e excludente. A
segunda, não valem rupturas bruscas na ilusão de que já nos
transportariam para um outro mundo possível, pois
seguramente implicariam no colapso total do sistema de
convivência, com vitimas sem conta, sem a certeza de que das
ruínas nasceria uma nova ordem melhor. A terceira, a
categoria sustentabilidade é axial em qualquer intento de
solução. Isso significa: o desenvolvimento necessário para a
manutenção da vida humana e para a preservação da vitalidade
da Terra não pode seguir as pautas do crescimento até agora
vigentes (olho no PAC de Dilma Rouseff). Ele é demasiado
depredador do capital natural e parco em solidariedade
generacional presente e futura. Importa encontrar um sutil
equilíbrio entre a capacidade de suporte e regeneração da
Terra com seus diferentes ecossistemas e o pretendido
desenvolvimento necessário para assegurar o bem viver humano
e a continuidade do projeto planetário em curso que
representa a nova e irreversível fase da história.
Esta
diligência precisa acolher a estratégia da transição do
paradigma atual que não garante um futuro sustentável para
um novo paradigma a ser construído pela cooperação
intercultural que signifique um novo acerto entre economia e
ecologia na perspectiva da manutenção da vida na Terra.
Onde vejo
o grande gargalo? É na questão ecológica. Ela é citada
apenas en passant nas agendas políticas visando a superação
da crise. Na reunião dos G-20 no dia 2 de abril em Londres,
o tema não influiu na formulação dos instrumentos para
ordenar o caos sistêmico. Não se trata apenas do mais grave
de todos, o aquecimento global, mas também do degelo, da
acidez dos oceanos, da crescente desertificação, do
desflorentamento de grandes zonas tropicais e do surgimento
do planeta-favela em razão da urbanização selvagem e do
desemprego estrutural. E mais ainda: a revelação dos dados
que mostram a insustenbilidade geral da própria Terra, cujo
consumo humano ultrapassou em 30% sua capacidade de
reposição.
Uma
natureza devastada e um tecido social mundial dilacerado
pela fome e pela exclusão anulam as condições para a
reprodução do projeto do capital dentro de um novo ciclo.
Tudo indica que os limites da Terra são os limites terminais
deste sistema que imperou por vários séculos.
O caminho
mais curto para o fracasso de todas as iniciativas visando
sair da crise sistêmica é esta desconsideraçã o do fator
ecológico. Ele não é uma “externalidade” que se pode tolerar
por ser inevitável. Ou lhe conferimos centralidade em
qualquer solução possível ou então teremos que aceitar o
eventual colapso da espécie humana. A bomba ecológica é mais
perigosa que todas as bombas letais já construídas e
armazenadas.
Desta vez
teremos que ser coletivamente humildes e escutar o que a
própria natureza, aos gritos, nos está pedindo: renunciar à
agressão que o modelo de produção e consumo implica. Não
somos deuses nem donos da Terra mas suas criaturas e seus
inquilinos. Belamente termina Rose Marie Muraro um livro a
sair em breve pela Vozes”Querendo ser Deus, por quê? “Quando
tivermos desistido de ser deuses, poderemos ser plenamente
humanos o que ainda não sabemos o que é, mas que já
intuíamos desde sempre”.
Leonardo Boff é autor de
“Virtudes para um outro mundo possível”, Vozes 2008 |