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10/03/2009
Usinas do Madeira levam
caos e riqueza a RO
Impactos das obras das
hidrelétricas geram pressão socioeconômica e podem levar a
capital Porto Velho ao colapso
Autoridades enfrentam dificuldades para aplicar recursos do
PAC, enquanto empresas e famílias não param de chegar ao
Estado
Julio Wiziack
Enviado especial a Rondônia
As usinas
hidrelétricas do rio Madeira, vitrines do PAC (Programa de
Aceleração do Crescimento), custarão R$ 21 bilhões e
injetarão R$ 8 bilhões por ano na economia de Rondônia até
2013. Promessa de bonança ao empobrecido Estado, elas já são
um dos empreendimentos mais caros da história e também um
dos mais controversos.
Procuradores federais pedem a cassação das licenças das
usinas e já levantam suspeitas sobre o seu financiamento.
Instituições civis acusam os construtores de ignorarem
impactos socioambientais. Autoridades locais temem que a
capital Porto Velho chegue ao colapso, caso os investimentos
em infraestrutura não saiam do papel. E o setor produtivo
está preocupado com a possibilidade de que o desenvolvimento
na região não seja sustentável.
Atraídas
pelas oportunidades, empresas já se instalam na região, e
famílias desembarcam semanalmente na capital Porto Velho. Em
apenas seis meses de obras, já ocorrem efeitos previstos no
Projeto Básico Ambiental para três anos.
"Subestimamos alguns impactos", afirma o vice-prefeito de
Porto Velho, Emerson Castro (PMDB-RO). "Agora estamos
trocando a roda com o carro em movimento." Castro informa
que boa parte das verbas do PAC não é aplicada porque os
grupos locais não atendem às exigências das licitações.
"Muitos não se qualificam com o excesso de garantias
bancárias", diz Castro. "E as grandes empresas não se
interessam por obras pequenas".
O
resultado é um déficit de 2.000 vagas nas escolas públicas.
A espera por atendimento nos hospitais chega a dois dias. A
falta de leitos deixa pacientes em estado grave à espera de
cirurgias por meses. As ruas mal asfaltadas, sem calçamento,
estacionamentos e sinalização, não comportam os 135 mil
veículos que circulam pela cidade.
Antes do
tempo
Para
antecipar a inauguração das usinas, Saesa e Enersus, os
consórcios empresariais que constroem Santo Antônio e Jirau,
respectivamente, atropelam o plano de mitigação, nome das
práticas que minimizariam os impactos negativos.
O
cumprimento dos planos de mitigação foi determinação do
Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis), que, segundo o MPF (Ministério Público
Federal) de Rondônia, transformou as inconsistências dos
projetos, detectadas pela equipe técnica do órgão, em cerca
de cem condicionantes.
O fundo do
rio, rico em depósitos de mercúrio após duas décadas de
garimpo de ouro, está sendo remexido em Santo Antônio sem
que um programa de estudo tivesse sido implantado. A estação
de captação de água da cidade fica praticamente dentro do
canteiro de obras. Para que ela não fosse inutilizada pela
usina, a Saesa alterou o projeto original, aprovado pelo
Ibama, e mudou a disposição do eixo da hidrelétrica a pedido
da Prefeitura de Porto Velho.
Pescadores
afirmam que os peixes sumiram antes da atual desova e da
mortandade de 11 toneladas. O episódio, ocorrido no final de
2008, levou o Ibama a multar a Saesa em R$ 7,7 milhões e a
pedir ao MPF abertura de ação criminal. Ainda segundo o
Ibama, a empresa não fez o monitoramento da água (outro
programa de mitigação), algo que, para os ribeirinhos,
estaria afugentando os peixes. Muitos pescadores trocaram a
atividade, que garantia até R$ 2.500 por mês, pela
construção civil, ganhando até 60% menos.
Os
garimpeiros só podem atuar se fizerem parte das associações
que receberam PLG (Permissão de Lavra Garimpeira). Antes,
elas eram concedidas individualmente pelo DNPM (Departamento
Nacional de Produção Mineral). Como a maior parte das PLGs
individuais está vencida, 3.900 garimpeiros operam na
clandestinidade, segundo o deputado federal Lindomar Garçon
(PV-RO). Ele diz ter intercedido pelos garimpeiros, que
acusam a Saesa de pressionar o DNPM para "isolar" as usinas.
