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07/05/2009
Sérgio Lessa: Para entender a essência
do capitalismo
por Michelle Amaral da Silva
Fonte: brasildefato.com.br
Diante da
atual crise, “não há o que fazer, a não ser a revolução”,
resume sociólogo ao abrir o curso promovido pelo jornal
Brasil de Fato sobre Crise do Capitalismo em parceria com a
Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), Departamento de
Jornalismo da PUC-SP e pelo CEPIS-Instituto Sedes Sapientiae,
Eduardo Sales de Lima.
“Se o
István Mészáros estiver certo, e se o Georg Lukács também
estiver, a gente vive o desdobramento final de todas as
determinações essenciais do modo de produção capitalista”,
defende Sérgio Lessa, professor da Universidade Federal de
Alagoas (UFAL) e membro da comissão editorial da revista
Crítica Marxista, no seminário “O referencial teórico para
entender a crise”, ocorrido no Instituto Sedes Sapientiae,
na cidade de São Paulo, no dia 29 de abril.
Otimista,
Lessa acredita nas novas possibilidades que a atual crise do
capitalismo propiciou aos trabalhadores. “A crise é uma
relação social”, por isso, segundo ele, o que determina o
percurso de uma crise será como a humanidade vai reagir à
crise. Abaixo, alguns trechos do seminário, promovido pela
Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), Departamento de
Jornalismo da PUC-SP e pelo CEPIS-Instituto Sedes Sapientiae,
com o apoio do jornal Brasil de Fato e da editora Expressão
Popular.
Primórdios
Primeiramente, a gente tem que ir para a revolução
neolítica, há 14 mil atrás. Nessa época, quando a humanidade
descobre a agricultura, temos uma profunda transformação no
trabalho. Com o aparecimento da agricultura, pela primeira
vez, o indivíduo produz mais do que precisa. É o chamado
trabalho excedente.
Todavia,
nesse longo período histórico, que vai de 14 mil anos atrás
até a revolução industrial, que começa em 1776 e termina em
1830, o trabalho excedente ainda não é suficiente para
atender a todas as necessidades de todos os indivíduos do
planeta Terra. Ou seja, não sobra para investir no
desenvolvimento das forças produtivas. E o resultado disso é
que o único desenvolvimento das forças produtivas possível
nessa circunstância é o aumento populacional, aumento a
força de trabalho; mas isso é um processo muito lento do
ponto de vista histórico.
Sociedade de classes
A
sociedade de classes entra nesse longo processo histórico
como a forma mais eficiente que a humanidade encontrou para
desenvolver as forças produtivas. A sociedade se organiza de
tal forma que a maioria da população vai ter o seu trabalho
excedente expropriado, roubado pela minoria. O resultado é
que essa minoria arrecada tanto recurso, tanta riqueza, que
ela não consegue consumir a riqueza que arrecada e, portanto
sobra para ela desenvolver os seus negócios.
Mediação
O
desenvolvimento das forças produtivas nas sociedades de
classes, em linhas gerais, a procura é maior que a oferta.
Assim, a tendência é que o preço de determinado produto
fique acima do preço de custo, proporcionando o lucro. Essa
mediação do mercado (relação mercantil), é historicamente
muito adequada para que o período de carência seja superada;
não o de miséria.
Pela
primeira vez a humanidade produz mais do que ela precisa, de
uma forma plena, e sobra para desenvolver as forças
produtivas. Pela primeira vez a oferta fica muito maior que
a procura. O mercado vai se tornando um mercado saturado,
com uma produção maior que a necessidade. E o resultado
disso é que pela primeira vez, ao longo da história da
humanidade, o mercado não funciona mais como uma mediação
adequada para desenvolver as forças produtivas. A mediação
do mercado faz com que de tempo em tempo haja uma baita
crise que trava a produção. Chega um determinado momento em
que a produção não pode continuar aumentando porque os
preços não compensam mais. Saímos de um longo período
histórico em que as relações mercantis levavam a produção
para frente, mas que depois passa a ser travada por crises
sucessivas. É o que Marx vai chamar de crises cíclicas.
