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05/06/2009
Crise
ambiental é desafio central
que enfrentamos no século XXI
“Vivemos meio século de um crescimento
exponencial da população global, e os impactos da tecnologia
e do crescimento econômico no ambiente planetário estão
colocando em risco o futuro da humanidade, assim como ela
existe hoje. Este é o desafio central que enfrentamos no
século 21. Vamos ter que abandonar a velha crença — imposta
não apenas pelos capitalistas — em um futuro de crescimento
econômico ilimitado na base da exaustão dos recursos do
planeta”. A afirmação é do historiador Eric Hobsbawm em
entrevista exclusiva à jornalista Verena Glass e publicada
na Revista Sem Terra, em comemoração à edição nº 50
(maio/junho 2009).
Eis a entrevista.
O planeta vive hoje uma crise que abalou
as estruturas do capitalismo mundial, atinge
indiscriminadamente atores em nada responsáveis pela sua
eclosão, e que talvez seja um dos mais importantes “feitos”
da moderna globalização. Na sua avaliação, quais foram os
fatores e mecanismos que levaram a esta situação?
Nos últimos quarenta anos, a globalização, viabilizada pela
extraordinária revolução nos transportes e, sobretudo, nas
comunicações, esteve combinada com a hegemonia de políticas
de Estado neoliberais, favorecendo um mercado global
irrestrito para o capital em busca de lucros. No setor
financeiro, isto ocorreu de forma absoluta, o que explica
porque a crise do desenvolvimento capitalista ocorreu ali.
Apesar do fato de que o capitalismo sempre — e por natureza
— opera por meio de uma sucessão de expansões geradoras de
crises, isto criou uma crise maior e potencialmente
ameaçadora para o sistema, comparável à Grande Depressão que
se seguiu a 1929, mesmo que seja cedo para avaliarmos todo o
seu impacto. Um problema maior tem sido que a tendência de
declínio das margens de lucro, típico do capitalismo, tem
sido particularmente dramática porque os operadores
financeiros, acostumados a enormes ganhos com investimentos
especulativos em épocas de crescimento econômico, têm
buscado mantê-los a níveis insustentáveis, atirando-se em
investimentos inseguros e de alto risco, a exemplo dos
financiamentos imobiliários “subprime” nos EUA. Uma enorme
dívida, pelo menos quarenta vezes maior do que a sua base
econômica atual foi assim criada, e o destino disso era
mesmo o colapso.
Como resposta à crise econômica, governos
e instituições financeiras estão concentrados em salvar os
sistemas bancário e financeiro, opção que tem sido
considerada uma tentativa de cura do próprio vetor causador
do mal. No que deve resultar este movimento?
Um sistema de crédito operante é essencial para qualquer
país desenvolvido, e a crise atual demonstra que isso não é
possível se o sistema bancário deixa de funcionar. Nesse
sentido, as medidas nacionais para restaurá-lo são
necessárias. Mas o que é preciso também é uma reestruturação
do Estado por exemplo, através das nacionalizações, a
“desfinanceirização” do sistema e a restauração de uma
relação realista entre ativos e passivos econômicos. Isso
não pode ser feito simplesmente combinando vastos subsídios
para os bancos com uma regulação futura mais restrita. De
toda forma, a depressão econômica não pode ser resolvida
apenas via restauração do crédito. São essenciais medidas
concretas para gerar emprego e renda para a população, de
quem depende, em última instância, a prosperidade da
economia global.
Antes de se agudizar o caos econômico, o
mundo começou a sofrer uma sucessão de abalos sociais e
ambientais, como a falta global de alimentos, as mudanças
climáticas, a crise energética, as crises humanitárias
decorrentes das guerras, entre outros. Como você avalia
estes fatores na perspectiva do paradigma civilizatório e de
desenvolvimento do capitalismo moderno?
Vivemos meio século de um crescimento exponencial da
população global, e os impactos da tecnologia e do
crescimento econômico no ambiente planetário estão colocando
em risco o futuro da humanidade, assim como ela existe hoje.
Este é o desafio central que enfrentamos no século 21. Vamos
ter que abandonar a velha crença — imposta não apenas pelos
capitalistas — em um futuro de crescimento econômico
ilimitado na base da exaustão dos recursos do planeta. Isto
significa que a fórmula da organização econômica mundial não
pode ser determinada pelo capitalismo de mercado que,
repito, é um sistema impulsionado pelo crescimento
ilimitado. Como esta transição ocorrerá ainda não está
claro, mas se não ocorrer, haverá uma catástrofe.
O capitalismo tem adquirido, cada vez
mais, uma força hegemônica na agricultura com o crescimento
do agronegócio. Muitos defendem que a Reforma Agrária não
cabe mais na agenda mundial. Como vê este debate e a luta
pela terra de movimentos sociais como o MST e a Via
Campesina?
