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27/02/2009
Mulher na
ótica de dominação do capital produtivo
Roberta Traspadini
É a partir da forma como somos encaradas pelo
capital, como mercadoria, que a potencialização da nossa
luta ganha dimensões ainda mais expressivas.
Em meio à comemoração das conquistas
manifestas pelo dia internacional da mulher, 8 de março, o
debate a ser aprofundado é sobre a particular funcionalidade
da diferenciação entre homem e mulher no modo de acumulação
capitalista.
Algumas perguntas serão sugeridas como forma
dialógica sobre o tema.
Qual o sentido do trabalho para o capital?
O trabalho para o capital é a fonte geradora
de parte expressiva de sua riqueza. É através do trabalho,
mais bem, da apropriação privada do trabalho alheio que o
capital avança, se reproduz, ao longo de seu desenvolvimento
histórico.
Assim, o trabalho em todas as suas dimensões
é quem gera o valor daqueles, que no capitalismo, possuem
suas riquezas materiais.
Sem produção apropriada não há capitalismo.
Sua fonte então é a de ao se apropriar do trabalho alheio,
consumir parte crescente do tempo cotidiano do trabalhador.
E esse é um elemento central. Ao longo do
desenvolvimento das forças produtivas, o trabalho vai ser
moldado, em cada época histórica, para ampliar sua
produtividade, sem que com isso melhore, todo o contrário, a
situação de sobrevivência de grande parte dos trabalhadores
mundiais.
É o capital quem cria as diferenças de
gênero, raça-etnia e idade?
Não. Estas diferenciações são anteriores a
esse modo de produção e também fazem parte dos processos
históricos de cunho diferente do capitalista, como as
sociedades latinas anteriores à colonização, bem como as
sociedades orientais.
O que o capital faz é se apropriar destas
diferenças como potencial de seu poder de transformar a
diversidade em diferença comercial, mercantil. Isto
significa dizer que o oportunismo do capital, provoca, para
o trabalho, distinções que gerarão conflitos na compreensão
de classe trabalhadora, tamanhas as diferenças de
remuneração, ocupação dos postos de trabalho, e projeção
entre trabalho intelectual e manual.
Com a apropriação destas diferenças,
transformadas em negócios, o que o capital provoca é a
produção de um poder ainda maior na sua construção
ideológico-cultural, frente aos sujeitos que possuem somente
sua força de trabalho como condição de sobrevivência.
As diferenças se transformam em
classificações e potencializam negócios para aqueles que se
apropriam privadamente delas. É assim como a divisão entre o
trabalho feminino e o masculino; e atrelado à ela, o ser
homem e o ser mulher, ganha, no capitalismo mais avançado,
dimensões importantes tanto para a valorização do capital na
produção (com remunerações cada vez menores do trabalho
feminino e uma informalidade maior para a mulher), quanto no
consumo (políticas de marketing e venda para grupos
diferenciados).
Para o consumo, a distinção é essencial para
caracterizar grupos, segmentos, indivíduos com a produção de
necessidade comportamental de consumir para ser. Isto é
muito importante: na sociedade capitalista de produção
individualizada, fragmentada, só é cidadão aquele que, mais
do que posse, tenha o desejo de consumir.
É a consolidação diabólica de transformar em
desejo aquilo que não é realmente necessário. Aí entram em
cena, ao invés das classes e de suas lutas, grupos sociais
reduzidos a grupos consumidores, com formas específicas de
consumo, com base em diferenciações étnico-raciais, de
gênero e idade.
Essas diferenciações têm como função
concreta, dispor de uma sociedade que, ao estar escravizada
numa ponta (produção), não pode estar livre na outra
(consumo).
Por isso para o capital, o ser mulher,
implica e não implica, diferenças. Implica diferenças que,
ao precarizar ainda mais o mundo do trabalho, pressionam
para agudizarmos o conflito na luta de classes, com o
objetivo de superá-lo. E, não implica diferenças na produção
de valor desse modo particular de acumulação, que, com isto,
requer que estejamos na luta, como classe organizada, homens
e mulheres.
Mas isto significa que a luta da mulher é
menos importante?
Não. Todo o contrário. Ao se aproveitar de
forma oportunista de diversidade, transformando-a em
diferenciação, concorrência, mercadoria, o que o capital faz
é transformar o mundo do trabalho em grupos fragmentados que
disputarão entre si posições a partir daquilo que,
aparentemente, estão dispostos a receber. Aqui entra em cena
o tema do trabalho assalariado “livre” para parte da
sociedade. Outra parte, mais numerosa, classificada como
desqualificada para o trabalho formal, é o que no mundo do
trabalho fica caracterizado, pelo capital, como
trabalhadores informais. Estes, estão fora dos direitos e
deveres da ordem burguesa, logo, necessitam ser vigiados e
castigados.
Por isso e muito mais, a luta da mulher, como
classe que vive do trabalho é imprescindível. É a partir da
forma como somos encaradas, pelo capital, como mercadoria
ainda mais precária que a mercadoria trabalho em geral, que
a potencialização da nossa luta ganha dimensões ainda mais
expressivas.
Em outras palavras, a particular forma de
opressão e exploração vivida por nós mulheres, tanto no
mercado de trabalho (formal e informal), quanto no processo
de produção de valores politico-culturais, traz para a
classe organizada, elementos substantivos de, ao compreender
os mecanismos gerados pelo capital contra o trabalho, lutar
organizada e coletivamente por sua superação.
Nossa histórica tarefa revolucionária é a de
trabalhar por uma estratégia que supere esse modo de morte
em vida, ora protagonizado por nossa classe, sob o domínio
do capital. Nossa tática, como mulheres pertencentes à
classe trabalhadora, se vincula à estratégia de, ao frear a
extração de valor, lutar por um outro projeto de
socialização da produção e das relações sociais que a dão
vida.
Roberta Traspadini é
economista, educadora popular e integrante da Consulta
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