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Brasil, país de velhos
por Michelle Amaral da Silva
Colaborador: Frei Betto
Daqui a 20 anos a pirâmide da faixa etária
brasileira vai virar de cabeça para baixo. O número de
idosos com mais de 80 anos crescerá 6% ao ano
16/10/2009
Frei Betto
O Brasil
está cada vez mais velho. Daqui a 20 anos a pirâmide da
faixa etária brasileira vai virar de cabeça para baixo. O
número de idosos com mais de 80 anos crescerá 6% ao ano
(hoje, aumenta 4% ao ano), enquanto haverá queda de
fecundidade e a população total começará a diminuir. Em 2010
começará a decrescer a faixa entre 15 e 29 anos. São dados
da pesquisa de Ana Amélia Camarano, do Ipea.
Na década
de 1980, acreditava-se que a população brasileira chegaria
aos 200 milhões em 2000. Não chegou. Hoje, somos 190
milhões. Devido à queda de fecundidade – hoje, de 1,8 filho
por mulher – só atingiremos aquele patamar em 2020. Em 2030
o Brasil terá 206,8 milhões de habitantes. Dez anos depois
cairá para 204,7 milhões.
Tais
mudanças terão impacto na previdência social, que hoje dá
cobertura a 60% da força de trabalho do país, sem no entanto
alcançar os 33,2% de trabalhadores informais.
Haverá
também efeitos no mercado de trabalho. Para evitar um número
excessivo de inativos, o país terá de investir em saúde
ocupacional e derrubar os preconceitos contra o trabalho de
idosos. Em alguns países, idosos têm preferência em certas
ocupações profissionais.
As grandes
famílias, como a minha – 8 irmãos -, ficam para os álbuns de
retrato. Hoje, a média nacional, tanto entre ricos quanto
entre pobres, é de 2,2 filhos por família.
No Brasil,
o número de idosos (21 milhões) já supera o de crianças
(19,4 milhões). O Rio de Janeiro é o estado com o maior
índice de pessoas com mais de 60 anos (14,9%).
A
fecundidade entre jovens de 15 a 19 anos, crescente até
2000, devido à erotização da cultura consumista e à
sexualidade precoce, hoje encontra-se em queda. Porém,
aumenta o número de meninas mães que moram com os pais ou
avós.
A média
nacional de durabilidade conjugal é de sete anos. O número
de mulheres se dilata no mercado de trabalho e, hoje, elas
já são responsáveis por 40% da renda familiar e chefiam 43%
das famílias brasileiras. Contudo, se por um lado elas têm
menos filhos, mais renda e mais escolaridade, por outro
continuam a assumir, ao contrário dos homens, dupla jornada
de trabalho. A pesquisa constata que a mulher que trabalha
gasta 20,9 horas semanais com o cuidado da casa, enquanto os
homens dedicam apenas 9,2 horas.
Ficar
velho virou tabu. Uma das causas é a desistorização do tempo
provocada pela ideologia neoliberal, de modo a nos incutir a
noção grega de tempo cíclico, que neutraliza os projetos
históricos e nos incute a ideia de perenização do presente;
leia-se: fora do capitalismo a humanidade não tem futuro.
Assim, todos queremos morrer jovens e esbeltos. É o elixir
da eterna juventude em frascos de virtualidade... Haja
malhação e cirurgias plásticas!
Na minha
infância, criança era a idade entre zero e 11 anos;
adolescente, entre 11 e 18; jovem, entre 18 e 30; adulto,
entre 30 e 50; velho, com mais de 50. Hoje, tem-se a
impressão de que criança é de zero a 20 anos – quando se
depende excessivamente dos cuidados paternos; adolescente,
dos 20 aos 40, pela insegurança nas opções de vida; jovem,
dos 40 em diante, ainda que se tenha 70 ou 90...
Ninguém
quer ser chamado de velho. Criam-se eufemismos: a terceira
idade, a dign/idade, a melhor idade (mentira, sou velho e
tive a melhor idade entre 20 e 30 anos). Ora, se é para
adotar um eufemismo realista, sugiro aos idosos se
considerarem a turma da eterna idade – já que estamos
próximos a ela.
A
contradição é que, enquanto aumentam os direitos sociais dos
velhos com mais de 65 anos – transporte coletivo gratuito,
filas exclusivas, aposentadoria etc –, se reduzem os hábitos
de respeito a eles. Raro ver um jovem ceder lugar no ônibus
ou metrô ao idoso ou mesmo ajudá-lo numa dificuldade na rua.
Há dias, vi uma gerente de loja negar a uma senhora com mais
de 80 anos o acesso ao banheiro.
Nada mais
ridículo do que os idosos que se recusam a aceitar os sinais
de velhice e buscam todo tipo de tratamento estético para
encobri-los. Esquecem que jovialidade não é uma questão de
aparência, e sim de cabeça. Conheço velhos gagás com apenas
30 anos e pessoas joviais com 92, como é o caso de minha
mãe, que lê dois jornais por dia, acompanha o noticiário
televisivo e participa de movimentos de reflexão e
solidariedade.
É preciso
saber envelhecer com sabedoria. E os antigos, como
Aristóteles, já nos prescreviam a receita: amizades,
exercícios físicos, alimentação saudável e cultivo da
espiritualidade.
Envelhecemos irremediavelmente quando deixamos de sonhar de
olhos abertos.
*Frei Betto é escritor, autor
de “Aquário negro” (contos), editora Agir, entre outros
livros. |
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