O
presidente da Associação Comunitária e Rural, Luís Maximo,
que representa cerca de 600 famílias, afirma que após a
liberação da DUP (Declaração de Utilidade Pública), a Saesa
antecipou a retirada das 63 famílias, pressionando para que
aceitassem sua oferta. Quem fechou negócio foi morar em
imóveis alugados até que a construção de suas casas
definitivas fosse concluída. O atraso no pagamento dos
aluguéis chegou a quatro meses.
Vestígios
arqueológicos estariam desaparecendo. A Folha apurou
que só 10% dos achados foram catalogados. Os índios também
protestam, principalmente em Jirau. "Quatro grupos isolados
serão afetados", afirma Telma Monteiro, coordenadora de
energia da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé. Jirau
chegou a ficar embargada devido à multa de R$ 950 mil
aplicada pelo Ibama ao Enersus por iniciar a obra sem
licença. Na semana passada, o governo estadual recuou e
suspendeu parte da obra por impactar áreas de conservação
ambiental.
O MPF
prepara nova onda de ações contra os empreendimentos. "As
usinas são importantes, mas isso não justifica as
irregularidades na realização das obras", diz o procurador
federal Heitor Alves Soares.
Polêmicas ambientais e crise afastam financiamento de
investidores privados
Do enviado a Rondônia
Seis meses
após o início das obras da hidrelétrica de Santo Antônio, os
bancos Santander e Banif, que participam com 20% da Saesa,
empresa que constrói a usina, ainda não conseguiram
investidores para o empreendimento. É o que afirma Roberto
Simões, presidente da Saesa.
Santander
e Banif decidiram entrar como sócios por meio de um FIP
(Fundo de Investimento Privado). O objetivo era vender as
cotas do fundo e ficar no projeto como gestores. Os cotistas
seriam os responsáveis pelos aportes de capital.
Os bancos
privados estão relutantes em participar do FIP. O prazo de
financiamento seria longo demais, os retornos do
investimento, duvidosos (devido às previsões de queda no
preço da energia no mercado livre), e os riscos
socioambientais, elevados.
Além
disso, organizações civis questionam a participação dessas
instituições, principalmente as signatárias dos Princípios
do Equador -práticas definidas pelo Banco Mundial que
recomendam a não-concessão de financiamentos a projetos cujo
impacto socioambiental não é devidamente calculado ou
mitigado.
É o caso
de Bradesco, Unibanco e Banco do Brasil, que, para Roland
Widmer, gerente da Oscip Amigos da Terra, estão em desacordo
com suas políticas de sustentabilidade ao participarem do
projeto como repassadores de recursos do BNDES (Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Consultados, os bancos afirmam que o protocolo dá
flexibilidade para que se retirem em caso de problemas,
inexistentes até o momento.
O MPF
(Ministério Publico Federal) de Rondônia também está
monitorando a participação dessas instituições e suspeita de
irregularidades no Banco da Amazônia, que aprovou
financiamento de R$ 503 milhões para a Saesa.
O banco
estatal usou recursos do FNO (Fundo Constitucional do Norte)
e o valor máximo permitido seria de R$ 159 milhões. O FNO é
alimentado pela arrecadação de impostos. O diretor comercial
do Banco da Amazônia, Gilvandro Negrão, afirmou à Folha que
o limite seria de R$ 445 milhões para um período de três
anos. Ainda assim, esse teto foi ultrapassado em R$ 58
milhões, diferença que, segundo ele, será coberta com
recursos próprios.
