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Em que deu a globalização?
Adriano Benayon*
Publicado em A Nova
Democracia, nº 69, setembro de 2010
O que é a
globalização?
A
globalização é um estágio de maior intensidade da dominação
econômica e política mundial, caracterizado pela produção
expatriada, ou seja, pelo controle crescente da economia em
quase todo o mundo por um grupo cada vez menos numeroso de
empresas e bancos transnacionais.
A
diferença entre o período da globalização, claro a partir de
meados dos anos 50 do Século XX, e épocas anteriores da
expansão imperial, é que, naquele, a produção e outras
atividades empresariais em um país são realizadas sob
controle do capital estrangeiro, como acontece agudamente no
Brasil.
Isso já
existia antes, mas não era generalizado e abrangia somente,
e em parte, a finança e serviços públicos, como
eletricidade, gás e transportes e o planejamento e a
construção da respectiva infraestrutura. A globalização foi
acelerada com o uso de avanços tecnológicos nos transportes
e nas comunicações, inclusive informática.
Quem
comanda a dominação imperial
Desde
antes de 1700, a oligarquia financeira sediada em Londres
tem puxado os cordéis dos acontecimentos políticos na maior
parte do mundo. Esse império, quase absoluto até em torno de
1915, passou então a ser partilhado por grupos
norte-americanos, mas ligados à City de Londres. Esta,
ademais, faz parte do grupo de banqueiros que passou, desde
1914, a controlar a então criada Junta de Reserva Federal
dos EUA (FED), com profundos e quase absolutos poderes sobre
a finança dos EUA.
Pode-se,
assim, falar da oligarquia anglo-americana como a diretora
do poder mundial, a qual organizou as duas guerras mundiais
do Século XX, obtendo, através delas, êxito em tornar a
França, a Alemanha e o Japão potências subordinadas. Não
logrou, de imediato, o objetivo de enfraquecer a Rússia, o
que conseguiu, em grande parte, após mais de 40 anos de
“Guerra Fria”.
As nações
e Estados denominados EUA e Reino Unido são braços da
referida oligarquia, do mesmo modo que outras nações e
Estados se vêm tornando, cada vez mais, instrumentos dela.
Aqueles dois são os braços armados, principalmente os EUA,
cuja hegemonia militar, junto com o controle da mídia e da
ideologia, impõe a adesão dos “aliados”.
Os donos
do poder aplicam à risca a permanente lição de Maquiavel
(1469-1527): as bases do poder são as armas e o ouro. Na
prática, as armas têm garantido mais o ouro, do que o ouro
as armas.
De
qualquer modo, como notei no último artigo, a oligarquia
britânica controla os metais preciosos, mas ela e seus
associados norte-americanos os economizam, pois, par
financiar seu poderio militar, prevalecem-se do poder de
criar dinheiro falso, como o dólar. Falso, porque emitido em
quantidades inimaginavelmente copiosas, sem relação com a
produção real de bens e serviços.
Resultados
Depois de
as transnacionais sugarem, por meio da globalização,
países como o Brasil, situados fora do círculo dos centros
imperiais e de seus associados, analistas desses centros
passaram a lamentar que a globalização tivesse expatriado
para a China e outros países os empregos produtivos que
antes existiam dentro daquele círculo.
Na
realidade, a oligarquia financeira anglo-americana
intensificou, de forma brutal, a concentração da renda em
suas mãos, nos próprios EUA e no Reino Unido, criando
“produtos” financeiros como os derivativos, por meio dos
quais acumulou fortunas incalculáveis, ademais de modificar
a tributação em favor dos bilionários. Tudo isso deu no
colapso financeiro e na depressão, cuja crise mais aguda
ocorreu em 2007/2008 e pode ser sucedida por profunda
recaída.
Nesses
dois países-sedes da oligarquia, como em muitos outros, o
resultado foi a desindustrialização e o desemprego. Agora, a
indústria responde por só 11% do PIB dos EUA. Há não muito
tempo, ainda eram 18%. O desemprego oficial está em 9,5%,
graças à manipulação da estatística, pois o verdadeiro está
em torno de 20%.