A produção agrícola necessária para alimentar os seis
bilhões de seres humanos do planeta pode ser fornecida por
uma pequena fração da população mundial, se compararmos com
o que era no passado. Isso levou tanto a um declínio
dramático das populações rurais desde 1950, quanto a uma
vasta migração do campo para as cidades. Também levou a um
crescente domínio da agricultura por parte não tanto do
grande agronegócio, mas principalmente de empreendimentos
capitalistas que hoje controlam o mercado desta produção. Da
mesma forma, têm aumentado os conflitos entre agricultores e
iniciativas empresariais na disputa pela terra para
propósitos não agrícolas (indústrias, mineração, especulação
imobiliária, transporte etc.), bem como pela sua posse e
pela exploração dos recursos naturais. A Reforma Agrária sem
duvida não é mais tão importante para a política como foi há
40 anos, pelo menos Insustentável: crescimento econômico e
da população colocam em risco o futuro da amizade na América
Latina, mas claramente permanece uma questão central em
muitos outros países. Na minha opinião, a crise atual
reforça a importância da luta de movimentos como o MST, que
é mais social do que econômica. Em tempos de vacas gordas é
muito mais fácil ganhar a vida na cidade. Em tempos de
depressão, a terra, a propriedade familiar e a comunidade
garantem a segurança social e a solidariedade que o
capitalismo neoliberal de mercado tão claramente nega aos
migrantes rurais desempregados.
Na virada do século, um novo movimento
global de resistência social tomou corpo através do que
ficou conhecido como altermundialismo. Surgiu o Fórum Social
Mundial, e grandes manifestações contra a guerra e
instituições multilaterais, como a OMC, o G8 e a ALCA, na
América Latina, ganharam as ruas. Na sua avaliação, o que
resultou destes movimentos? E hoje, como vê estas
iniciativas?
O movimento global de resistência altermundialista merece o
crédito de duas grandes conquistas: na política, ressuscitou
a rejeição sistemática e a crítica ao capitalismo que os
velhos partidos de esquerda deixaram atrofiar. Também foi
pioneiro na criação de um modo de ação política global sem
precedentes, que superou fronteiras nacionais nas
manifestações de Seattle e nas que se seguiram. Grosso modo,
logrou formular e mobilizar uma poderosa opinião pública que
seriamente pôs em cheque a ordem mundial neoliberal, mesmo
antes da implosão econômica. Seu programa propositivo,
porém, tem sido menos efetivo, em função, talvez, do grande
número de componentes ideologicamente e emocionalmente
diversos dos movimentos, unificados apenas em aspirações
muito generalistas ou ações pontuais em ocasiões
específicas.
Principalmente na América Latina, os anos
2000 trouxeram uma série de mudanças políticas para a região
com a eleição de governadores mais progressistas. A
sociedade civil organizada ganhou espaço nos debates
políticos, mas os avanços na garantia dos direitos sociais
ainda esperam por uma maior concretização. Como analisa este
fenômeno?
O fator mais positivo para a América Latina é a diminuição
efetiva da influência política e ideológica — e, na América
do Sul, também econômica — dos EUA. Um segundo fator muito
importante é o surgimento de governos progressistas —
novamente mais fortes na América do Sul —, inspirados pela
grande tradição da igualdade, fraternidade e liberdade, que
comprovadamente está mais viva aí do que em outras regiões
do mundo neste momento. Estes novos regimes têm se
beneficiado de um período de altos preços de seus bens de
exportação. Quão profundamente serão afetados pela crise
econômica, principalmente o Brasil e a Venezuela, ainda não
está claro. Suas políticas têm logrado algumas melhorias
sociais genuínas, mas até agora não reduziram
significativamente as enormes desigualdades econômicas e
sociais de seus países. Esta redução deve permanecer a maior
prioridade de governos e movimentos progressistas.
Diante da crise civilizatória, do fracasso
do capitalismo e da inoperância dos sistemas multilaterais,
que não foram aptos a enfrentar as grandes questões
mundiais, as esquerdas têm se debatido na busca de
alternativas; mas nem consensos nem respostas parecem
despontar no horizonte. Haveria, em sua opinião, a
possibilidade real da construção de um novo socialismo, uma
nova forma de lidar com o planeta e sua gente, capaz de
enfrentar a hegemonia bélica, econômica e política do
neoliberalismo?
Eu não acredito que exista uma oposição binária simples
entre “um novo socialismo” e a “hegemonia do capitalismo”.
Não existe apenas uma forma de capitalismo. A tentativa de
aplicar um modelo único, o “fundamentalismo de mercado”
global anglo-americano, é uma aberração histórica, que
potencialmente colapsou agora e não pode ser reconstruída.
