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27/02/2009
A
crise será profunda e prolongada...
Passaram-se alguns meses do desencadear da
crise do capitalismo a nível internacional, tendo seu
epicentro no capital financeiro e na economia dos Estados
Unidos. Agora já temos mais elementos para compreender de
que ela será prolongada, profunda e atingirá a todas
economias periféricas. Inclusive o Brasil.
Muitas análises já se publicaram na academia
e nos meios de comunicação. Há posições de todas as matizes
e correntes ideológicas. E todas convergem no diagnóstico. É
uma crise profunda, pior do que a crise de 29. Atingirá a
toda economia mundial, cada vez mais internacionalizada e
controlada por menos de 500 empresas. Será pior, por que
combina uma crise econômica, financeira (de credibilidade
das moedas), ambiental, ideológica, pela falência do
neoliberalismo, e política, pela falta de alternativas
apresentadas pela classe dominante, no centro ou pelos
governos da periferia.
Na história das crises do capitalismo, as
classes dominantes, proprietárias do capital, e seus
governos, adotaram um mesmo receituário para sair delas.
Primeiro, precisam destruir parte do capital
(super-acumulado e sem demanda) para abrir espaço a outro
processo de acumulação. Nos últimos meses já foram torrados
mais de 4 trilhões de dólares, em papel moeda.
Segundo, apelam para as guerras. Como forma
de destruir mercadorias (armas, munições, bens materiais,
instalações) e como forma de eliminar a tensão social dos
trabalhadores. E, de certa forma eliminam também o exercito
industrial de reserva. Foi assim, na primeira e a segunda
guerra mundial. E depois na guerra fria. Agora, com medo da
bomba atômica, estimulam conflitos regionais. Os ataques de
Israel ao povo palestino, as provocações na Índia, as
ameaças ao Iran, estão dentro dessa estratégia, também.
Aumentar os gastos militares e a destruição de bens.
Terceiro. Aumentar a exploração dos
trabalhadores. Ou seja, nas crises, baixam os salários
médios, rebaixam as condições de vida e por tanto de
reprodução da força de trabalho, para recuperar as taxas de
mais-valia e de acumulação. Daí também, o desemprego
ampliado, que mantêm multidões sobrevivendo apenas com
cestas básicas, etc..
Quarto: Há uma maior transferência de capital
da periferia para o centro do sistema. Isso é feito pela
transferência direta das empresas para suas matrizes.
Através da manipulação da taxa de cambio do dólar, do
pagamento de juros e da manipulação de preços das
mercadorias vendidas e compradas na periferia.
Quinto. O capital volta a usar o estado, como
o gestor da poupança da população para deslocar esses
recursos em beneficio do capital. Por tanto, os capitalistas
voltam a valorizar o estado, não como zelador dos interesses
da sociedade. Mas como capataz dos seus interesses, para
usar o poder compulsório e assim recolher o dinheiro de todo
mundo, através de impostos e da poupança depositada nos
bancos, para financiar a saída da crise.
Estamos assistindo a aplicação dessas medidas
clássicas todos os dias, registradas na imprensa. Aqui no
Brasil, no centro do capitalismo e em todo mundo.
Mas, como em tudo na vida, sempre há
contradições. Para cada ação do capital, do governo, etc.
haverá contradição, que a sociedade e os trabalhadores
sentem e podem se aproveitar delas, para mudar a situação.
Os períodos históricos de crises são também
períodos de mudanças. Para o bem ou para o mal. Mas haverá
mudanças! As crises abrem brechas e recolocam o
posicionamento das classes na sociedade. No Brasil, ainda
estamos apáticos, amorfos, desanimados, assistindo pela
televisão a descrição dos sintomas da crise chegando aqui.
Quase não houve reação ou comentários aos quase 800 mil
trabalhadores que perderam seus empregos somente em dezembro
de 2008. Não há comentários para a pesquisa do IPEA que
identificou entre as 17 milhões de famílias pobres do Brasil
do cadastro geral de benefíciários do governo, 79% deles
estão desempregados! E por receberam algum beneficio não
procuram mais empregos, e saem até das estatísticas.
É fundamental que os setores organizados da
sociedade, em todas as formas existentes, seja nas igrejas,
nos sindicatos, nos colégios, escolas, universidades, na
imprensa e movimentos sociais, partidos, tomemos uma
atitude. E a primeira atitude é debater a natureza e as
saídas para a crise, do ponto de vista dos trabalhadores e
da maioria. É urgente estimularmos todo tipo de debate, em
todos espaços. É louvável a iniciativa da TV educativa
Paraná, de estimular esse tipo de debate público. Mas ainda
é insuficiente. A crise será longa e profunda. Precisamos
envolver o maior numero possível de militantes, homens e
mulheres conscientes, para que debatam a situação e possamos
construir coletivamente alternativas populares. E sem a
mobilização e a luta social, não haverá saída para o povo.
Somente para o capital.
João Pedro Stedile, membro da
Coordenação Nacional do MST e da Via Campesina
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