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Classe
trabalhadora trava duas batalhas
Duas batalhas estão sendo travadas pela classe trabalhadora
brasileira: a revisão dos índices de produtividade da terra e a redução da jornada de trabalho.
Por César
Sanson*
Comecemos pelo que atinge mais diretamente os trabalhadores
do campo. Os índices de produtividade transformaram-se no
cavalo de batalha para a reforma agrária. Opõem em
trincheiras diferentes o movimento social e os ruralistas. E
também o governo: de um lado está o Ministério do
Desenvolvimento Agrário (MDA), e do outro o Ministério da
Agricultura. E no meio, o presidente Lula.
Em um país com dimensões continentais, a possibilidade da
reforma agrária está estreitamente ligada à produtividade
das terras. Ela tornou-se o critério por excelência para a
desapropriação e a partilha das terras no Brasil. Nem mesmo
outros critérios – como a justiça social e a extensão das
terras – são levados em consideração.
O índice de produtividade indica se determinada propriedade
rural é ou não considerada produtiva e, portanto, passível
de ser desapropriada para fins de reforma agrária. A Lei
determina que os "parâmetros, índices e indicadores que
informam o conceito de produtividade serão ajustados,
periodicamente, de modo a levar em conta o progresso
científico e tecnológico da agricultura e do desenvolvimento
regional". No entanto, a última atualização ocorreu em 1980
com base no censo agropecuário de 1975.
De lá para cá, o campo foi palco de uma verdadeira
revolução. Na safra de 1985/1986, foram colhidos pouco menos
de 54 milhões de toneladas de grãos. Atualmente, as safras
ultrapassam os 140 milhões de toneladas. As novas
tecnologias encontraram campo fértil na agricultura.
Portanto, o que se vê é que o aumento de produção está
diretamente vinculado com o aumento da produtividade das
lavouras. Ou seja, hoje, produzir mais não está relacionado
ao aumento da área cultivável.
Neste contexto, a revisão dos índices de produtividade é
mais do que legítima e justa, ao mesmo tempo se trata de uma
antiga bandeira do movimento social, especialmente do
Movimento Sem Terra, e uma promessa do Governo Lula. O tema
mexe com fortes interesses econômicos e políticos. Espera-se
que Lula não recue em seu compromisso com o movimento
social.
Outra batalha histórica travada pela classe trabalhadora é a
redução da jornada de trabalho. Em junho passado, a Comissão
Especial da Redução da Jornada da Câmara dos Deputados
aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 231, de
1995, que propõe a redução da jornada de 44 horas semanais
para 40 horas e o aumento da remuneração da hora-extra de
50% do valor do salário-hora para 75%.
A proposta já está a 14 anos em tramitação no Congresso. Há
um ano, as centrais sindicais entregaram um abaixo-assinado
com 1,5 milhão de assinaturas no Congresso pedindo a redução
da jornada sem alteração nos salários.
De acordo com o DIEESE e as centrais sindicais que apóiam e
defendem a proposta, a medida, se aprovada, criaria 2,2
milhões de novos empregos. A redução da jornada de trabalho
é necessária, desejável e justa. É um anseio da sociedade.
Até porque trabalhar mais não é sinônimo de maior
produtividade.
Essas duas batalhas, a revisão dos índices de produtividade
da terra para efeitos de reforma agrária e a redução da
jornada de trabalho são temas que voltaram com força na
agenda e depois de décadas podem avançar. Destaque-se que,
hoje, aprovar a revisão dos índices de produtividade da
terra e a redução da jornada para 40 horas nada mais seriam
do que mera atualização da própria racionalidade econômica.
Mesmo assim, vê-se que as reações são virulentas por parte
da elite brasileira. Aqui também se manifesta o caráter
“fraco” do governo Lula, que não toma posição e fica
arbitrando. A grande questão é, particularmente no tocante à
revisão dos índices de produtividade, se Lula terá coragem
de peitar o agronegócio e seus aliados, que se encontram
inclusive no seu próprio Governo.
*Pesquisador do Centro de
Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores e doutor em sociologia
pela UFPR. (Texto publicado originalmente na Radioagência
NP). |