Nada menos
que 40,8 milhões de pessoas dependem dos cupons de
alimentação do governo, e o número deverá passar de 43
milhões no próximo ano. A finança de Wall Street e seus
servidores no Congresso pretendem cortar esses gastos,
diante do brutal déficit orçamentário federal já de US$ 1,4
trilhão com tendência de muita alta. Não cogitam diminuir as
astronômicas despesas militares, nem deixar de privilegiar
os bancos causadores do colapso.
Um
parêntesis: as pessoas postas no governo brasileiro
esmeram-se em imitar os centros mundiais em matéria de
desindustrialização, favorecendo as importações com
políticas de juros, cambial e comercial suicidas. Por outro
lado, não cuidam de trazer ganhos financeiros para o Brasil:
ao contrário, o sistema financeiro daqui é organizado para
que os ganhos fluam para o exterior.
Agressões
imperiais em pauta
Outro
ponto em que diferimos diametralmente das potências
hegemônicas é que estas não se desindustrializam na área
militar, nos armamentos. Basta dizer que, enquanto o
desemprego nos EUA foi quase geral, isso não ocorre no setor
de “defesa”. As únicas cidades desse país em que os empregos
não diminuíram, mas, sim, cresceram, são San Antonio
(Texas), Virginia Beach (Virgínia) e a capital Washington,
porque as indústrias bélicas se concentram nestas duas, e os
empregos federais, como os do FBI e outros serviços
secretos, em Washington.
A
propósito, nos EUA, cerca de 1.271 organizações
governamentais e 1.931 empresas privadas trabalham com o “contraterrorismo”,
segurança interna e inteligência. 854 mil pessoas têm
credenciais de segurança ultra-secreta. O orçamento oficial
de inteligência dos EUA é de 75 bilhões de dólares, sem
incluir esse tipo de gastos no âmbito do Pentágono e dos
programas internos de “antiterrorismo”.
Para se
ter ideia do belicismo imperial, os EUA, além de terem
acumulado colossal acervo de armas, investem nisso 6,6 vezes
mais que o segundo colocado Os 10 primeiros nessa lista são:
Estados Unidos, 661 bilhões; China, 100; França, 63,9; Reino
Unido, 58,3; Rússia, 53,3; Japão, 51; Alemanha, 45,6;
Arábia Saudita, 41,3; Índia, 36,3; e Itália, 35,8.
Depois de
se ter aberto, nas zonas de exportação, aos investimentos
das transnacionais, e juntado mais de um trilhão de dólares
em reservas, recebendo, em troca da produção de seus
trabalhadores, moeda hiperinflacionada, a China aplicou os
dólares principalmente em títulos do Tesouro
norte-americano, destinados a ter seu valor dizimado.
Paralelamente ao serviço prestado aos ocidentais por seu
setor exportador – e eles ainda reclamam por ter perdido
empregos –, a China desenvolveu grande infraestrutura
industrial para o mercado interno. Por isso, é considerada
ameaça, já que os interesses imperiais não admitem nenhum
país em vias de tornar-se independente, um pouco que seja,
de sua dominação.
Não é
outra a razão pela qual as forças armadas dos EUA estão
realizando manobras de grande envergadura, com porta-aviões
e outras armas de ponta, nas costas da China, próximo ao
território desta.
A
administração de Obama é ainda mais agressiva que as
anteriores, pondo na ordem do dia operações de guerra, que
incluem o uso de armas nucleares táticas. O Irã é o alvo
imediato, junto com a Síria e o Líbano, e também estão
programadas pressões e/ou agressões contra a Coréia do Norte
e a Rússia, sem falar na China.
Por fim,
os governantes chineses parecem ter entendido que não faz
sentido financiar as operações bélicas dos EUA, comprando
títulos do Tesouro americano. Assim, o estoque da China
desses títulos em junho de 2010, de US$ 843 bilhões,
compara-se com US$ 915 bilhões em junho de 2009. O total dos
títulos do Tesouro dos EUA nas mãos de países estrangeiros
subiu de 3,46 trilhões para US$ 4 trilhões.
* Adriano Benayon é Doutor em
Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”,
editora Escrituras.
abenayon@brturbo.com.br |
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