Revolução industrial
Há
evolução histórica que muda de patamar quando se passa pela
revolução industrial, ou seja, quando a gente entra no
capitalismo industrial, no capitalismo maduro. Antes desse
momento histórico, as relações mercantis tinham uma mediação
adequada para levar as forças produtivas para frente.
Portanto, produzir por lucro e não para atender as
necessidades humanas, ou produzir para reproduzir de uma
forma ampliada a propriedade privada da classe dominante era
o meio mais adequado do ponto de vista histórico para
desenvolver as forças produtivas.
Pela
primeira vez na humanidade a produção para o lucro passa a
ser um entrave às forças produtivas. E só dá para superar
esse modo de produção antagônico se o modo de produção
capitalista for superado.
Entre o
final da revolução industrial (1830) e a grande crise de
1870-71, Karl Marx percebe que o modo de produção
capitalista do século 19 só pode se reproduzir aumentando a
produção cada vez mais. Ao mesmo tempo, para gerar essa
produção cada vez maior tem que desenvolver tecnologia,
desenvolver novos métodos de gerência, é necessário fazer
cada vez mais investimento para aumentar o lucro de uma
forma cada vez menor. A relação entre o que se tira da
mais-valia e o que é investido vai fazer com que o
investimento vai se tornando cada vez mais pesado. Isso faz
com que o lucro da empresa aumente, mas a lucratividade, ou
seja, a relação entre o lucro e o investimento vai
diminuindo . Isso vai fazer com as empresas tenham uma
margem de manobra cada vez menor. Elas vão tendo cada vez
menos gordura para queimar e quando chega a crise, essa bate
nelas de uma forma muito mais violenta.
Então Marx
vai mostrando que o capitalismo do século 19 é composto de
crise repetidamente. E essas crises aparecem entre 8 e 12
anos. Quando Marx está dizendo que o capitalismo não pode
mais desenvolver as forças produtivas, ele não está dizendo
que o capitalismo não pode desenvolver a produção ou a
tecnologia. O que são as forças produtivas para o Marx? É a
capacidade humana de tirar da natureza aquilo que a
humanidade precisa para se reproduzir e quanto maior for
essa capacidade significa que menos tempo a gente tem que
gastar transformando a natureza e mais tempo a gente pode
ser livre dessa relação com a natureza. Portanto, mais tempo
a gente pode ser humano. A relação do capital com a
humanidade não é uma relação de identidade, é uma relação de
alienação.
Se Marx está dizendo que existe uma
contradição antagônica entre o desenvolvimento das forças
produtivas e o modo de produção capitalista, ele está
dizendo que o capital é capaz de controlar a humanidade.
Enquanto existir capital, todos nós seremos personificações
do capital. Isso está no livro primeira d'O Capital.
Imperialismo
Chegando nos anos de 1870-71, o capitalismo
começa a passar por uma transformação importantíssima.
Saímos do período do capitalismo concorrencial e entramos
para o capitalismo monopolista. São duas diferenças
fundamentais. Em primeiro lugar, os grandes monopólios
passam a ter uma interferência sobre o Estado
qualitativamente diferente do que se tinha antes. Houve uma
concentração do capital na esfera econômica que mudou as
relações de poder no interior da classe dominante, portanto,
as relações da classe dominante com o Estado também se
alteram.
Por causa disso começa o “imperialismo” .
Claro que o capital já era imperialista antes. Mas a partir
de 1870, a política externa dos grandes estados capitalistas
está diretamente ditada pelos grandes monopólios e grandes
cartéis.
Nos poucos países capitalistas centrais
acontece um fenômeno curioso. A generalização da produção
industrial vai fazer com que fique mais barato comprar a
roupa, o feijão, industrializado, do que ele fazer isso na
casa dele. A partir dessa industrializaçã o dos meios de
subsistência a burguesia começa a ter lucro por causa do
consumo operário. A burguesia passa a ter lucro porque está
vendendo os produtos industrializados e porque como a
reprodução da vida do trabalhador se torna mais barata, ela
pode pagar um salário menor, e com isso aumenta a
mais-valia.
