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27/05/2009
Uma verdadeira inversão
de valores
Por Márcia Pimenta
Nossa
elite política tem um projeto; nos catapultar para um
passado remoto, um passado de atraso, onde a poluição é
sinônimo de desenvolvimento e onde qualquer floresta em pé,
é um mato que precisa ser eliminado a ferro e fogo. Em um
mundo tecnocientifico avançado, bagres, pererecas, índios e
legislação ambiental são ervas daninhas que precisam ser
extirpadas para dar lugar à modernidade. Embora haja um
consenso mundial de que a degradação ambiental é um sério
impedimento para qualquer projeto de desenvolvimento
econômico ou social, para alguns políticos, empresários e
ruralistas a preocupação ambiental é uma conspiração para
impedir o país de crescer, por que todo mundo sabe, para
crescer é preciso destruir a natureza!
Essa visão
ultrapassada de conquista da vantagem material imediata faz
parte de nossa história colonial. A natureza intacta era, e
ainda o é, vista como um inimigo do progresso e precisa ser
eliminada para dar lugar as estradas, agricultura e
pecuária. Distantes da crise ambiental que afeta o planeta
hoje, em forma de escassez de recursos naturais,
desertificação, contaminação do ar, da água e do solo,
buraco na camada de ozônio e aquecimento global,
intelectuais do século XIX, como José Bonifácio questionavam
as práticas tecnológicas e sociais rudimentares originadas
no passado colonial e compreendiam a destruição do ambiente
natural como o “preço do atraso” e não como o “preço do
progresso”. A preservação da natureza era vista como um
trunfo, devido a sua importância econômica e política.
Para Lula
essa “ficha ainda não caiu”. Em seus devaneios nostálgicos
já deve ter se imaginado no lugar de JK na foto emblemática,
onde este posava ao lado de um gigantesco jequitibá
derrubado durante a construção da rodovia Belém-Brasília.
Ali, como um bravo caçador ao lado da árvore derrubada como
se fosse uma caça abatida, JK repercutia a idéia de que na
busca pelo progresso o homem vence a natureza! Hoje,
“infelizmente”, há uma grita geral quando se propõe a
construção de mais uma rodovia na floresta amazônica ou uma
hidrelétrica. Logo aparecem os ambientalistas, as ONG`s, o
Ministério Público, os índios e todo esse “tipo de pessoas”,
que na visão do nosso governo e empresariado, estariam
agindo para impossibilitar o desenvolvimento nacional.
Nossos
políticos parecem ter esquecido que a legislação ambiental
mundial é fruto da conscientização e mobilização da
sociedade que percebeu que o processo de industrialização
trazia em seu bojo, não apenas os benefícios de suas
atividades, produtos e serviços, mas também riscos que
ocasionam graves impactos ambientais. A sociedade
compreendeu que não era mais possível que a forma
capitalista de produzir ampliasse seus lucros e socializasse
os prejuízos, em forma de degradação ambiental. Para
produzir mais rápido era preciso extrair recursos naturais
numa velocidade cada vez maior e para que os lucros viessem
num espaço de tempo cada vez menor, era necessário
economizar na preocupação ambiental. Misturando um pouco de
ganância e uma pitadinha de ignorância foi possível fazer
grandes estragos.
Nas
décadas de 70 e 80 o mundo industrializado começava a ficar
dependente do “ouro negro” e a indústria química e do
petróleo tiveram suas imagens desgatadas por uma série de
acidentes que teve grande destaque na mídia. Em 1976, 200
mil pessoas ficaram feridas por vazamento de
tetracloro-dibenzo-dioxina –TCDD em Sevezo, na Itália. Em
1984, em Bhopal na Índia foram 200 mil feridos e 3.800
mortos por vazamento de metil isocianato. Em 1984, 500
pessoas morreram em Cubatão devido ao incêndio provocado
pelo vazamento de hidrocarbonetos líquidos. Em 1962, a
cientista Rachel Carson publicou o bombástico “Primavera
Silenciosa” onde fazia o elo entre o desaparecimento de
pássaros dos campos americanos e o emprego do inseticida
DDT. Sua denúncia, que foi alvo de desqualificação da
indústria química na época, teve imensa repercussão e
culminou com a proibição do uso do DDT nos Estados Unidos e
mais tarde na Europa.
A
sociedade confusa não sabe se ri da piada dos bagres e
pererecas, defenestrados da teia da biodiversidade como se
não tivessem uma função nos serviços prestados pelos
ecossistemas, ou se chora por não ser ouvida. Afinal,
pesquisa recente encomendada pela ONG Amigos da Terra
Amazônia à Datafolha mostrou que 94% dos entrevistados
preferem o fim da derrubada florestal, mesmo que isso
implique em frear o crescimento da produção agropecuária. O
certo é que muitos já perceberam que será impossível para o
país atingir as metas de redução do desmatamento ilegal
contribuindo com o esforço mundial de diminuir as emissões
de gases de efeito estufa, responsável pelo aquecimento
global. O discurso “para inglês ver” é bem diferente das
ações domésticas em marcha. Para combater o desmatamento
ilegal criminoso na Amazônia, bastaria cumprir a legislação,
mas o que se vê é a tentativa da bancada ruralista e do
Ministério da Agricultura de mudar o Código Florestal
Brasileiro para ampliar as áreas agricultáveis e diminuir as
reservas florestais.
A
preservação ambiental e de todas as formas de vida é uma
questão ética. Mas podemos abordá-la pelo viés econômico e
ainda assim parece uma insanidade promover sua destruição.
No mundo inteiro tem havido um endurecimento das leis
ambientais. Países que investem em formas mais sustentáveis
de produção, certamente tem uma sociedade bem informada e
exigente e não adianta insistirmos em produzir sem
preocupação socioambiental e depois ficar reclamando do
protecionismo do mercado internacional, como no caso dos
biocombustíveis. Ou fazemos direito ou estamos fora deste
mercado. Todos sabem que a natureza é a base da vida e
aqueles que estimulam sua destruição visando lucro e
acumulação só podem estar contando com a tecnologia para
substituir os serviços ambientais prestados pela natureza.
Supondo que isto fosse possível, pesquisadores avaliaram, em
1997, que 33 trilhões de dólares anuais seria o valor dos
serviços ambientais prestados pela natureza. Para se ter uma
idéia o Produto Nacional Bruto mundial está em torno de
US$18 trilhões/ano.
Partindo
da certeza de que a conscientização sobre os problemas
ambientais é irreversível, resta-nos a mobilização sem
trégua, contra aqueles que pretendem flexibilizar a
legislação ambiental com vistas e benefícios individuais. E
para ajudar na reflexão proponho o pensamento do filósofo e
político anglo-irlandês Edmund Burke; "Tudo o que é
necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem
nada façam". |
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