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03/08/2009
Carta Política do III
Seminário Nacional sobre Agrotóxicos, Saúde
e Sociedade
A Lei dos
Agrotóxicos (Lei nº 7.802, de 12 de julho de 1989) está
fazendo 20 anos e foi fruto de uma grande mobilização da
sociedade, tendo sido aprovada pela representação popular no
Congresso Nacional. Apesar dos avanços conquistados com a
definição desta Lei que regula sobre o controle, a inspeção
e a fiscalização de agrotóxicos, pouco tem sido implementado
para efetivar ações de prevenção e controle dos efeitos
nocivos destes produtos e ainda são tímidas as sanções e
punições aplicadas àqueles que descumprem a lei.
Ao mesmo
tempo, o Brasil assumiu, em 2008, a posição de maior
consumidor mundial de agrotóxicos e continua sendo a
“lixeira do mundo”, usando venenos já proibidos em vários
países (da União Européia, nos Estados Unidos, no Japão e na
China) por causarem impactos à saúde e ao ambiente.
O modelo
de desenvolvimento baseado no agronegócio promovido pelo
governo brasileiro levou o país a ser um grande produtor
para exportação de soja, cana-de-açúcar, milho, algodão,
carnes e café, em detrimento da produção sustentável de
alimentos básicos. Este modelo exclui as famílias
agricultoras, concentra a renda, a terra e os recursos
naturais, degrada severamente o ambiente, e “exporta” água,
solo, recursos minerais e a saúde de milhões de
trabalhadores. Vendemos commodities à custa da morte
silenciosa dos trabalhadores e dos consumidores.
A
atividade agropecuária realizada no âmbito do agronegócio
usa agrotóxicos de forma desrespeitosa, e muitas vezes
criminosa. Estes venenos contaminam a nossa água, nossos
solos, o ar que respiramos, contribuindo para a extinção da
biodiversidade e ameaçando os modos de produção camponeses e
tradicionais, com impacto sobre a cultura alimentar. Esta
situação faz com que diferentes grupos da população
brasileira – trabalhadores rurais, moradores do entorno dos
grandes empreendimentos agrícolas, trabalhadores das
fábricas de venenos, moradores de seu entorno, como também
consumidores, sejam expostos aos agrotóxicos e consumam
alimentos e água contaminados, com o agravante de estarem
expostos a venenos de alto risco. Tais impactos são
distribuídos de forma desigual entre os diferentes
territórios e segmentos sociais, o que denunciamos como
injustiça ambiental.
O uso de
agrotóxicos é promovido pela modernização conservadora da
agricultura e defendido pelas grandes corporações e pelo
Estado brasileiro. É possível evidenciar a contribuição de
diversas políticas públicas, em especial o crédito rural, no
financiamento subsidiado dos venenos agrícolas. Do mesmo
modo, o setor industrial de agrotóxicos se beneficia da
redução de impostos, o que estimula ainda mais o consumo.
Este modelo onera o orçamento público, com crescentes gastos
na assistência à saúde, em atividades de controle do uso de
agrotóxicos e na recuperação ambiental. Ao contrário, há uma
fragilidade das políticas públicas no que diz respeito ao
apoio a alternativas sustentáveis para a agricultura.
As
organizações sociais participantes do III Seminário Nacional
de Agrotóxicos, Saúde e Ambiente exigem um modelo de
desenvolvimento que privilegie a vida, através do
comprometimento do Estado em relação ao controle dos
agrotóxicos, efetivando o cumprimento da lei, implementando
um controle social eficaz na regulação e monitoramento dos
riscos socioeconômicos e ambientais dos agrotóxicos na
perspectiva da total eliminação de seu uso.
Também
exigimos o reconhecimento e a potencialização das
experiências de produção de base ecológica existentes em
todo o país, como alternativas concretas ao uso dos
agrotóxicos. É necessária a implementação urgente de
políticas públicas voltadas para a promoção da transição do
atual modelo agrícola para uma produção orientada pelos
princípios da Agroecologia.
Lutamos
por uma alimentação saudável e pelo efetivo cumprimento da
Lei de Segurança Alimentar e Nutricional (Lei nº 11.346, de
15 de setembro de 2006), pelo acesso à terra e aos recursos
naturais, como direitos fundamentais do povo brasileiro.
Dessa forma, exigimos dos Governos, legisladores, juristas e
Ministério Público, total empenho na defesa ampla e
irrestrita desses direitos.
Repudiamos
a atuação da bancada ruralista no Congresso Nacional e seus
aliados que legitimam as estratégias das indústrias de
agrotóxicos e do agronegócio, criando subterfúgios para
obstruir as ações de controle dos órgãos oficiais,
menosprezando os impactos ambientais e sobre a saúde
causados por estes produtos e propondo mudanças na Lei dos
Agrotóxicos, que podem destruir os avanços conquistados pela
sociedade.
É o que
desejam as organizações participantes do III Seminário
Nacional Agrotóxicos, Saúde e Sociedade.
Uma luta pela vida, uma luta por direitos!
Brasília,
10 de julho de 2009.
Articulação Nacional de Agroecologia – ANA
Associação
Brasileira de Agroecologia - ABA Agroecologia
Associação
de Agricultura Ecológica Ipê e Antonio Prado
Associação
de Cooperação Agrícola do Estado do Ceará - ACACE
Associação
de Moradores do Novo Maracanaú
Associação
dos Trabalhadores Expostos a Substâncias Químicas – ATESQ –
SP e Campinas
Associação
Porfirio Nogueira da Costa Lagoa dos Cavalos
Centro de
Agricultura Alternativa - CAA-NORTE-MG
Centro de
Apoio ao Pequeno Agricultor - CAPA
Centro de
Formação Socioagrícola Dom Helder Câmara
Centro
Ecológico
Comissão
de Segurança Ambiental e Saúde de Campos das Vertentes -
COMSASCAVE
Comissão
Pastoral da Terra - CPT
Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura -
CONTAG
Federação de Órgãos para
Assistência Social e Educacional
- FASE
Federação
de Agricultura Familiar do Mato Grosso do Sul – FETRAF MS
Federação
dos Trabalhadores da Agricultura de Sergipe - FETASE
Federação
dos Trabalhadores da Agricultura Familiar - FETRAF-SUL
Federação
dos Trabalhadores na Agricultura de Santa Catarina - FETASC
Fórum
Carajás
Fórum
Matogrossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento – FORMAD -
MT
Fundação
Rio Parnaíba - FURPA
Instituto
de Defesa do Consumidor – IDEC - SP
Movimento
das Mulheres Camponesas - MMC
Movimento
dos Pequenos Agricultores – Nacional e do MT
Movimento
dos Sem Terra - MST
Núcleo
TRAMAS – Universidade Federal do Ceará
ONG Centro
de Estudos Ambientais
Rede
Brasileira de Justiça Ambiental
Rede
Brasileira de Justiça Ambiental
Regional
das Associações dos Centros Familiares de Formação por
Alternância do Espírito Santo - RACEFFAES
Sindicato
dos Trabalhadores Rurais de Lucas do Rio Verde
Sociedade
Maranhense de Direitos Humanos - SMDH-MA
União das
Associações Comunitárias do Interior de Canguçu – UNAIC - RS
Sindicato
Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento
Agropecuário - SINPAF |