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07/04/2009
Paraguai hoje
Na América
Latina, apenas o Paraguai esbanja energia, a ponto de
exportá-la. Ocorre que o Tratado de Itaipu não lhe permite
vendê-la no livre mercado
Frei Betto
No próximo
dia 8 de abril, o presidente Fernando Lugo faz sua primeira
visita oficial ao Brasil. Ex-arcebispo católico, Lugo, que
jamais havia militado em política partidária, se inclui
entre os cristãos identificados com a "opção preferencial
pelos pobres" e a Teologia da Libertação.
Em meados
de março, Leonardo Boff e eu participamos, em Assunção, da
Mesa de Diálogo Interreligioso, promovida pelo Mercosul,
como parte da agenda de interlocução do organismo com a
sociedade civil da América do Sul. Boff interveio com o tema
da preservação ambiental e coube a mim tratar das relações
entre Estado e denominações religiosas.
Com seis
milhões de habitantes (40% na pobreza e 20% na miséria), o
Paraguai foi governado, durante 61 anos, por um único
partido, o Colorado, ao qual pertencia o general Stroessner,
cuja ditadura durou 35 anos (1954-1989).
Com o fim
do regime autoritário, o Paraguai mergulhou na onda
neoliberal que assolou a América do Sul (Collor, Menen,
Fujimori etc.), tornando-se um enclave de corrupção,
contrabando e narcotráfico. Contudo, nas bases sociais houve
uma reorganização de movimentos populares e sindicais que,
impulsionados pelas Comunidades Eclesiais de Base, minaram
progressivamente a hegemonia dos colorados e criaram as
condições políticas para a eleição de Lugo.
A Aliança
Patriótica para a Mudança, que respaldou a candidatura do
atual presidente, congregava dez partidos políticos e 20
movimentos sociais articulados sob a emblemática Tekojoja
(expressão guarani - idioma falado por 87% dos paraguaios -
que significa "viver em igualdade").
Hoje,
Tekojoja se prepara para transformar-se em partido político,
com o grave risco de cooptar, para as estruturas do Estado,
lideranças populares, fragilizar o movimento social e não
respeitar sua autonomia, à semelhança do que ocorre no
Brasil com as centrais sindicais, demasiadamente
identificadas com propostas de partidos e governos.
O PIB
paraguaio é de cerca de US$ 14 bilhões e a inflação atual de
10,3%. A proposta prioritária do governo Lugo é reduzir a
pobreza absoluta ao longo dos cinco anos de seu mandato,
assegurando ao Paraguai soberania alimentar e energética.
Seu maior desafio é realizar as reformas política e agrária
e, assim, combater dois grandes problemas: o desemprego e a
migração juvenil. Calcula-se que, apenas no Brasil, haja 500
mil paraguaios, o que equivale à população da região
metropolitana de Assunção. Lugo quer industrializar o país e
incentivar a construção de moradias.
O grande
nó nas relações entre o Brasil e o Paraguai - que deve
centralizar as conversações entre Lugo e Lula - é a questão
da represa hidrelétrica de Itaipu. O país vizinho é,
proporcionalmente, o maior exportador de energia do mundo,
pois absorve apenas 9,5% da sua cota de 50% da energia
produzida pela central binacional. O excedente é vendido ao
Brasil. O Paraguai se queixa de não merecer a devida
compensação anual por parte de nosso país. Hoje essa
compensação é de aproximadamente US$ 300 milhões/ano. O país
vizinho reivindica um acréscimo de US$ 500 milhões/ano.
O Tratado
de Itaipu foi assinado em 1973 por dois governantes
ditatoriais: Stroessner pelo Paraguai e Médici pelo Brasil.
Acordaram o aproveitamento hidrelétrico do rio Paraná, que
banha os dois países. No ano seguinte se constituiu a
Binacional Itaipu e, para a construção da hidrelétrica, se
estabeleceu um capital de US$ 100 milhões proveniente, em
partes iguais e intransferíveis, das empresas Ande
(paraguaia) e Eletrobrás. De fato, a empresa brasileira
atuou como principal fonte de financiamento e, hoje, embolsa
anualmente do Paraguai, como amortização da dívida, US$ 2
bilhões. Não é por acaso que o PMDB insiste em manter a
empresa sob seu controle.
Itaipu
possui 12.600.000 kilowatts de potência. Em 2008, atingiu o
recorde mundial de produção de energia: 94.684.681.000 de kw/hora
(suficiente para abastecer toda a Argentina).
A energia
de Itaipu é comprada pelas empresas Ande (Paraguai), Furnas
e Eletrosul (Brasil). Pelo Tratado, o Paraguai é obrigado a
ceder ao Brasil a energia excedente de sua cota de 50%, não
pelo preço de mercado, mas por "uma compensação monetária
fixada pelo Brasil", equivalente a US$ 8/MWh. Assim, o país
vizinho subsidia a indústria brasileira... Se o Paraguai
pudesse vender esse excedente à Argentina, ao Chile ou ao
Uruguai - deficitários em energia - esses países pagariam de
35 a 40 dólares/MWh.
O Brasil,
devido às suas dimensões demográficas e ao seu parque
industrial, também sofre deficiência, tanto que em 2001
houve o apagão. Basta lembrar que toda a energia que o
Brasil capta de Itaipu corresponde a apenas 19% de suas
necessidades.
Na América
Latina, apenas o Paraguai esbanja energia, a ponto de
exportá-la. Ocorre que o Tratado de Itaipu não lhe permite
vendê-la no livre mercado. Nem o excedente da hidrelétrica
de Yacyretá o Paraguai pode exportar: o Brasil impede a
construção de uma linha que interligue Yacyretá a Itaipu.
Para
desatar esse nó, há uma negociação diplomática e outra
política. Na diplomática, de seis pontos requeridos pelo
Paraguai, quatro já foram aceitos pelo Brasil. A dificuldade
reside em permitir que o Paraguai promova auditoria da
dívida com a Eletrobrás e eleve o valor da energia
exportada.
As
negociações prosseguem em caráter sigiloso e tudo indica que
não serão submetidas aos parlamentos dos dois países, onde
há resistências a mudanças nas cláusulas do Tratado. Isso
significa que a solução para o impasse, restrita à esfera
dos poderes executivos, será eminentemente política, ou
seja, para se afirmar como líder do atual processo de
integração sul-americana, o Brasil terá que evitar qualquer
tendência imperialista e, ao defender a própria soberania,
reconhecer os direitos da nação paraguaia.
Frei Betto é escritor, autor
de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros. |
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