O MPF
determinou que o Banco da Amazônia enviasse os documentos
desse financiamento. O banco negou, alegando sigilo
comercial. Até o momento, as usinas hidrelétricas do rio
Madeira estão sendo custeadas basicamente com dinheiro
público. (JW)
Estado
busca crescimento sustentável
Hidrelétricas inauguram "surto de progresso"
e abrem oportunidades de negócios; empresas anunciam
investimentos
Votorantim, Carrefour, Alstom-Bardela e
Makro, entre outros, decidiram se instalar em Rondônia, que
precisa de infraestrutura
108 obras em andamento na capital Porto
Velho, onde o metro quadrado chega a custar R$ 3.000
Do enviado a Rondônia
As usinas
do rio Madeira abrem uma nova fase em Rondônia, que já
experimentou dois surtos de progresso com a construção da
estrada de ferro Madeira-Mamoré, desativada em 1966, e o
garimpo de ouro, entre 1970 e 1990. "Desta vez é diferente",
diz Dênis Baú, presidente da Fiero (Federação das Indústrias
de Rondônia). "Estamos falando de investimentos de R$ 21
bilhões".
Isso não
quer dizer que a euforia esteja anulando a preocupação. Há o
temor de que o Estado não consiga concluir os investimentos
em infraestrutura para suportar as empresas que já se
instalam na região e as que estão negociando sua chegada. Em
Rondônia, só 2% dos domicílios têm rede de esgoto, e 17%,
água encanada.
Outra
preocupação da Fiero é o treinamento da mão-de-obra local
para atender não só as usinas como o mercado local, que, se
espera, estará muito mais aquecido em sete anos. "Por isso,
queremos encontrar nossa vocação econômica para que, depois
das usinas prontas, possamos continuar crescendo," diz Baú.
Uma das
ideias da federação é transformar o Estado em uma
alternativa em logística para os exportadores. "Com a
conclusão da rodovia Transoceânica, que ligará o Pacífico ao
Atlântico em um ano e meio, e a construção das eclusas no
Madeira, podemos ser um polo de embarques." Para Baú, os
exportadores poderiam optar ali entre o transporte
rodoviário, aéreo ou fluvial. "O custo do frete para as
empresas pode sofrer redução de até 30%".
Explosão
do consumo
Enquanto
isso, 108 empreendimentos imobiliários estão em andamento em
Porto Velho. Construtoras como a Gafisa fecharam parceria
com empresários locais e lançaram residenciais, cujo preço
chega a R$ 1 milhão. "O metro quadrado aqui custa R$ 3.000",
afirma Alessandro de Oliveira Lima, diretor da GM
Engenharia, parceira da Gafisa. O preço é comparável ao dos
Jardins, bairro nobre de São Paulo.
O
empresário Uyrandê José Castro, da construtora Aquarius,
inovou com o lançamento de um hotel e de flats para
executivos. Os preços variam entre R$ 129 mil e R$ 169 mil.
"Muitos estão comprando como investimento", diz Castro.
Os
clientes de alto poder aquisitivo representam 30 mil
consumidores no Estado, cuja população é de 1,5 milhão de
habitantes. Mas também há projetos para a população de baixa
renda. A Odebrecht, que constrói a usina de Santo Antônio,
lançou o Bairro Novo, conjunto residencial para famílias que
ganham entre três e dez salários mínimos.
Empresas
como Votorantim, Alstom-Bardela, Makro, Carrefour,
McDonald's e as bandeiras de hotéis Ibis e Sleep Inn estão
abrindo filiais em Rondônia. Porto Velho viu a primeira
escada rolante ser instalada no shopping da cidade em
outubro de 2008, onde Americanas, Renner, Richards, Ellus e
Kopenhagen possuem lojas.
O segundo
shopping já está em andamento e deverá ficar pronto em dois
anos. Na cidade, também há grifes de luxo como Calvin Klein
Jeans e Carmen Steffens.
Outro
sinal de que o consumo está em alta é a venda de carros.
Apenas em janeiro deste ano foram emplacados 1.561 veículos
na capital, onde há concessionárias de Honda, Peugeot e
Citröen, entre outras. O crédito é o motor do comércio, com
promoções e venda parcelada a juros baixos.
Esses
efeitos também ocorrem em cidades menores. Situado a 90 km
da capital Porto Velho, o distrito de Jaci-Paraná mudou nos
últimos dois anos no rastro das usinas de Santo Antônio e
Jirau.
Nesse
período, a população saltou de 9.000 para 13 mil. Lá não há
ruas asfaltadas, água encanada nem esgoto. A energia é
gerada pela queima de óleo diesel. Em meio a esse cenário,
já existem lan houses, escritórios de advocacia e lojas que
vendem fogões, geladeiras, parabólicas e micro-ondas.
