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11/03/2009
Exóticos são os desertos
verdes, não as campesinas
Katarina Peixoto
Elas não
são finalistas de prêmios categoria Mulher de Negócios. Nem
são lembradas quando o que está em jogo é o registro das
superações da mulher num espaço “essencialmente masculino”.
Não usam gravatas quando é moda, nem dão testemunho nas
magazines de consultório da dureza que parir, eventualmente
sem pré-natal, e educar filhos, sem-terra. Faz alguns anos
aparecem com a imagem de uma espécie exótica de terroristas
de lenços lilás nos rostos.
No mundo
invertido da sociedade espetacular mercantil, a verdade é um
momento do falso, disse Guy Debord. No caso das mulheres da
Via Campesina talvez se possa dizer que a verdade é um
momento do exótico. Um momento não de fabricações imagéticas
do terrorismo escondido sob lenços, mas de combate a uma das
mais bem sucedidas pragas do agronegócio no Brasil, os
desertos verdes de eucaliptos, pinus e variantes.
A verdade
como um momento da dialética destrutiva que assola a
sociedade e o campo brasileiros, afirmando todas as formas
de opressão e de mentira, passando pelo pensamento mágico do
delírio da dependência às commodities e deslizando
perversamente para a criminalização de todas as vozes e
foras que se lhes opõem.
As
mulheres da Via Campesina não têm terra, nem financiamentos
para plantar árvores exóticas a serem usadas em banheiros e
livrarias que não utilizarão. Nem são lembradas quando o que
está em jogo é a Balança Comercial. Raramente usam as
cadeiras de direção, inclusive do próprio movimento de que
fazem parte. No mundo invertido da sociedade espetacular, as
mulheres da Via Campesina são apresentadas como terroristas
que aparecem uma vez por ano, em média, para destruir tudo,
instar o ódio e semear a discórdia que ameaça a ciência das
multinacionais avessas ao pagamento de impostos.
As
mulheres da Via Campesina são exóticas, então. Onde há
desertos verdes, onde há seus cúmplices, onde há seus
beneficiários financeiros imediatos, onde há gravatas fora e
dentro da moda, usadas para enfeitar a mentira triunfante do
respeito a natureza, é só o que elas podem ser. Tão exóticas
como os desertos verdes são para a natureza e a soberania
alimentar dos países.
É assim
que, quando se comemora o Dia Mundial das Mulheres, este
momento verdadeiro se impõe. Não em magazines semanais a
vender conselhos, nem em cerimônias de prêmios “Mulher”,
regadas a espumantes e brindes ratificantes do caráter
exótico que assola os juízos de gênero, quer dizer o sexismo.
Exóticos são os desertos verdes.
É por isso
que, neste tempo de criminalização das diferenças, somos
todas campesinas. |