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02/09/2009
Matar um sem terra.
Como transformar o assassino em inocente e a vítima em
culpado
Por Antonio
Cechin e Jacques Távora Alfonsin
A Secretaria de Segurança do
Rio Grande do Sul já comunicou que vai manter em sigilo a
identidade do assassino de Elton Brum da Silva, morto pelas
costas, por um brigadiano, durante a execução de uma ordem
judicial de reintegração de posse no município de São
Gabriel, no dia 21 de agosto passado.
A estratégia não surpreende
quem vem acompanhando a dura perseguição movida pelo Poder
Público do Estado contra os movimentos sociais, MST entre os
mais visados, acentuada em violência, tortura e crueldade
desde abril de 2007, quando o Conselho Superior do
Ministério Público estadual decidiu extinguir aquele
Movimento.
Violações as mais aberrantes à
dignidade humana, à cidadania e aos direitos humanos
fundamentais das/os sem-terra tentam bloquear qualquer tipo
de protesto em defesa desses mesmos direitos.
“Não falem” (direito de
opinião), “não se mexam” (direito de locomoção) “não se
juntem” (direito de reunião), “fechem suas escolas” (direito
à educação), “fechem suas farmácias caseiras” (direito à
saúde), “identifiquem-se como criminosas/os, deitem com o
rosto no chão, aguentem a surra das nossas armas” (abuso de
poder e autoridade) são ordens que todo esse povo
trabalhador e pobre recebe frequentemente da Brigada
Militar, cumprindo mandados judiciais pleiteados pelo
Ministério Público.
No dia 21 de agosto passado,
inibir as liberdades constitucionais era pouco. A “lição”
tinha de ser eliminar a vida. A ordem para Elton foi
“morra.”
Poder-se-ia pensar que, diante
da gravidade do fato (um tiro pelas costas dado por um
brigadiano numa pessoa desarmada) todas aquelas brutalidades
inconstitucionais - e oficiais, o que é muito mais grave -
pudessem, quando menos, envergonhar o Executivo do Estado, a
sua Secretaria de Segurança, a Brigada Militar e o
Judiciário, particularmente o Ministério Público. Não há
nenhum sinal convincente disso. Até pelo contrário. Estão em
curso três posicionamentos táticos, típicos das ditaduras,
objetivando enredar toda a história do ocorrido, dentro do
“devido processo legal”, para que o tempo se encarregue de
levar tudo ao esquecimento, mantendo quente a temperatura da
repressão violenta ao povo.
O primeiro é o de não tornar
pública a identificação do assassino (não vá o homem dizer
alguma coisa que não deve...); o segundo é o de salvar as
aparências de que “as instituições democráticas funcionam
normalmente, aqui no Estado, e existem prazos para apuração
dos fatos”; o terceiro é o de acentuar a criminalização
progressiva do MST, aproveitando ao máximo opiniões de
mídia, conscientes ou não da instrumentalização com que são
usadas, capazes de desviar o foco da vergonhosa covardia,
atribuindo tudo o que aconteceu ao MST.
No último fim de semana, essa
terceira tática já viveu um dos seus momentos, mas com um
sério revés. Uma das mais tradicionais vozes de condenação
daquele Movimento, atribuiu-lhe, entre outras coisas,
“tranqüilidade” para invadir terras como a de alguém que
“vai ao banheiro do restaurante”; seus instrumentos não são
de borracha como as balas da Brigada; é um Movimento
totalitário que impediu até a fala de um promotor em Caxias
do Sul. “Trabalhar a terra, há muito, não é mais seu
objetivo verdadeiro.”
Recebeu resposta na mesma
edição e na mesma página do jornal. Assinada, por sinal,
por quem tem uma história de defesa dos direitos humanos sem
comparação com a do critico do MST, do qual, a rigor, o que
mais se conhece é o azedume com que verbera tudo o que, de
alguma forma, cheire a defesa material daqueles direitos.
Quem dera um/a acampado/a
sem-terra, às vezes durante anos, suportando as mais duras
condições de vida, tendo de si apenas a esperança de
conquistar o seu pedaço de chão, pudesse, sequer, entrar num
restaurante. O crítico do MST, pela facilidade da imagem
que enfeitou o seu deboche, deve freqüentar muitos
restaurantes. Conviria que ele um dia se servisse do
“banheiro” de um acampamento e conferisse os pobres
instrumentos de trabalho que não são de borracha, como
ridicularizou. De borracha e cacetete o que esses
trabalhadores conhecem, mesmo, é a dos outros “instrumentos
de trabalho” que os agridem nas execuções das ordens
judiciais. Um deles, agora mesmo, está debaixo da terra que
lhe foi negada, e não foi bala de borracha que o abateu.
Se a tal opinião, ainda,
condena quem impediu um promotor de falar, em Caxias do Sul,
como prova de totalitarismo, admira que não tenha se
escandalizado com o totalitarismo sob o qual o Ministério
Público do Estado armou um inquérito secreto para
surpreender, à traição, como aquela que matou o Elton, não
só o MST, mas qualquer cidadão minimante consciente da
injustiça social estrutural de que são vítimas os
agricultores sem terra gaúchos e brasileiros. Um desses
promotores, por sinal, quando as vozes iradas das muitas
vítimas da sua truculência começaram a ecoar, aí sentiu.
Achou melhor posar de vítima e fugir da raia que ele mesmo
tinha armado.
Por tudo isso, as nossas
leitoras e leitores que se cuidem. Quando entrarem no
banheiro de um restaurante, o álcool-gel que os defendem da
gripe suína não os imunizará contra o veneno que destila a
crítica do MST publicada no último fim de semana. Talvez
seja o caso, então, de colocá-la ao lado do vaso, na cesta
dos papéis higiênicos usados. |
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