Por outro lado, o mesmo ocorre com a tentativa de
identificar o socialismo unicamente com a economia
centralizada planejada pelo Estado dos períodos soviético e
maoísta. Esta também já era (exceto talvez se nosso século
for reviver os períodos temporários de guerra total do
século 20). Depois da atual crise, o capitalismo não vai
desaparecer. Vai se ajustar a uma nova era de economias que
combinarão atividades econômicas públicas e privadas. Mas o
novo tipo de sistemas mistos tem que ir além das várias
formas de “capitalismo de bem estar” que dominou as
economias desenvolvidas nos trinta anos que se seguiram à
Segunda Guerra Mundial.
Deve ser uma economia que priorize a justiça
social, uma vida digna para todos e a realização do que
Amaratya Sen chama de potencialidades inerentes aos seres
humanos. Deve estar organizada para realizar o que está além
das habilidades do mercado dos caçadores-de-lucro,
principalmente para confrontar o grande desafio da
humanidade neste século 21: a crise ambiental global. Se
este novo sistema se comprometer com os dois objetivos,
poderá ser aceitável para os socialistas, independente do
nome que lhe dermos. O maior obstáculo no caminho não é a
falta de clareza e concordância entre as esquerdas, mas o
fato de que a crise econômica global coincide com uma
situação internacional muito perigosa, instável e incerta,
que provavelmente não estabelecerá uma nova estabilidade por
algum tempo. Entrementes, não há consenso ou ações comuns
entre os Estados, cujas políticas são dominadas por
interesses nacionais possivelmente incompatíveis com os
interesses globais.
Conceitos como solidariedade, cooperação,
tolerância, justiça social, sustentabilidade ambiental,
responsabilidade do consumidor, desenvolvimento sustentável,
entre outros, têm encontrado eco, mesmo de forma ainda
frágil, na opinião pública. Acredita que estes princípios
poderão, no futuro, ganhar força e influenciar a ordem
mundial? Vê algum caminho que possa aproximar a humanidade a
uma coabitação harmoniosa?
Os conceitos listados estão mais para slogans do que para
programas. Eles ou ainda precisam ser transformados em ações
e agendas (como a redução de gases de efeito estufa,
encorajada ou imposta pelos governos, por exemplo), ou são
subprodutos de situações sociais mais complexas (como
“tolerância”, que existe efetivamente apenas em sociedades
que a aceitam ou que estão impedidas de manter a
intolerância). Eu preferiria pensar na “cooperação” não
apenas como um ideal generalista, mas como uma forma de
conduzir as questões humanas, como as atividades econômicas
e de bem estar social. Me entristece que a cooperação e a
organização mútua, que eram um elemento tão importante no
socialismo do século 19, desapareceram quase que
completamente do horizonte socialista do século 20 – mas
felizmente não da agenda do MST. Espero que esta lista de
conceitos continue conquistando o apoio e mobilize a opinião
pública para pressionar efetivamente os governos. Não
acredito que a humanidade alcançará um estado de “coabitação
harmoniosa” num futuro próximo. Mas mesmo se nossos ideais
atualmente são apenas utopias, é essencial que homens e
mulheres lutem por elas.
O senhor, que estudou com profundidade a
história do mundo e as relações humanas nos últimos séculos,
o que espera do futuro?
Se a crise ambiental global não for controlada, e o
crescimento populacional estabilizado, as perspectivas são
sombrias. Mesmo se os efeitos das mudanças climáticas possam
ser estabilizados, produzirão enormes problemas que já são
sentidos, como a crescente competição por recursos hídricos,
a desertificação nas zonas tropicais e subtropicais, e a
necessidade de projetos caros de controle de inundações em
regiões costeiras. Também mudarão o equilíbrio internacional
em favor do hemisfério Norte, que tem largas extensões de
terras árticas e subárticas passíveis de serem cultivadas e
industrializadas. Do ponto de vista econômico, o centro de
gravidade do mundo continuará a se mover do Oeste (América
do Norte e Europa) para o Sul e o Leste asiático, mas o
acúmulo de riquezas ainda possibilitará às populações das
velhas regiões capitalistas um padrão de vida muito superior
às dos emergentes gigantes asiáticos. A atual crise
econômica global vai terminar, mas tenho dúvidas se
terminará em termos sustentáveis para além de algumas
décadas. Politicamente, o mundo vive uma transição desde o
fim da Guerra Fria. Se tornou mais instável e perigoso,
especialmente na região entre Marrocos e Índia. Um novo
equilíbrio internacional entre as potências — os EUA, China,
a União Européia, Índia e Brasil — presumivelmente ocorrerá,
o que poderá garantir um período de relativa estabilidade
econômica e política, mas isto não é para já. O que não pode
ser previsto é a natureza social e política dos regimes que
emergirão depois da crise. Aqui as experiências do passado
não podem ser aplicadas. O historiador pode falar apenas das
circunstâncias herdadas do passado. Como diz Karl Marx: a
humanidade faz a sua própria história. Como a fará e com que
resultados, muitas vezes inesperados, são questões que
ultrapassam o poder de previsão do historiador.
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