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27/02/2009
Dia Internacional da
Mulher: Em busca da memória perdida
SOF – Sempreviva Organização
Feminista
A
referência histórica principal das origens do Dia
Internacional da Mulher é a II Conferência Internacional das
Mulheres Socialistas em 1910, em Copenhague, na Dinamarca,
quando Clara Zetkin propôs uma resolução de instaurar
oficialmente um dia internacional das mulheres. Nessa
resolução, não se faz nenhuma alusão ao dia 8 de março.
Clara apenas menciona seguir o exemplo das socialistas
americanas. É certo que a partir daí, as comemorações
começaram a ter um caráter internacional, expandindo-se pela
Europa, a partir da organização e iniciativa das mulheres
socialistas.
Essa e
outras fontes históricas intrigaram a pesquisadora Renée
Coté, que publicou em 1984, no Canadá, sua instigante
pesquisa em busca do elo ou dos elos perdidos da história do
dia internacional das mulheres.
Renée, em
sua trajetória de pesquisa, se deparou com a história das
feministas socialistas americanas que tentavam resgatar do
turbilhão da história de lutas dos trabalhadores no final do
século XIX e início do século XX, a intensa participação das
mulheres trabalhadoras, mostrar suas manifestações, suas
greves, sua capacidade de organização autônoma de lutas,
destacando-se a batalha pelo direito ao voto para as
mulheres, ou seja, pelo sufrágio universal. A partir daí,
levanta hipóteses sobre o por quê de tal registro histórico
ter sido negligenciado ou se perdido no tempo.
O que nos
fica claro, a partir de sua pesquisa das fontes históricas é
que a referência de um 8 de março ou uma greve de
trabalhadoras americanas, manifestações de mulheres ou um
dia da mulher, não aparece registrada nas diversas fontes
pesquisadas no período, principalmente nos jornais e na
imprensa socialista.
Houve
greves e repressões de trabalhadores e trabalhadoras no
período que vai do final do século XIX até 1908, mas nenhum
desses eventos até então dizem respeito à morte de mulheres
em Nova York, que teria dado origem ao dia de luta das
mulheres. Tais buscas revelam, para Coté, que não houve uma
greve heróica, seja em 1857 ou em 1908, mas um feminismo
heróico que lutava por se firmar entre as trabalhadoras
americanas. Em busca do 8 de março retraçou a luta pela
existência autônoma das mulheres socialistas americanas.
As fontes encontradas revelam o seguinte:
Em 3 de
maio de 1908 em Chicago, nos Estados Unidos, se comemorou o
primeiro “Woman’s day (dia das mulheres), presidido por
Lorine S. Brown, documentado pelo jornal mensal The
Socialist Woman, no Garrick Theather, com a participação de
1500 mulheres que “aplaudiram as reivindicações por
igualdade econômica e política das mulheres; no dia
consagrado à causa das trabalhadoras”. Enfim, foi dedicado à
causa das operárias, denunciando a exploração e a opressão
das mulheres, mas defendendo, com destaque, o voto feminino.
Defendeu-se a igualdade dos sexos, a autonomia das mulheres,
portanto, o voto das mulheres, dentro e fora do partido.
Já em
1909, o Woman’s day dos Estados Unidos foi atividade oficial
do partido socialista e organizado pelo comitê nacional de
mulheres socialistas, comemorado em 28 de fevereiro de 1909,
a publicidade da época convocava o “woman suffrage meeting”,
ou seja, em defesa do voto das mulheres, em Nova York.
A
pesquisadora Renée Coté apura que as socialistas americanas
sugerem um dia de comemorações no último domingo de
fevereiro, portanto, o woman’s day teve, no início, várias
datas mas foi ganhando a adesão das mulheres trabalhadoras,
inclusive grevistas e teve participação crescente.
Os jornais
noticiaram , o woman’s day em Nova York, em 27 de fevereiro
de 1910, no Carnegie Hall, com 3000 mulheres, onde se
reuniram as principais associações em favor do sufrágio,
convocado pelas socialistas mas com participação de mulheres
não socialistas.
Consta que
houve uma greve longa dos operários têxteis de Nova York (shirtwaist
makers) que durou de novembro de 1909 a fevereiro de 1910,
80% das pessoas grevistas eram mulheres. Essa greve terminou
12 dias antes do woman’s day e foi a primeira greve de
mulheres de grande amplitude denunciando as condições de
vida e trabalho e demonstrou a coragem das mulheres
costureiras, recebendo apoio massivo. Muitas dessas
operárias participaram do woman’s day e engrossaram a luta
pelo direito ao voto das mulheres ( conquistado em 1920 em
todo os EUA).