Aproximação
Pela primeira vez no modo de produção
capitalista passa a ser possível a um setor importante a
classe operária negociar com a burguesia um aumento de sua
capacidade de consumo e passa a haver, dentro de limites
muito estreitos, a possibilidade de uma convergência entre
setores da classe operária com a burguesia. Isso possibilita
o racha a classe operária nos países capitalistas avançados
e com os trabalhadores do resto do mundo.
Estados Unidos
Lentamente o aumento do consumo dos
trabalhadores aparece como um fator de crescimento econômico
importante nos países capitalistas mais avançados, e o
resultado disso é que a gente deixa de ter aquelas crises
cíclicas como ocorriam no século 19. Agora, a primeira
grande crise do século 20 vai ser administrada com a
Primeira Guerra Mundial. A segunda grande crise, que vai
acontecer em 1929, vai ser administrada com a ascensão do
nazi-fascismo.
Quando está terminando a Segunda Guerra
Mundial, a economia capitalista está numa situação
dificílima. O grosso da principal economia capitalista
mundial está destruída pela guerra. Japão, completamente
arrasado. Todos os grandes pólos industriais da Europa,
arrasados. Mas os Estados Unidos terminam a Segunda Guerra
Mundial produzindo mais da metade da produção industrial do
mundo. Com 6% da população mundial, consomem 30% da energia
que o mundo consome. Produzem um navio de guerra por dia, um
tanque a cada sete minutos. Era uma produção gigantesca. E
do dia pra noite a guerra termina em ao tem onde escoar essa
produção.
Bem-estar social
Em 1943, depois de Batalha de Stalingrado,
quando ficou claro que a Alemanha iria perder a guerra, o
governo estadunidense reúne um grupo de pensadores para
pensar o que iria ser a economia mundial no período
pós-guerra e deste grupo, um cara que vai se tornar chave, o
Dan Bright, um liberal clássico, portanto um serviçal do
imperialismo.
E ele vai dizer o que o Keynes disse na crise
de 1929; que no curto prazo o jeito de superar a crise não
era como se fez em 1929, quando as indústrias cortaram a
produção e demitiram. Com isso, segundo ele, restringiram o
mercado consumidor, gerando mais desemprego, quebrando a
indústria, a agricultura, os bancos. Ele vai dizer que tem
que se fazer o inverso. Temos que fazer uma política
econômica através da qual o Estado intervenha na economia
para aumentar o consumo e a gente vai sair da crise de
superprodução com a intervenção do Estado para ampliar o
consumo.
Isso era politicamente possível porque
existia um classe operária dos países capitalistas centrais
que desde 1915 vinham desenvolvendo essa política, não mais
de confronto, mas de negociação com a burguesia para
aumentar o seu poder aquisitivo, é o Estado de bem-estar
social.
Do outro lado havia a União Soviética. O
projeto bolchevique de uma revolução internacional não dá
certo por infinitas razões históricas, não apenas
ideológicas. O fato é que, com o passar do tempo, a política
externa da União Soviética passa a ser cada vez mais a
defesa do Estado soviético.
Após a Segunda Guerra Mundial passa-se a
haver uma negociação cada vez mais intensa entre a União
Soviética e os grandes países capitalistas, a política dos
partidos comunistas ligados à União Soviética no resto do
mundo transformou- se em uma política de negociação e
pressão junto aos governos capitalistas e não de confronto
para derrubar o capitalismo.
Nesse momento, a social-democracia e o
estalinismo, para simplificar, eles convergem no mesmo
sentido. O que vai subexistindo é um processo de máquina
partidária, de máquina sindical, e um processo de educação
do trabalhador durante décadas, na qual a negociação é o
principal instrumento dos trabalhadores, e o confronto é
sempre parcial, pontual, se tornando, de fato, um acessório
da negociação.
Novo Patamar
Quando o estado de bem-estar social, já no
final da década de 1960, não consegue consumir a abundância
da produção, a crise do modo de produção capitalista entra
num novo patamar. A crise não tem fim. Ela se transformou na
única forma que o modo de produção capitalista tem de se
reproduzir. Num primeiro momento, ela se apropria da riqueza
capitalista acumulada sob a forma da propriedade estatal
capitalista burguesa; pega essa riqueza e privatiza, ou
seja, queima essa riqueza para financiar a crise que está
girando, que foi a primeira fase do neoliberalismo. Depois,
quando não dá mais conta, a economia começa a viver, de um
lado, da especulação financeira, e do outro lado, de bolhas.
