Quem manda é a
indústria
por José
Saramago - 10 de maio de 2009
Não sei
nada do assunto e a experiência direta de haver convivido
com porcos na infância e na adolescência não me serve de
nada. Aquilo era mais uma família híbrida de humanos e
animais que outra coisa. Mas leio com atenção os jornais,
ouço e vejo as reportagens da rádio e da televisão, e,
graças a alguma leitura providencial que me tem ajudado a
compreender melhor os bastidores das causas primeiras da
anunciada pandemia, talvez possa trazer aqui algum dado que
esclareça por sua vez o leitor.
Há muito
tempo que os especialistas em virologia estão convencidos de
que o sistema de agricultura intensiva da China meridional
foi o principal vetor da mutação gripal: tanto da “deriva”
estacional como do episódico “intercâmbio” genômico. Há já
seis anos que a revista Science publicava um artigo
importante em que mostrava que, depois de anos de
estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte
havia dado um salto evolutivo vertiginoso. A
industrialização, por grandes empresas, da produção pecuária
rompeu o que até então tinha sido o monopólio natural da
China na evolução da gripe.
Nas
últimas décadas, o setor pecuário transformou-se em algo que
se parece mais à indústria petroquímica que à bucólica
quinta familiar que os livros de texto na escola se
comprazem em descrever… Em 1966, por exemplo, havia nos
Estados Unidos 53 milhões de suínos distribuídos por um
milhão de granjas. Atualmente, 65 milhões de porcos
concentram-se em 65.000 instalações. Isso significou passar
das antigas pocilgas aos ciclópicos infernos fecais de hoje,
nos quais, entre o esterco e sob um calor sufocante, prontos
para intercambiar agentes patogênicos à velocidade do raio,
se amontoam dezenas de milhões de animais com mais do que
debilitados sistemas imunitários. Não será, certamente, a
única causa, mas não poderá ser ignorada.
No ano
passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center
publicou um relatório sobre a “produção animal em granjas
industriais, onde se chamava a atenção para o grave perigo
de que a contínua circulação de vírus, característica das
enormes varas ou rebanhos, aumentasse as possibilidades de
aparecimento de novos vírus por processos de mutação ou de
recombinação que poderiam gerar vírus mais eficientes na
transmissão entre humanos”.
A comissão
alertou também para o fato de que o uso promíscuo de
antibióticos nas fábricas porcinas/de porcos – mais barato
que em ambientes humanos – estava proporcionando o auge de
infecções estafilocócicas resistentes, ao mesmo tempo que as
descargas residuais geravam manifestações de escherichia
coli e de pfiesteria (o protozoário que matou milhares de
peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou
dezenas de pescadores).
Qualquer
melhoria na ecologia deste novo agente patogênico teria que
enfrentar-se ao monstruoso poder dos grandes conglomerados
empresariais avícolas e bovinos, como Smithfield Farms
(suíno e vacum) e Tyson (frangos).
A comissão
falou de uma obstrução sistemática das suas investigações
por parte das grandes empresas, incluídas umas nada
recatadas ameaças de suprimir o financiamento dos
investigadores que cooperaram com a comissão. Trata-se de
uma indústria muito globalizada e com influências políticas.
Assim como o gigante avícola Charoen Pokphand, radicado em
Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre o
seu papel na propagação da gripe aviária no Sudeste
asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do
surto da gripe suína esbarre contra a pétrea muralha da
indústria do porco. Isso não quer dizer que não venha a
encontrar-se nunca um dedo acusador: já corre na imprensa
mexicana o rumor de um epicentro da gripe situado numa
gigantesca filial de Smithfield no estado de Veracruz. Mas o
mais importante é o bosque, não as árvores: a fracassada
estratégia antipandêmica da Organização Mundial de Saúde, o
progressivo deterioramento da saúde pública mundial, a
mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas
a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma
produção pecuária industrializada e ecologicamente sem
discernimento.
Como se
observa, os contágios são muito mais complicados que entrar
um vírus presumivelmente mortal nos pulmões de um cidadão
apanhado na teia dos interesses materiais e da falta de
escrúpulos das grandes empresas. Tudo está contagiando tudo.
A primeira morte, há longo tempo, foi a da honradez. Mas
poderá, realmente, pedir-se honradez a uma transnacional?
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