Clara Zetkin, socialista alemã, propõe que o
woman’s day se torne “uma jornada especial, uma comemoração
anual de mulheres, seguindo o exemplo das companheiras
americanas”. Sugere ainda, num artigo do jornal alemão
Diegleichheit, de 28/08/1910, que o tema principal seja a
conquista do sufrágio feminino.
Em 1911, o dia internacional das mulheres,
foi comemorado pelas alemãs, em 19 de março e pelas suecas,
junto com o primeiro de maio etc. Enfim, foi celebrado em
diferentes datas.
Em 1913, na Rússia, sob o regime czarista,
foi realizada a Primeira Jornada Internacional das
Trabalhadoras pelo sufrágio Feminino. As operárias russas
participaram da jornada internacional das mulheres em
Petrogrado e foram reprimidas. Em 1914, todas os
organizadoras da Jornada ou Dia Internacional das Mulheres
na Rússia foram presas, o que tornou impossível a
comemoração.
Em 1914, o Dia Internacional das Mulheres, na
Alemanha foi dedicado ao direito ao voto para as mulheres. E
foi comemorado pela primeira vez no dia 8 de março, ao que
consta porque foi uma data mais prática naquele ano.
As socialistas européias coordenavam as
comemorações em torno do direito ao voto vinculando-o à
emancipação política das mulheres, mas a data era decidida
em cada país. Em tempos de guerra, o dia internacional das
mulheres passou a segundo plano na Europa.
Outra referência instigante, que leva a
indicação da origem da fixação do dia 8 de março, foi a
ligação dessa data com a participação ativa das operárias
russas em ações que desencadearam a revolução russa de 1917.
Portanto, uma ação política das operárias russas no dia 8 de
março, no calendário ocidental (que usamos no Brasil), ou 23
de fevereiro, no calendário russo, precipitou o início da
ações revolucionárias que tornaram vitoriosa a revolução
russa.
Alexandra Kolontai , dirigente feminista da
revolução socialista na Rússia escreveu sobre o fato e sobre
o 8 de março, mas, curiosamente, desaparece da história do
evento. Diz ela: “O dia das operárias em 8 de março de 1917
foi uma data memorável na história. A revolução de fevereiro
acabara de começar”. O fato também é mencionado por Trotski,
dirigente da revolução, na História da Revolução Russa.
Nessas narrativas fica claro, que as mulheres desencadearam
a greve geral, saindo corajosamente, às ruas de Petrogrado,
no dia internacional das mulheres, contra a fome, a guerra e
o czarismo. Trotski diz: “23 de fevereiro ( 8 de março) ,
era o dia internacional das mulheres estava programado atos,
encontros etc. Mas não imaginávamos que este “dia das
mulheres” viria a inaugurar a revolução. Estava planejado
ações revolucionárias mas sem data prevista. Mas pela manhã,
a despeito das diretivas, as operárias têxteis deixam o
trabalho de várias fábricas e enviam delegadas para
solicitarem sustentação da greve... o que se transforma em
greve de massas.... todas descem às ruas”.
Constata-se que a revolução foi desencadeada
por elementos de base que superaram a oposição das direções
e a iniciativa foi das operárias mais exploradas e
oprimidas, as têxteis. O número de grevistas foi em torno de
90.000, a maioria mulheres. Constata-se que o dia das
mulheres foi vencedor, foi pleno e não houve vítimas.
Renée Coté encontra, por fim, documentos de
1921 da Conferência Internacional das Mulheres Comunistas
onde “uma camarada búlgara propõe o 8 de março como data
oficial do dia internacional da mulher, lembrando a
iniciativa das mulheres russas”.
A partir de 1922, o Dia Internacional da
Mulher é celebrado oficialmente no dia 8 de março.
Essa história se perdeu nos grandes registros
históricos seja do movimento socialista, seja dos
historiadores do período. Faz parte do passado histórico e
político das mulheres e do movimento feminista de origem
socialista no começo do século.
Referências Bibliográficas:
-
Cote, Renée. (1984) La Journée
internationale dês femmes ou les vrais dates des
mystérieuses origines du 8 de mars jusqu’ici embrouillés,
truquées, oubliées : la clef dês énigmes .La vérité
historique. Montreal: Les éditions du remue ménage.
-
Gassem, Gladis. (2000) Ato de
solidariedade a mulher trabalhadora Ou, Afrodite
surgindo dos mares. 8 de Março de 2000. Organização das
trabalhadoras rurais. FETAG/RS.
-
SOF:
www.sof.org.br
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