Na medida em que a especulação financeira deixa de ser uma
prática pontual e passa a ser a prática cotidiana de vários
grupos capitalistas, um começa a apostar no outro.
Neoliberalismo
Quando da crise do estado de bem-estar social
se passou para a crise estrutural, era o momento para a
classe operária se lançar às lutas. Defender as suas
conquistas, defender o Estado de bem-estar social. Mas por
que não fez isso? Porque no período do Estado de bem-estar
social não era dela. Nem projeto social democrata e nem o
projeto democrático estalinista. Deu no que deu. Os
sindicatos sociais democratas viraram as costas. Como o CUT
fez aqui quando os petroleiros fizeram a greve contra o
governo FHC, em 1995. Ali era o momento de quebrar o
(governo) Fernando Henrique. A CUT jogou o papel do
neoliberalismo. Por que? Porque é uma estratégia de
negociação democrática. Não é um confronto. No momento de
crise estamos todos juntos.
Quando vem o neoliberalismo, quando se
instala a crise estrutural, a classe operária tem atrás de
si uma enorme derrota histórica, porque ela não tem mais nem
a ideologia do confronto e nem as organizações que poderiam
leva-la ao confronto.
A burguesia consegue, nesse momento de crise
estrutural, fazer com a classe operária o que ela quis
fazer. Fez a reestruturação produtiva, aumentou barbaramente
o desemprego, intensificou a jornada de trabalho. A
burguesia voltou a ter em plena crise estrutural uma
lucratividade maior que a lucratividade durante o período do
bem-estar social. O estudo dele indica que no apogeu do
neoliberalismo a lucratividade foi maior que sob o Estado do
bem estar social. Foi uma das maiores que a burguesia teve
ao longo da sua história.
Não há mais riqueza sob a forma estatal para
ser privatizada, para financiar a crise. Jogou a África na
miséria, criou pólos de miséria nos próprios países
capitalistas centrais, e mais sério que isso: intensificou
ainda mais a exploração sobre os países capitalistas
periféricos e o resultado disso é que o mercado consumidor
desses países se contraiu também. Isso vai fazer com que a
gente chegue a um determinado momento que nem as bolhas
conseguem mais sobreviver. Aí começa a crise de outubro do
ano passado.
Caminhos
Desde a década de 1970, o Istvan Mesários vem
dizendo que a humanidade passou para um outro patamar da
crise; que esta crise é estrutural e isso significa que a
gente já está vivendo um período de transição. Para a
burguesia, a crise é algo inevitável, é como se fosse um
temporal. Mas a crise é uma relação social. Portanto, quem
determina para onde a crise vai é como a humanidade vai
reagir à crise.
A saída da crise está na luta de classes. Se
o proletariado se mexer e entrar na História como o
antagonista do capital, que, de fato é o capitalismo, vai
prolongar essa crise “ad infinitum”. Destrói a humanidade.
Mas qual o problema do capitalismo, ele não vive de
humanidade, ele vive de mais-valia.
Não há política nacional que dê conta do
desemprego, não há política nacional que supere o
desequilíbrio ecológico, que supere os problemas as
desigualdades históricas entre homens e mulheres, que seja
capaz de fazer qualquer distribuição de renda, seja ela qual
for. Não há o que fazer, a não ser a revolução.
A gente vive um momento histórico que
aparentemente é muito fechado, sem perspectivas, mas é o
contrário, as possibilidades são infinitas. O proletário tem
que assumir a luta aberta contra o capital e portanto, pelo
comunismo. Não dá mais para a gente enfrentar esse momento
histórico do modo como a gente fazia há dez, vinte anos
atrás; ampliar direitos, democratizar o Estado, a sociedade,
isso não funciona. A experiência histórica nos demonstra
isso. Mas os revolucionários têm que se reciclar, tem que
voltar ao Marx, não ficar mais nessa política de curto
prazo, de médio prazo. Tem que pensar grande, porque se um
revolucionário não pensar grande, quem é que vai pensar? |
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