A
especulação fez casas de madeira com menos de 60 metros
quadrados serem alugadas por R$ 1 mil. Unidades maiores em
alvenaria são alugadas por R$ 6.000. Terrenos são vendidos
por R$ 30 mil, nove vezes mais que há dois anos, e não há
registros de imóveis. A região é fruto da ocupação
irregular.
A euforia
existente em Jaci-Paraná não é a mesma encontrada na capital
Porto Velho, onde os moradores apoiam a construção das
usinas, mas ainda não têm certeza da estabilidade do
crescimento na região. "Aqui o crescimento vai durar", diz
Joel Binos de Jesus, administrador de Jaci-Paraná. "Já
estamos até negociando a emancipação. Nosso distrito será um
novo município." (JW)
Frases
"Subestimamos alguns impactos. Agora estamos trocando a roda
com o carro em movimento. [...] Muitos [grupos empresariais]
não se qualificam [às licitações públicas para obras de
infraestrutura] com o excesso de garantias bancárias".
Emerson
Castro
vice-prefeito de Porto Velho
"As usinas
são importantes, mas isso não justifica as irregularidades
na realização das obras. Há, inclusive, suspeitas sobre o
financiamento do Banco da Amazônia em Santo Antônio".
Heitor
Alves Soares
procurador público federal de RO
outro
lado
Empresa diz que cumpre programas
Do enviado a Rondônia
Saesa e
Enersus afirmam que os programas de mitigação estão sendo
devidamente seguidos e que, para acelerar o cumprimento,
passaram a atuar em conjunto. "São ações parecidas. Por
isso, decidimos somar esforços", diz Roberto Simões,
presidente da Saesa, responsável por Santo Antônio.
Para
aliviar a pressão socioambiental em Porto Velho, Simões
afirma que estão previstos desembolsos de R$ 600 milhões
para a construção de hospitais, postos de saúde e escolas.
"Alguns já foram inaugurados," diz.
A multa do
Ibama à Saesa pela mortandade de 11 toneladas de peixes foi
contestada. A empresa afirma que a quantidade representou só
5% dos peixes retirados com vida das ensecadeiras, diques
construídos para conter o rio. Além disso, o valor de R$ 500
por quilo de peixe definido como base de cálculo da multa
foi considerado exagerado. "O quilo custa R$ 14 no mercado".
Ricardo
Márcio, responsável pelas mitigações de Santo Antônio,
informa que a redução da oferta de peixes não é consequência
da usina. "Ela já era escassa antes." Mesmo assim, a Saesa
está compensando os pescadores que provarem suas perdas.
"Também a
proibição do garimpo é anterior à usina", diz Márcio. A
Saesa nega que tenha feito pressão sobre o DNPM
(Departamento Nacional de Produção Mineral) para que
"isolasse" Santo Antônio. O DNPM não retornou à reportagem.
Embasamento
O programa
de monitoramento do mercúrio será implantado em duas
frentes. A primeira prevê o acompanhamento da presença do
elemento químico na água e em plantas, peixes e outras
espécies, além dos sedimentos do rio. Ribeirinhos que têm o
peixe como base de sua alimentação serão acompanhados
através da dosagem de mercúrio no cabelo e no leite materno.
Márcio diz
que todas as negociações de indenização foram respeitadas e
não houve pressão. "O que aconteceu é que quem não tinha
registro de propriedade não recebeu pela terra, só pelas
benfeitorias".
Ainda
segundo ele, foram gastos cerca de R$ 7 milhões nas
desapropriações das 63 famílias e houve atraso dos aluguéis.
"Havia problema na documentação de alguns proprietários e,
por isso, não conseguíamos fechar os contratos. Nenhuma
família foi prejudicada".
Os achados
arqueológicos estão sendo catalogados e transferidos para um
local adequado. "Tudo é feito sob supervisão do Iphan
[Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional]".
A Enersus,
responsável peal Usina de Jirau, considera que sua atuação
não teve embasamento jurídico porque a obra está coberta
pela licença de instalação. A empresa contesta que a
alteração do eixo da usina em 9km afete grupos indígenas
isolados e diz que essa questão foi encerrada com a
concessão da licença. (JW) |